Um cenário de pesadelo


Pedro Correia,

 

A manchete do El País de hoje dizia tudo: “Grecia empuja al euro al abismo”. Com efeito, o envenenado plebiscito convocado de surpresa pelo primeiro-ministro grego nada tem a ver com escolhas democráticas. É uma chantagem aos eleitores helénicos que apenas visa assegurar a sua sobrevivência política. E uma inadmissível bofetada de Georgios Papandreou aos restantes cidadãos europeus. Numa altura em que na OCDE acabam de soar todas as campainhas de alarme: a previsão de crescimento económico na eurozona em 2012 é de apenas 0,3%. Muito longe dos 2% anteriormente previstos. Um cenário de pesadelo.
 

A Grécia entrou na CEE em 1981 sem convocar qualquer referendo. Aprovou os tratados de Maastricht, Amesterdão, Nice e Lisboa sem auscultar o eleitorado. Agora, à beira do caos político e social, o primeiro-ministro lembra-se enfim de pedir ao povo grego para escolher entre a desgraça e a miséria: uma decisão que conjuga o cúmulo do cinismo com o cúmulo da irresponsabilidade.
O plebiscito não resolve um só problema da Grécia e pode agravá-los todos, mergulhando a banca e a bolsa num caos global, de consequências imprevisíveis. Provocando a desvalorização e depreciação de activos públicos, a interrupção abrupta de financiamentos, o aumento do valor das dívidas, a fuga de capitais, o aumento descontrolado da inflação e a provável implosão do euro. Numa palavra: a bancarrota.
O problema não se circunscreve à Grécia: toda a eurozona fica ameaçada. Portugal, dada a sua fragilidade, será um dos países mais afectados. Para já, quatro dos maiores bancos portugueses viram a sua cotação desvalorizada em 10% enquanto a Bolsa de Lisboa registava a maior queda da última década. Imagine-se o que pode suceder até Dezembro, mês em que deverá ocorrer a referida “consulta popular” na Grécia.

 

Estas semanas de impasse insustentável na zona euro têm uma consequência ainda mais nefasta, no terreno político: potenciam a erupção de nacionalismos por mero efeito de contágio. Nunca é de mais recordar: o nacionalismo foi o maior veneno que corroeu a Europa no século XX, conduzindo a duas guerras mundiais que provocaram mais de 70 milhões de mortos.

 

Comecei por citar a manchete do El País, termino com outro título bem emblemático do mesmo jornal, extraído do principal editorial da edição de hoje: “Um error colosal”. Sem ambiguidades de qualquer espécie, o diário madrileno resume assim a situação: “O referendo proposto por Papandreou é uma péssima opção para a Grécia e um risco para a UE.”

Seria difícil encontrar uma frase mais clara. E mais preocupante. E mais certeira.

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12 comentários em “Um cenário de pesadelo”

  1. Bela análise. E lembrar quanto foi forçada e estranhamente aplaudida a entrada da Grécia para a UE… Afinal a ‘coisa’ não mudou nada por dentro, estava lá a semente. Papandreou mais parece um jogador de roleta que guarda alguma na manga, mas não tem trunfos alguns. Isto também podia levar-nos à reflexão sobre a importância de ter estadistas com fibra. Fibra de tudo incluindo a da sensatez. A prosaica sensatez.

    1. Não me lembro de ter visto florescer à minha volta tantos entusiastas da democracia plebiscitária, Laura. Vários deles são os mesmos que por cá torcem o nariz à realização de referendos. E alguns até votaram contra a inclusão do referendo no nosso texto constitucional. Mudam-se os tempos…

  2. Não concordo Pedro.

    Não acho que Papandreu queira salvar a pele. Ou por outra, quer salvar a sua imagem historicamente, porque em eleitoralmente está condenado há muito.

    É obviamente uma manobra arriscadíssima e, em parte, bluff. Porém, do ponto de vista da Grécia, e apenas da Grécia, seriam(ão) bem piores as consequências sobre a identidade nacional de uma perda de soberania desta envergadura não subscrita pelos cidadãos.

    Sou grande defensor dos limites à democracia demasiadamente directa – não é por acaso que se elegem governos – mas não acho que seja esse o caso. A comparação com os tratados europeus não é totalmente válida. Desta vez, pela primeira vez verdadeiramente, estamos a falar de medidas que vão tirar soberania à Grécia durante décadas. Imagina o que seria(á) a visão dos gregos sobre a Europa caso a coisa vá em frente… Estas décadas largas de paz deixaram-nos pouco sensíveis aos sinais externos, e a Europa parece ter esquecido o que aprendeu (e pôs em prática no pós IIGM) com o Tratado de Versalhes… Isto sim potencia a erupção de nacionalismos.

    1. José Maria: a Grécia, quando aderiu à então CEE, abdicou parcialmente da sua soberania sem que o povo grego tivesse sido consultado – a mesma Grécia, aliás, que quatro anos depois ameaçou vetar a entrada de Portugal e Espanha na Comunidade. É no mínimo insólito que a primeira ‘consulta popular’ sobre a Europa seja ali feita só 30 anos depois da adesão, em situação de emergência e de possível pré-colapso da moeda única. Lembro-te, aliás, que vários membros do Partido Socialista grego pensam o mesmo: daí a cascata de demissões que têm ocorrido nas fileiras governamentais desde o anúncio deste plebiscito.
      Precisamente porque a Europa não esqueceu as lições das guerras mundiais é que a Grécia já foi brindada com 210 mil milhões em ajuda financeira externa desde Abril de 2010, havendo agora outros 100 mil milhões já prometidos. Na tua opinião, qual deve ser o limite para a sangria dos contribuintes europeus em socorro das precárias finanças de Atenas? E o que tem isto a ver com Versalhes?
      Não esqueças que tudo começou porque os gregos mentiram sobre o estado das finanças públicas, algo inadmissível nas relações internacionais quando exercidas na base da boa fé e da confiança recíproca.
      Pelo contrário, esta fuga para a frente do precário poder político de Atenas é que amplia o clima de tensão na Europa, designadamente nas fronteiras greco-turcas.
      Oxalá eu esteja enganado. Mas já pensaste o que sucederá se a moda pega e todos os governos de países da UE começarem a fazer plebiscitos sobre as opções europeias transformando os restantes povos em alvos fáceis de um eleitorado farto de apagar fogos em casa alheia? Isso mesmo: a “construção europeia” não durava dois segundos. E – sim – só ela nos possibilitou estas frágeis décadas de paz no continente.

  3. Não posso estar mais de acordo, compadre, com o teu texto e com o que dizes acima ao nosso José Maria. É tão interessante quanto assustador ver agora imensa gente a empunhar bandeiras de democracia directa, depois de décadas a rejeitar as consultas populares oportunas sobre não só a quantidade de Europa que foi sendo incluída em autêntico contra-relógio, mas também sobre a qualidade de Europa que se ia desenhando em acordos e tratados que os cidadãos nunca puderam debater.

    Defender a atitude actual do governo grego é defender a recuperação dos debates e consultas que nunca foram feitos. Mas é tarde. Ou a UE dá a volta por cima com as medidas necessárias para salvar os cidadãos deste atoleiro (e no fim poderá plebiscitar com êxito os europeus), ou a UE continua a dividir-se entre bons e maus. E a falta de uma onda de fundo que revele determinação coesa e contrarie este penoso arrastamento nada augura de esperançoso.

    1. Registo com agrado a sintonia, compadre. Apesar de não me surpreender.
      E aproveito, a propósito, para citar este trecho de um artigo da politóloga Marina Costa Lobo, hoje publicado no ‘Jornal de Negócios’:
      «A consulta directa dos eleitorados constitui a abertura da caixa de Pandora do populismo europeu, e é portanto altamente desaconselhável. Não esqueçamos que pela mesma lógica se deveria tanmbém referendar os eleitorados dos países do norte da Europa, por exemplo os alemães, finlandeses e holandeses, perguntando-lhes se estão de acordo com o último acordo que perdoa a dívida grega e aumenta o pacote financeiro aos gregos, entre outras coisas.»
      Nem mais.

  4. Creio que Papandreou está a forçar a mão. Mas que não tinha grandes alternativas.

    Internamente, estando políticamente fragilizado procura um poder minimamente legitimo a que se agarrar. A recente demissão das cúpulas militares leva-me a crer que não é de excluir até um golpe de estado vindo daquele lado. Fazer depender as próximas decisões do povo grego, de forma directa, poderá ser a única forma de “comprar” alguma paz interna. Poderá ser a prazo, mas o caminho actual parece ser um beco sem saíde.

    Externamente, poderá Papandreou estar a forçar a Europa a considerar as reais soluções que tem recusado enfrentar. É já quase consensual que a arquitectura do Euro é o grande motor de todos os desequilíbrios actuais, incluindo na incapacidade do BCE de funcionar como Banco Central. Se a Europa não for capaz de, ou não a quiser, alterar, nada ficará resolvido, e assisistiremos ao desmoronar do projecto da União Europeia.

    1. Essa história do referendo convocado para estancar a ameaça militar está muito mal contada, Luís. Tão mal contada que hoje o PM grego recuou em toda a linha, confirmando o que eu ontem aqui escrevi sobre a sua irresponsabilidade: entretanto as bolsas afundaram-se na Europa e acenderam-se luzes vermelhas em vários bancos. Não convém brincar com estas coisas: ontem mesmo, Portugal comprou mais 1,244 milhões de euros, por um prazo de três meses e meio, a quase 5% de juro. Os tempos não estão propícios para manobras políticas de curto prazo. Nem para qualquer tipo de irresponsabilidade.
      Quanto à “consulta ao povo grego”, agora pelos vistos abortada à nascença, remeto-o para as palavras de Marina Costa Lobo, que já transcrevi noutra resposta: «A consulta directa dos eleitorados constitui a abertura da caixa de Pandora do populismo europeu, e é portanto altamente desaconselhável. Não esqueçamos que pela mesma lógica se deveria também referendar os eleitorados dos países do norte da Europa, por exemplo os alemães, finlandeses e holandeses, perguntando-lhes se estão de acordo com o último acordo que perdoa a dívida grega.»

  5. 1. Como disse, não sou também um incondicional da democracia directa. Todavia, parece-me que, ao contrário do que sucedeu nos últimos 30 anos, existe agora uma séria antipatia do povo grego em relação à Europa, visível nas ruas (embora, claro está, estas possam transmitir uma ilusão). Simplesmente reprimi-la conduzirá muito provavelmente, como bem diz o LML ali acima, à subida ao poder de um ditador nacionalista (ou pior).
    2. Não acho também que a postura europeia reflicta completamente as lições de Versalhes. É preciso ter em mente que ajudar a Grécia interessa à Alemanha e, sobretudo, à França, cujos bancos detêm muita dívida grega, não tendo ainda falido apenas porque muita dessa dívida não é reconhecida nos seus balanços ao valor de mercado. Depois do perdão de dívida – essencial para não ver rejeitada toda a dívida – será apenas graças aos fundos injectados que esses bancos se manterão de pé. De resto, não foi por acaso que esta decisão provocou uma queda a pique das acções dos bancos. E são precisamente esses fundos a única verdadeira contribuição dos contribuintes europeus. Isto porque o resto – os empréstimos directos ao Estado grego – a serem pagos, claro, darão retorno positivo aos países credores. Já os contribuintes gregos, esses sim, estão a pagar a crise. Como não poderia deixar de ser, claro, porém não necessariamente a este ritmo. Resumindo, a ajuda à Grécia pode não ser tão má como Versalhes – concordo – mas não é tão-pouco tão clarividente como o Plano Marshall.
    3. Para finalizar, esta questão é muito complexa e, sobretudo, incerta, por isso tenho algum receio de dar opiniões definitivas. Referendar os pequenos passos da integração europeia é, sem dúvida, a solução errada. Mas isso levar-nos-ia a outra discussão, muito mais alargada. Em todo o caso, a situação actual é, acho, bem diferente. O pacote acordado vai muito além de qualquer tratado europeu – mesmo considerando que estes têm muito mais significado do que aparentam – e, sobretudo, diz respeito a medidas punitivas (e não institucionais) que vão afectar negativamente os cidadãos nos próximos anos. É importante que as medidas não passem suavemente, como se se tratasse de apenas mais um tratado. Posto isto, trata-se evidentemente uma jogada política de Papandreou, que poderá ter dois retornos positivos, não mutuamente exclusivos: i) um aliviar das condições impostas; ii) uma consulta à opinião dos cidadãos. Poderá ter também consequências desastrosas, como todas as jogadas de risco. Mas quanto a mim evita, ou pelo menos minimiza, aquela que seria a consequência negativa pior. Na realidade, desde que começou a crise, há quase 2 anos, esta foi a primeira decisão política que verdadeiramente surpreendeu. Todas – mesmo todas – as outras decisões foram sempre a reboque dos mercados, ficando sempre aquém das expectativas mais optimistas. E foi também a primeira vez que o líder de um país intervencionado decidiu dizer não, o que é um sinal positivo.
    4. Para terminar, insisto, apoiar a posição de Papandreou não significa validar a democracia directa como panaceia. Este caso é verdadeiramente excepcional e, sobretudo, muito particular.

    1. Caro José Maria, agradeço-te a réplica e respondo também por pontos:

      1. Existe “antipatia do povo grego em relação à Europa”. E daí? Isso é motivo para levar a União Europeia ao colapso? E se o povo alemão, o povo finlandês e o povo holandês, por exemplo, manifestarem “antipatia” em relação ao povo grego, impedindo o Governo de Atenas de pagar salários e pensões já no mês que vem, isso deve saudar-se como saudável manifestação de soberania popular?

      2. A Grécia já recebeu o equivalente a diversos Planos Marshall nos últimos 30 anos só em fundos estruturais. Será culpa dos contribuintes alemães, franceses, belgas, italianos e luxemburgueses que o Estado helénico tenha gasto – por exemplo – mais de 8 mil milhões de euros em 10 anos a pagar pensões a mortos por ineficácia total das instituições políticas e financeiras internas?

      3 e 4. A prova de que se tratava de uma jogada de (baixa) política de Papandreou ficou bem evidente na pirueta que o PM grego hoje deu no Parlamento, declarando-se disposto a um Governo de coligação alargada e deixando cair a estapafúrdia proposta de plebiscito. Isto após ter visto fugir cinco deputados da sua frágil maioria (o PASOK tem 152 parlamentares em 300) e ser alvo de críticas do seu próprio braço direito no Governo, o imprescindível ministro das Finanças. A sua autoridade política, que já era quase nula, sai ainda mais enfraquecida deste ridículo episódio.

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