Um confidente de Salazar


Pedro Correia,

 

"Os acontecimentos podem mais do que a vontade dos homens."

Salazar, em carta a Pedro Theotónio Pereira (1949)

 

À medida que os arquivos vão sendo abertos e exaustivamente analisados, torna-se mais rigoroso o escrutínio histórico do longo consulado de António de Oliveira Salazar. Uma das obras que nos ajuda a desvendar esse período tão controverso e ainda tão obscuro é a Correspondência Política (1945-68) entre Salazar e Pedro Theotónio Pereira (PTP), agora editada sob a chancela dupla Círculo de Leitores-Temas e Debates. Um extenso volume de 764 páginas que abarca algumas das fases determinantes do salazarismo. PTP (1902-72) foi um dos colaboradores mais próximos de Salazar e chegou a ser apontado como seu virtual delfim, acabando por ficar afastado do atribulado processo da sucessão do ditador, em 1968, por sofrer de uma doença grave.

Secretário de Estado das Corporações e ministro do Comércio e Indústria nos anos 30, ainda muito jovem, enviado permanente de Lisboa junto do quartel-general de Franco durante a guerra civil espanhola, embaixador em Madrid, Rio de Janeiro, Londres e Washington, ministro da Presidência no complexo triénio 1958-61, em que se jogou a sobrevivência do regime, era um dos raros confidentes de Salazar. Uma das escassas fotos do fundador do Estado Novo sem gravata foi tirada, na barra do Tejo, a bordo do barco de recreio deste integralista convertido à ‘normalidade’ do regime sem abdicar das suas convicções de origem mas também sem perder uma certa visão cosmopolita da política, que chocava com o provincianismo de muitos salazaristas. A sua acção foi decisiva, por exemplo, para que Portugal integrasse o núcleo de países fundadores da NATO.

 

A promessa de troca de correspondência aqui lançada só em parte é cumprida. São escassas as cartas de Salazar a PTP – embora se incluam algumas peças notáveis, nomeadamente uma de Junho de 1949 em que o então presidente do Conselho analisa o Plano Marshall e a nova situação geopolítica dominada pelos EUA. “Os acontecimentos podem mais do que a vontade dos homens”, sentenciava Salazar, sem a mínima pose de “homem providencial” com que a propaganda da época o enfeitava. Uma frase que pode aplicar-se a qualquer época…

Independentemente da cumplicidade política, e do óbvio sentimento de admiração que PTP dedica a Salazar, as divergências entre ambos tornam-se patentes quando o embaixador recusa dois convites para assumir pastas ministeriais ou insiste em ser libertado das funções diplomáticas. E é surpreendente a franqueza, às vezes quase brutal, com que alude a personalidades que foi conhecendo nas sucessivas chancelarias – do generalíssimo Franco, que lhe merece as maiores reservas (“Este animal não é susceptível de ser aconselhado. Nem os seus próprios ministros sabem nada do que leva dentro da cabeça”, p. 134; “O galego é rancoroso”, p. 141), a John Kennedy, que o recebeu na Sala Oval dias antes de ser morto em Dallas, passando pela rainha Isabel II e pelos políticos brasileiros.

Envia a Salazar telegramas cifrados e recortes da imprensa estrangeira, em espanhol, inglês e francês. Escandaliza-se com os 23 diários que se publicavam na década de 40 no Rio: “As primeiras páginas vêm carregadas de títulos loucos ou extravagantes, destinados a captar a atenção das massas. Insultos, insinuações, calúnias, aparecem de mistura com as notícias sensacionais e tudo em letras gordas. (…) Toda a vida brasileira está envenenada por um louco frenesim.” (p. 186)

E há revelações bem curiosas: escrevendo de Washington em Fevereiro de 1948, o salazarista PTP revela uma clara preferência pela vitória do democrata Harry Truman na eleição presidencial desse ano.

 

Esta Correspondência Política – uma obra organizada e prefaciada por João Miguel Almeida, investigador da Universidade Nova de Lisboa – só peca por alguns erros (sobretudo nas datas) contidos em notas de rodapé e legendas de fotografias, e ainda pela incompreensível ‘actualização’ do nome do embaixador, fazendo cair o H de Theotónio, apelido de família. Defeitos menores num livro que merece leitura atenta.

 

António de Oliveira Salazar – Pedro Theotónio Pereira: Correspondência Política (1945-68). Coordenação e prefácio da edição: João Miguel Almeida. Círculo de Leitores-Temas e Debates, Lisboa, Novembro de 2008

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8 comentários em “Um confidente de Salazar”

  1. Com efeito, afastada a possibilidade de Pedro Theotónio Pereira poder ser o novo primeiro-ministro, em 1968, ficaram dois: Marcello José das Neves Alves Caetano e João de Matos Antunes Varela. Jamais se saberá se teria sido melhor este ou aquele.

    Ancorado numa alargada consulta às altas figuras do Estado, a escolha do sucessor de Oliveira Salazar foi por certo a única decisão verdadeiramente política que Américo Tomás se viu obrigado a tomar, desde que foi feito Presidente da República pelo Presidente do Conselho, em 1958.

    1. Nessa mini-lista, João, falta ainda um: Alberto Franco Nogueira, então ministro dos Negócios Estrangeiros. Curiosamente, viera da esquerda e talvez fosse em 1968 o mais à direita dos supostos delfins. Adriano Moreira afastara-se nos anos anteriores e estava de relações cortadas com Marcelo Caetano, que era claramente o eleito pelas elites do regime embora também tivesse vários períodos de clara fricção com Salazar (em 1958, com a não recondução de Craveiro Lopes, e em 1962, com a repressão do movimento universitário em Lisboa, que aliás o levou a demitir-se de reitor).

      1. Tens toda a razão. Faltava Franco Nogueira ao triângulo de sucessores de Salazar. Creio (mas não estou totalmente certo) que foi o primeiro a ser afastado, porque me parece que, mesmo nas vésperas da decisão de Tomás e já consultadas as figuras de Estado que este quis ouvir, restavam os outros dois.

        Se for como digo, também Antunes Varela foi afastado no último momento, pela sua defesa intransigente do Ultramar. Restou aquele que prometia refrescar o regime.

        1. O Antunes Varela tinha-se afastado meses antes, após mais de dez anos como ministro da Justiça, por discordar do modo como o caso ‘ballets roses’ foi abafado, tendo sido substituído por Mário Júlio Almeida Costa. Esse passo, creio, impediu-o de chegar a ser seriamente considerado como sucessor.

          1. Ainda assim, Antunes Varela integrou a reunião do Conselho de Estado para decidir a sucessão de Salazar, em Setembro de 1968. Há um foto histórica desse dia (que não consigo reproduzir aqui) em que ele está entre Marcelo Caetano e Mário de Figueiredo. O nome dele para o cargo é defendido pelos que apontam a sua acção anterior e o consideram um renovador da política económica e social do regime.

  2. Um detalhe: fazes muito bem em assinalar a «incompreensível ‘actualização’ do nome» de Theotónio Pereira, que é um apelido.
    Em comentário anterior, escrevi Marcello em lugar de Marcelo, por mero preciosismo (escusado por ser nome próprio), mas alterar um apelido (ainda por cima quando se está a gravar História) não é aceitável.
    A contrastar com isto, não falta quem escreva Américo Thomaz, por exemplo. O que é falso: o apelido dele era mesmo plebeu e não conservava qualquer modo arcaico de escrita.

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