Tenho alguns amigos – estive a fazer as contas e acho que tenho mais amigos de esquerda do que de direita – que são, desde o princípio, admiradores de José Sócrates. Já tive com alguns deles algumas discussões homéricas sobre o assunto, pela razão simples de que não consigo descortinar – depois de uns primeiros tempos de hesitação – onde está a valia do homem enquanto primeiro-ministro.
Nos últimos tempos, recorro com frequência ao teste empírico de ir fazendo, a quem encontro (apoiantes de Sócrates e não apoiantes de Sócrates), a tradicional pergunta: «Compraria um carro em segunda-mão a José Sócrates?». As respostas variam. Há quem diga que nem que o carro fosse novo; há quem diga que, bem, em segunda-mão e sem garantia, nem pensar; há quem estrebuche um bocadinho (os meus amigos apoiantes de Sócrates desde a primeira hora) e evite a resposta clara. Na minha sondagem empírica, vou, pois, percebendo que, tirando os boys que gravitam à volta do governo e dos entes públicos, já ninguém dá muito pelo homem. E no entanto, segundo uma sondagem de hoje do JN, se houvesse eleições neste momento, o PS arriscava-se a ganhar e muito próximo da maioria absoluta. Donde resulta que, ou são os meus amigos que fazem parte de uma casta à parte e não são representativos do eleitorado português, ou, então, o problema é mais grave. Reflectindo, ainda que vagamente, sobre o assunto, opto pela segunda solução: o problema é grave. E qual é o problema? Simples: os portugueses confrontam-se com um singular cenário de bipolarização política: num polo está José Sócrates; no outro polo está… ninguém. Desgraçadamente. Desgraçadamente para o país.
Sem renegar a minha ligação ao PSD, sou obrigado a concluír que o eleitorado não deixa de ter razão, mesmo que em sondagens. Se é verdade que, neste momento, poucos ousariam comprar um carro em segunda-mão a Sócrates, também é verdade que, olhando para o stand do lado, não se vê mais quem possa vender automóvel. O que se vê pelas bandas do PSD é uma luta fraticida para saber quem, daqui a uns tempos, manda no stand e define as regras do negócio. Só que, enquanto tal, os automóveis vão apoderecendo e, chegada a hora, dificilmente alguém quererá comprá-los. E, entretanto, tal vai sendo a conflitualidade interna no PSD, não espanta que, mesmo depois de saber quem manda na loja, assistamos, logo a seguir, a concorrência desleal dentro do stand. É este o cenário que espera os portugueses. E é por isso que o PS vai ganhando folgadamente nas sondagens.
Nunca percebi – talvez alguém seja capaz de me esclarecer – por que razão o PSD não arrumou a casa logo a seguir ao penoso resultado que obteve nas últimas legislativas. Manuela Ferreira Leite – que nunca me seduziu – demonstrou que seduz muito poucos. Numa altura em que devia estar de casa arrumada, anda o povo social-democrata a tentar perceber quem é o menos mau de todos: se Passos Coelho, se Rangel, se Aguiar-Branco. Sim. Porque o que está em causa é saber qual deles é o menos mau, qual deles é capaz de ter mais cimento que agregue um partido que tende a esboroar-se. É esta a ideia que germina nas bases e é esta a ideia que passa para o eleitorado. Enquanto devia estar a tentar propor ideias alternativas para o país, numa altura em que era suposto o governo estar fragilizado e com a cabeça a jeito, anda o PSD a desgastar-se em lutas internas nem sempre cordiais, cada um dos candidatos com ideias diferentes sobre tudo e sobre nada, deixando o eleitorado sem saber com o que conta. O problema seria apenas relativamente grave se, passadas as directas, a questão ficasse esclarecida. Mas não fica. Ganhe quem ganhar, a luta pela queda do líder que vier começará no dia seguinte. E Sócrates continuará a ganhar nas sonsagens e nas urnas. E Portugal continuará a penar com um primeiro-ministro que, em rigor, poucos querem, mas-que-se-há-de-fazer? Haverá futuro assim? Enquanto isso, o CDS-PP mantém-se firme.

“Simples: os portugueses confrontam-se com um singular cenário de bipolarização política: num polo está José Sócrates; no outro polo está… ninguém. Desgraçadamente. Desgraçadamente para o país.”
Já comentei isso mesmo em posts anteriores.
Assim sendo digo apenas o que me vai na alma:
Estamos fecundados…
Estamos, estamos… E talvez irremediavelmente.
“Nunca percebi por que razão o PSD não arrumou a casa logo a seguir ao penoso resultado que obteve nas últimas legislativas.”
Boa questão. Faço uma tentativa de resposta:
Porque as pessoas que estão no poder no PSD não têm espírito democrático, a começar por Pacheco Pereira que, não o esqueçamos, é um antigo MRPP, ou seja, é antes de tudo o mais um leninista. É gente que não aceita largar o poder. E então adiaram a saída do poder até poderem garantir que tinham um delfim.
Aliás, tenho lido diversas pessoas do PSD nos blogues a dizer de Passos Coelho quase tão mal como de Sócrates, até a dizerem que abandonarão o PSD se Passos Coelho ganhar as diretas. Por esses exemplos bem se vê o espírito democrático dessas pessoas e bem se vê o que o PSD continuará a ser após as diretas.
E V., sr. Lavoura? Será que muda com umas “diretas”? Não me pareciam mal dadas, não senhor… Pense nisso.
Antifarsista: não percebi.
Pois, é o que eu digo: o tiro aos patos vai continuar.
O sr. Granadeiro foi à Assembleia dizer que o dr. Morais Sarmento o tinha pressionado para despedir 3 directores 3 de jornais.
Dando de barato que isso pudesse ser verdade (e não é), cumpre referir:
– o que ora se pretende apurar diz respeito ao Governo do sr. José Sócrates e não aos anteriores até ao Dom Afonso Henriques, pela razão simples de que estes já foram sujeitos a escrutínio e, um após outro, substituidos;
– o facto de alguém, antes do sr. José Sócrates, ter cometido erros não legitima que este os cometa (seria como achar, por exemplo, que todos os tiranos posteriores a Hitler estavam automaticamente perdoados…).
Ora, vá-se lixar, sr. Granadeiro!
O que tem a dizer Henrique Granadeiro? faça o favor….
Boa, Joaquim. Uma reflexão muito oportuna.
Obrifado, João.
Obrigado, João.
Lamento desiludir os teus amigos, Joaquim, mas eu ao ídolo deles nem uma lambreta comprava, quanto mais um carro em segunda mão.
Pois, nem eu. Recorda-me, Pedro, quem foi o candidato à presidência dos EUa que utilizou esta expressão do carro em segunda mão.
Fácil, Joaquim. Foi o John Kennedy, em 1960, com cartazes com a cara do seu rival, Richard Nixon, acompanhados dessa frase, que ficou célebre: “Compraria um carro em segunda mão a este homem?”
Ficou célebre e foi eficaz. Kennedy venceu a eleição presidencial de 1960.
Obrigado, Pedro. Sabes tudo 🙂