Um dia simbólico para os refugiados


João Pedro Pimenta,

Todos os números demonstram que de ano para ano chegam menos refugiados à Europa. De 2015 em diante, os números são claramente mais baixos. E no entanto ainda são pretexto para discursos inflamados de ódio e publicações em páginas manhosas de autores não identificados nas redes sociais (ou de oportunismos descarados pela barricada adversária, aquela que escreve “refugiados bem vindos, turistas vão-se embora”).

Este ano o Prémio Nobel da Paz coube, e muito justamente, a Denis Mukwege, um médico congolês que ao longo dos anos tem tratado milhares de mulheres violadas nas terríveis e quase ignoradas guerras que assolam a região dos Grandes Lagos de África; e Nadia Murad, uma rapariga iraquiana yazidi que se viu escravizada e vítimas das maiores sevícias pelos membros da seita conhecida como “Estado Islâmico”, depois de ver a sua família massacrada pelos mesmos, e que conseguiu fugir do seu cativeiro para a Alemanha. Um médico tratando de mulheres refugiadas no seu próprio país (ou dos vizinhos mais pequenos) e uma refugiada vítima de uma das maiores pragas dos últimos anos. A distinção que lhes coube relembra como os refugiados nem sempre são “invasores” nem migrantes económicos, mas sim, na maior parte dos casos – daí o estatuto que detêm – pessoas que fogem da guerra e da morte quase certa, sempre em condições dramáticas e difíceis de suportar para a maioria dos que vivem na Europa ocidental. Por vezes ficam e até se superam. Eles ou os descendentes.

 

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No mesmo dia do anúncio dos prémios, a 6 de Outubro, decorriam as cerimónias fúnebres de Charles Aznavour, na catedral arménia em Paris, com honras de estado na presença das mais altas figuras de França e da Arménia. Aznavour era uma das grandes figuras da música francesa, um resistente e uma voz que parecia eterna, e também uma das grandes figuras da francofonia. Mas era igualmente filho de refugiados, que como milhares de outros arménios, se refugiaram em França fugidos do genocídio do povo arménio perpetrado pelos turcos durante e depois da I Guerra, designação ainda hoje negada no país. O cantor apoiava a diáspora dos arménios e as suas causas e entrou mesmo em filmes que recordavam a desdita de que foram alvo (em Ararat, por exemplo).

 

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Assim, no mesmo dia em que o Nobel da Paz era atribuído a refugiados e seus protectores, assistiu-se à despedida de um filho de refugiados que se tornou num dos mais queridos artistas do país que acolheu os seus pais. Uma coincidência feliz e simbólica, que podia e devia ter sido mais realçada.
Um bom ano de 2019 para todos.

23 comentários em “Um dia simbólico para os refugiados”

  1. Grande vida e grande Homem.
    Os refugiados diminuíram devido a uma circunstância inequívoca: a entrada da Rússia na guerra do médio oriente.
    Por outro lado, a AIS – Ajuda a Igreja que Sofre continua a fazer uma obra incrível junto das populações, e não só cristãos.

    Felicidades de agora em diante.

  2. Grande postal para terminar o 18 e iluminar o 19. Parabéns e muito obrigado (ainda por cima é a primeira coisa que leio este ano, belo prenúncio).

  3. E tivemos o Populismo.

    O primarismo do texto apresentando-nos uma realidade binária quando conceitos essenciais nem aparecem no texto:
    -quantidade, massa crítica.
    -qualidade

    Vejamos por examplo a qualidade do caso apresentado, Charles Aznavour um refugiado da Arménia que é só o que se pode chamar o primeiro país de cultura Cristã.
    Quantos atentados e ataques os Arménios fizeram na Europa?
    Quantos textos os Arménios têm em que desejam a destruição da Europa?

    O autor por exemplo poderia ter ido buscar a Zaha Hadid.

    Isto sem sequer chegarmos a eventual Orwell newspeak de usar a palavra refugiados para significar imigrantes…

    O texto não tem valor algum, é só um sinal para os pares. É como vestir a camisola de uma qualquer clube de futebol e dizer vejam eu sou dos vossos.
    Como aliás ficou demonstrado.

    1. Caríssimo lucklucky, vejo que ainda não recuperou da passagem de ano. Só isso justifica que não tenha usado uma única vez o termo “marxista”.

      Não gostou do texto, e é um precioso direito que lhe assiste, assim como é meu direito dizer também que não gostei da sua interpretação: é que se tivesse lido bem verificaria que coloquei ali Aznavour porque o dia das suas cerimónias fúnebres coincidiu com o do anúncio dos vencedores do Nobel da Paz de 2018; e logo no segundo parágrafo esclareço que os refugiados não são emigrantes, (embora eventualmente o possam vir a ser), nem invasores com propósitos bélicos. Mas pelos vistos, no seu julgamento, há quem deva ficar com o estatuto de refugiado em função da religião e quem não deva, tendo por isso de morrer em guerras ou no meio do mar.

      1. Porque é que você assume a responsabilidade de dezenas, centenas de milhões de pessoas de África, Médio Oriente sempre em conflito?
        Não tem a consciência da fragilidade da civilização na Europa?

        E porque é que quem está preocupado com os refugiados não defende a abertura dos aeroportos? E assim permitir chegar aos mais vulneráveis?
        Porque é que têm de vir de barco com muito mais risco, pagando milhares a traficantes e beneficiando claro as pessoas com melhor forma física.

        Porque é que importar pessoas com costumes muitas vezes contrários aos dos Europeus é uma coisa boa?
        Não arrisca formar quer eleitoralmente quer em termos de segurança ainda mais tendência totalitárias como se a Europa já não tivesse bastantes por nós próprios?

        Porque é que quer reforçar a Aliança Marxismo-Islamismo (1)?

        (1) a pedido

        1. Aliança Marxismo-Islamismo? Ó lucklucky, interne-se. Ou os marxistas são ateus ferrenhos ou são “islâmicos”. Não podem ser as duas coisas. Decida-se.
          E sim, eu tenho consciência da “fragilidade da civilização na Europa”. Foi o que se viu em 1914 e em 1939, com os resultados que todos sabemos: no continente mais rico do mundo, os europeus estavam a matar-se uns aos outros.
          Muito ironicamente, os “nacionalistas brancos” defendem precisamente a ideologia que mais brancos matou na História.

          “Porque é que você assume a responsabilidade de dezenas, centenas de milhões de pessoas de África, Médio Oriente sempre em conflito?”

          O lucklucky sabe quem invadiu o Iraque em 2003? Não deve saber.

        2. “E porque é que quem está preocupado com os refugiados não defende a abertura dos aeroportos? E assim permitir chegar aos mais vulneráveis?
          Porque é que têm de vir de barco com muito mais risco, pagando milhares a traficantes e beneficiando claro as pessoas com melhor forma física.”

          Eu defendo a abertura dos aeroportos. Já o lucklucky prefere mesmo a imigração dita ilegal, para os patrões poderem explorar os imigrantes a seu bel-prazer.

        3. “Porque é que você assume a responsabilidade de dezenas, centenas de milhões de pessoas de África, Médio Oriente sempre em conflito?”

          Porque geograficamente estamos mais próximos e podemos prestar esse apoio. Países mais pequenos e com menos meios, como o Líbano e a Jordânia, fazem muito mais. E não que dizer que fiquem permanentemente, mas não os podemos deixar morrer a meio do caminho.

          “E porque é que quem está preocupado com os refugiados não defende a abertura dos aeroportos? (…)
          Porque é que têm de vir de barco com muito mais risco, pagando milhares a traficantes e beneficiando claro as pessoas com melhor forma física.”

          Seria talvez uma ideia a pensar, mas não me parece que haja grande condições para voos. De onde é que partiriam? da Síria, do Sudão, da Líbia? É preciso que haja condições e permissão para isso.

          E quanto ao resto não quero “importar” ninguém, até porque as pessoas não são mercadorias, mas somente impedir que morram de forma indigna.
          Mas enfim, lá falou de marxismo. Tirando o moribundo movimento britânico “Respect” não sei onde podemos encontrar tal “aliança”.

  4. Tal coincidência deveria ter tido mais eco, sim… mas se não tece antes, terá agora com este postal.

    Que 2019 nos encontre melhores para que daqui a 363 dias possamos dizer que 2019 foi melhor…

    … e Feliz 2019, João Pedro!

  5. Por causa do texto fui ontem procurar dados sobre refugiados na UEFA (esses que não sao linearmente emigrantes, como o texto explicita). Os numeros Eurostat sao claros: em 2017 imenso, para os valores de 2014 – sendo que à “Crise de refugiados” se costuma atribuir um inicio em 2013. E para 2018 tudo perspectiva que os numeros sejam ainda menores. E tratam-se de valores que rondam o meio milhao de concessoes nos 28 países – muita gente, se pensada em termos das problemáticas inseridas na questão “refugiados”. Mas, obvia e notoriamente, questão diversa – ainda que conectavel – com à questão das vagas migratorias. Tambem por tudo isto à camisola do clube deste texto também a visto.

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