Nos meus anos de permanência em Macau, conheci diversas pessoas – oriundas das mais variadas paragens – cuja história dava um filme. Uma dessas pessoas verdadeiramente inconfundíveis era o padre Lancelote Rodrigues. Filho de um português, nascera há 89 anos em Malaca, onde uma comunidade de lusodescendentes ainda se orgulha de honrar o nosso idioma e as nossas tradições, mais de 300 anos após o fim da soberania portuguesa naquele que é hoje um pequeno estado da Federação Malaia.
Lancelote rumou nos anos 40 de Malaca a Macau, onde estudou no seminário de São José, naquela época um centro de formação por excelência na Cidade do Nome de Deus e que durante gerações foi um pólo difusor da cultura portuguesa no Oriente. Tornou-se sacerdote mas nunca ninguém o viu encerrado na sacristia: sociável e folgazão, protagonista de várias tertúlias macaenses, cidadão de corpo inteiro, ajudava os pobres seguindo os preceitos evangélicos e foi um bom samaritano para todos os refugiados que durante mais de três décadas demandaram o território que Portugal administrou no sul da China até Dezembro de 1999.
Muitos dos que trocaram Xangai por Macau no início da década de 50, deixando todos os seus bens naquela cidade após a tomada do poder por Mao Tsé-tung, lhe devem um gesto solidário enquanto capelão. O mesmo sucederia no final dos anos 70, quando cerca de 30 mil boat people fugidos do Vietname demandaram a costa macaense, tendo sido acolhidos em Ka-Hó, na ilha de Coloane, e confiados à tutela atenta e amiga deste padre poliglota, que auxiliava o próximo sem fazer proselitismo religioso, intercalando o português, o inglês e o chinês nas suas frases com a facilidade característica dos verdadeiros poliglotas.
Há pessoas que têm o dom de espalhar alegria em seu redor: pensei nisso muitas vezes ao escutar a gargalhada bem sonora do padre Lancelote, contagiante como poucas. Ou ao ouvi-lo cantar, com o seu vozeirão bem afinado, acompanhado à guitarra, em longos serões de divertido convívio no Clube Militar, na pousada de Coloane ou num dos típicos restaurantes chineses da Rua da Felicidade.
Soube hoje que este homem bom faleceu segunda-feira, após internamento no hospital Kiang Wu. Deixou seguramente Macau mais triste. E Portugal, com esta morte, perdeu um dos melhores embaixadores de que há memória em terras do Oriente.
Foto: jornal Ponto Final


Olha-se para a foto e percebe-se que corresponde à “legenda” que lhe fizeste. Parece mesmo um homem bom.
Era, sem dúvida, Teresa. Uma personalidade singular. Respeitado por todos – crentes e não crentes, católicos, protestantes, budistas, portugueses, chineses, malaios, ingleses, filipinos, vietnamitas. Por todos.
Quando penso na diáspora portuguesa e no tão decantado “universalismo” português nunca penso em termos abstractos. Penso sempre com os rostos e os nomes concretos das pessoas que tive o privilégio de conhecer. Pessoas como o padre Lancelote.
boa memória que aqui deixas, homenagem assim
Foi uma pessoa que me marcou. Como tantas outras que conheci em Macau.
Subscrevo, Pedro.
Muitos refugiados devem a vida que hoje têm ao trabalho do padre Lancelote.
Quando eles chegavam a Macau naquelas barcaças miseráveis, muitas vezes vindos sabe-se lá de onde, era ele quem lhes valia.
Um homem bom que espalhou alegria e boa disposição à sua volta.
Fizeste bem em recordá-lo aqui.
Também o conheceste e sabes portanto avaliar bem as minhas palavras, Sérgio. Tenho vontade de regressar a Macau antes que outras figuras locais que muito admiro desapareçam, como agora sucedeu ao padre Lancelote.
Não sei se já leste, Pedro: http://www.economist.com/news/obituary/2 1580128-father-lancelote-miguel-rodrigue s-priest-macaus-refugees-died-june-17th-a ged?frsc=dg%7Ca
Já me tinham falado, mas só agora vou ler, caro Sérgio. Não me surpreende, confesso-te.
O obituário do padre Rodrigues aparece na edição desta semana da prestigiada revista internacional The Economist.
Pelo que, parece que não foi só ao Pedro que o padre impressionou. A sua fama é internacional.
Sem dúvida. Milhares de refugiados no Extremo Oriente devem-lhe muito – em certos casos, até a vida.