Nunca li nada do escritor francês Antoine Volodine. Mas vou comprar o mais recente livro dele editado em Portugal, intitulado Macau. Por vários motivos, o primeiro dos quais devido à seguinte nota aos leitores incluída na obra pela editora Sextante: “Por decisão do autor, o presente livro não segue o novo Acordo Ortográfico”.
Soube disto pelo José Mário Silva, que justamente sublinha: “Não deixa de ser extraordinário que um autor de língua francesa seja mais aguerrido na defesa das nossas consoantes mudas do que muitos escritores portugueses, indiferentes ou cúmplices perante as amputações e alterações absurdas à grafia da língua.”
Um caso exemplar.
ADENDA: vai acesa a polémica na caixa de comentários deste texto. Ainda bem. A ideia era mesmo essa.


Seja-se a favor ou contra o Acordo, não concordo com a marginalização dos escritores que acedem a ser publicados em “acordês”. Além disso, na lista que o Pedro fez no post para onde remete a adenda, há gente que, para usar uma expressão popular, “dá uma no cravo e outra na ferradura”.
Quer um exemplo (ou dois)?
Manuel Alegre foi o chefe do júri que escolheu o Prémio Leya 2011. A obra vencedora, de Ricardo Jorge Pedro, está publicada em “acordês”!
A editora de Ricardo Jorge Pedro? Maria do Rosário Pedreira!
Escritores conhecidos, que se dão ao luxo de ser contra o Acordo e que assinam abaixo-assinados, não têm nada a perder, pois conseguem convencer as editoras a publicar os seus próprios livros sem usar as regras do Acordo. É muito fácil para um escritor consagrado pôr essa condição. Mas, no que respeita aos seus “protegidos”, parece que se estão a marimbar (no caso de Manuel Alegre e Maria do Rosário Pedreira, pelo menos). Quem fica a perder são esses autores em início de carreira, que não têm prestígio suficiente para “obrigar” a editora a fazer-lhes a vontade, mas que são boicotados por aqueles que são anti-Acordo.
Cristina, não faço processos de intenção nem ajuízo da coerência de cada um nesta matéria. As opiniões podem variar, é certo. Vou dar-lhe apenas um exemplo: o deputado socialista Francisco Assis, que era favorável ao acordo, já confessou publicamente ter mudado de opinião. Quanto a Manuel Alegre não há qualquer dúvida: quando o AO foi a votos no plenário da Assembleia da República, em Julho de 2008, apenas quatro deputados votaram contra – e um só do PS. Precisamente Manuel Alegre.
Pedro Correia, num ponto a Cristina Torrão tem razão. Aos escritores novos, em começo de carreira é mais difícil, para não dizer impossível, tomar a decisão de não publicar com as regras do novo acordo. A força dos escritores consagrados poderá ser a chave para as editoras, essas sim com o poder de anular o acordo, decidirem se seguem ou não o novo acordo. Um escritor em começo de carreira poderá ser contra o acordo e não ter outro remédio que não seja aceitar publicar, contrariado, com o novo acordo. Penso que nesta posição não há incoerência. São as editoras que têm o poder na mão.
Isso da idade é relativo, Tiago. Fernando Pessoa era novíssimo quando foi aprovado o acordo ortográfico de 1911: tinha apenas 23 anos. E bateu-se tenazmente contra ele. Eram outros tempos, bem sei. Mas a força das nossas convicções não tem bilhete de identidade. Nem prazo de validade. A menos que sejamos como o Groucho Marx: “Se os meus princípios não lhe agradam, arranjo já outros.”
Ser um novo escritor não isenta de tomar posição. E há posições difíceis.
Por mim, não lerei um único livro publicado em acordês. Se for tradução, compro em inglês ou francês.
Dos portugueses, não compro.
O povo português precisa se se curar do hábito da obediência!
P.S. Um escritor a “marimbar-se” no seu instrumento de trabalho? Bem… Pessoa ou Pascoaes não se “marimbavam”… Será por serem génios?
Acredito que as pessoas menos geniais têm direito a exprimir a sua integridade. Precisamos de tudo menos de yes men, literários ou não.
De facto não faz sentido assinar petições contra o aborto ortográfico e depois viabilizá-lo enquanto ‘agente cultural’. Enfim, cada um tem a medida das suas convicções.
Isto é deturpar o que eu disse. Eu não disse que os escritores se “marimbam” no seu instrumento de trabalho. O que eu disse é, a meu ver, mais grave: escritores que se afirmam contra o Acordo, que, pelos vistos, se recusam a publicar em “acordês”, mas, isso, só no que diz respeito aos seus próprios livros. Na sua função de editores (como a Maria do Rosário Pedreira) permitem que os seus “protegidos” publiquem em “acordês”! Se isto não é dualidade de critérios; se isto não é hipocrisia…
Aliás, na lista para que remete o link da adenda (desculpe, caro Pedro) também lá se encontra Manuel Alberto Valente, como editor que rejeita o Acordo. Manuel Alberto Valente é o responsável pela Porto Editora, em Lisboa. A Porto Editora publica os seus novos livros em “acordês”!
P.S. Eu não combato o Acordo, mas recuso categoricamente o epíteto de “yes man” e quejandos!!!
Cristina, que eu saiba ninguém lhe dirigiu essa acusação, que aliás seria totalmente descabida.
Como o Pedro já disse, esta é uma questão que polariza, radicalizando as posições. Como, nessas discussões acaloradas, se costumam apelidar de “yes men” (e outras coisas piores, nesse sentido) aqueles que aderem ao, ou aceitam o AO, confesso que me senti atingida.
Não tenho nada contra as pessoas que defendem a escrita “antiga” (sem sentido pejorativo) com unhas e dentes. Eu apenas acho que a língua, qualquer língua, é uma convenção suscetível de ser mudada. Concordo que algumas regras do AO são muito estúpidas e irrita-me esta amálgama de escritas. A revista LER, por exemplo, aderiu ao AO, mas aceita que os seus colaboradores publiquem os seus textos ignorando o AO. Conclusão: as páginas escritas no português “antigo” alternam-se com as escritas em “acordês”. Acho horrível! E logo numa revista de livros!
Cristina: aquilo que a deixa chocada é o simples reflexo do que existe na realidade. Não é só nas páginas da ‘Ler’ que encontra isso: é na sociedade portuguesa no seu conjunto (e já não falo noutros países). Quando alguns dos mestres do idioma, que são os escritores (como Manuel Alegre e António Lobo Antunes), pensadores (como Eduardo Lourenço e José Gil), filólogos, professores universitários, ensaístas, tradutores, editores e jornalistas (lembro-me de Baptista-Bastos e Manuel António Pina entre estes últimos, por exemplo), ou até os humoristas (e lembro-me, neste caso, do Ricardo Araújo Pereira e restantes ‘gatos fedorentos’) são os primeiros a rejeitar o “acordo”, acha que uma revista como a ‘Ler’ devia barrar o acesso destes intelectuais às suas páginas ou obrigá-los a escrever ‘à la mode du’ Malaca Casteleiro quando todos rejeitam liminarmente essa ortografia que consideram espúria? Não repara, por exemplo, que na maioria dos blogues portugueses com maior audiência (caso do DELITO) ninguém faz caso do ‘acordo’?
É realmente uma situação sem pés nem cabeça…
“…não concordo com a marginalização dos escritores que acedem a ser publicados em “acordês”…” Ai coitadinhos… Eu concordo, sabe, porque não é marginalização nenhuma. Eles tomaram uma opção, agora façam o favor de viver com ela – ou são contra o Acordo mas “prontos, tem de ser”? Aliás, nada impede que uma editora publique autores na ortografia que bem entenderem ou vai tudo de cana para o Limoeiro e proíbem os livros? Como já tive oportunidade de considerar num outro post sobre o mesmo assunto, quem recusa comprar livros em acordês não está a marginalizar ou a castigar ninguém: está apenas a ser fiel a um princípio que estipulou para si. Sejamos honestos, este acordo é mau – é um insulto – e não é possível estar contra ele e simultaneamente tolerá-lo. Não se trata aqui de ser contra a evolução da Língua, ser Velho do Restelo (o argumento mais estúpido que anda por aí), de ser conservador ou ser velho (eu sou novo, por acaso). Trata-se simplesmente de recusar um acordo ortográfico cujo princípio não é outro senão o absurdo. Mais, verifiquem o software que têm no computador e tentem perceber qual o verdadeiro objectivo do acordo e, mais ainda, tentem quantificar quantos postos de trabalho Portugal está a perder por não ter tradução própria na tradução de software e como tudo isso é o espelho de um povo inactivo, que se deixa “papar” pelas circunstâncias. Abram a pestana, pá. (Vou parar porque já estou a ficar irritado e a partir daqui seria sempre a descer.)
O “acordo”, como é óbvio, não comporta normas sancionatórias.
Ninguém pode ser punido ou penalizado ou prejudicado de alguma forma por escrever na ortografia que o Estado lhe ensinou, através dos programas oficiais do ensino, quando frequentou a escolaridade obrigatória.
Era mesmo só o que faltava…
Daí a pergunta que me apetece dirigir a certos intgelectuais que pelos vistos pensam uma coisa e praticam outra: têm medo de quê?
O «acordo» ortográfico é um crime contra o património cultural europeu. É normal que quem tenha algum conhecimento do que se está a passar não queira ser cúmplice desta selvajaria.
Alegre votou em consciência contra o aborto ortográfico. E votou bem.
Como a ortografia francesa está cheia de consoantes e vogais mudas, não admira. Quer mais uma ortografia parva além da da língua dele.
Sr. Lavoura, o seu comentário é extremamente sólido e urbano. Não sei para que serve, mas denota fino recorte literário e uma polidez delicada que advém certamente desde o berço.
Permita-me, no entanto, uma singela pergunta: o que é que o Sr. já escreveu que valesse / valha a pena traduzir na “ortografia parva” do Sr. Volodine?
Ah já, deve ser um pessoano perdido na voragem do tempo moderno em pleno século XXI. Permite-me, então uma sugestão. Pratique rapidamente o falecimento para que venha de lá o famoso baú de inéditos e possamos esmiuçar as parvoíces dos dialectos berberes dos subúrbios parisienses.
Enfim, poupe-nos ao despautério.