I acto
Passos Coelho, líder do maior partido da oposição e candidato a primeiro-ministro nas eleições de 5 de Junho, “um homem invulgar“, fala aos portugueses e aos militantes do seu partido dizendo que tinha havido um concurso no valor de 1,2 milhões de euros para uma assessoria destinada à “aquisição de serviços de elaboração de propostas de decisão e propostas de contra-ordenação” da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.
II acto
O auditório fica indignado. Gesticula, belisca-se, revolta-se. É uma vergonha, um escândalo. Mais uma tença para os boys do partido. O líder aproveita para embalar o discurso e atira: “eu quero saber quem foi o feliz contemplado“. O auditório também. A turba aplaude.
III acto
O destinatário da questão vem esclarecer que o feliz contemplado é uma instituição de ensino superior privada pertencente à Igreja e que tem sido apoiada pelo Estado devido ao seu ensino de excelência, sendo conhecida como Universidade Católica.
IV acto
À noite fica-se a saber que o “feliz contemplado” participou num concurso público, ao qual se apresentou um único concorrente e que o valor de 1,2 milhões se destina a pagar as cerca de seis dezenas de juristas que dão andamento aos processos de contra-ordenação, por forma a que o Estado não saia lesado com a prescrição das contra-ordenações.
Fica-se ainda a saber que desde 1993, quando era primeiro-ministro Cavaco Silva, que o “feliz contemplado” faz esse serviço e que não há mais ninguém que se candidate a fazê-lo.
V acto
Insatisfeito com a resposta recebida, Passos Coelho investe com mais vigor e vem então dizer que os “concursos internacionais são forjados, porque eles já sabem quem os vai ganhar antes de serem lançados“. Em rigor, acusou os responsáveis pelo lançamento do concurso de serem criminosos. Matéria, portanto, da competência do Procurador-Geral da República, já que estamos perante a denúncia de um crime cometido por titulares de cargos políticos, crime público, evidentemente.
VI acto
Em declarações à rádio, Passos Coelho, que ainda é candidato a primeiro-ministro, vem confessar ser politicamente ingénuo. A turba passa então a falar de portagens, gravidezes e excepções várias, matérias em que o líder se sente mais à-vontade.
Moral da história: A culpa de tanta ingenuidade é do “espertalhão” do José Sócrates. A da ignorância do candidato é do próprio. E deve ser aplaudida, posto que até esta é invulgar num candidato a primeiro-ministro. A irresponsabilidade, também ela invulgar, será dos partidos e dos eleitores que permitiram que se chegasse até aqui.
Como escreveu um genial e contemporâneo autor que não me canso de ler:
“Certos homens, estando sentados,
esforçam-se tanto por esboçar uma ideia
que acabam banhados em suor.
E entretanto cá fora: nada,
nem a carcaça do mais efémero indício
de inteligência. Cada ideia parece estar nesses cérebros
como num labirinto de que só raramente consegue sair“.


Sérgio que feio é este seu “post”.
Não entender que este país tem de se libertar DEFINITIVAMENTE da soberba dos muito conhecedores e sabidos SENHORITOS que, década sobre década, vão concorrendo a concursos cujo designação só eles entendem e só para eles são feitos, é marcado sofisma ou vaidosa prosápia, de quem se considera intelectualmente superior.
Haja Deus caro Sérgio! Haja Deus!!
Eu também penso que é preciso acabar com esse tipo de concursos e de compadrios, mas tenho sérias dúvidas que seja esse o caso apontado.
E, depois, há outra coisa: nem todos têm legitimidade para poder fazê-lo. Em especial quando ao mesmo tempo se passeiam de braço dado com o jardinismo e contam com ele (e com os seus defeitos) para se fazerem eleger.
E não vale a pena invocar o nome de Deus em vão.
Oh Sérgio, essa invocação do Jardim como justificativo para todas as maldades, mediocridades, incompetências, aleivosias cometidas aqui no “contenente”, é bem mais “em vão” do que o apelo a um ser hipoteticamente superior que nos “meta a todos nos eixos”.
De resto, falar em Jardim sem falar em Isaltino de Morais, Abílio Curto, Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro, etc., etc., é muito pouco como justificação, para as barbaridades do sr. Sócrates de Sousa…
Mas esses, meu caro, já começaram a levar a sua “conta”.
Enquanto que Jardim segue olimpicamente inimputável, insultando tudo e todos, e com o apoio do candidato. Convenhamos que não é bem a mesma coisa para quem anda a pregar a moral alheia (e esconde encontros que não lhe convém dizer que teve, iludindo a opinião pública nas entrelinhas que não disse).
A peça de teatro real encontra-se deveras bem contada/escrita…
A moral da história é pertença de cada espectador/leitor, entranhada na própria definição moral.
Na minha opinião, apelidar de ingénuo politicamente PPC face a tal peça é o lado fácil da interpretação. Quem recorda o passado líder! jota, produto puro político de partido do actor…sabe que não é ingénuo, é cabeça de cartaz e não tanto faz por ingenuidade quanto por inaptidão.
Opiniões.
Não obstante, um bom post.
perdoe-me a minha ingenuidade em não atingir de imediato a ironia moral…assim nos encontramos.
Fique bem
Escassez de recursos… e de opções!
É triste que o nosso panorama político, no qual apenas 2 partidos têm, realisticamente, hipóteses de ganhar as eleições, tenham como líderes:
– um líder que mente sem se enganar; ou
– um líder que se engana sem mentir.
Pior que isso é que, apesar desses líderes, aqueles partidos continuem a ser aqueles que, realisticamente, têm hipóteses de ganhar as eleições.
É certo que um partido não se resume à pessoa do seu líder. Mas em sede de contexto eleitoral, relativamente aos partidos com hipóteses de ganhar as eleições, os líderes desses partidos são, embora indirectamente, candidatos a primeiro-ministro.
E, nesta perspectiva, é triste que, sendo patente que esses candidatos a primeiro-ministro não são as melhores opções, ainda assim o eleitorado não tenha a coragem de votar maioritariamente em algum dos outros partidos cujos líderes constituiriam opções manifestamente melhores para o exercício do cargo de primeiro-ministro.
Todavia, por exclusão de partes, sobrariam 3 líderes. E, destes, apenas um assumiu o compromisso com o trio internacional (o que é pena!).
Convenhamos que a escolha é escassa…
aqui, neste blog, com este post o senhor faz jus à definição de Churchill para a democracia (todos a conhecem, poupo-me de a reproduzir).
Comecei a frequentar esta casa no tempo da asfixia democrática” da Dra. M. Ferreira Leite porque aqui não havia tal coisa!
Nem sempre concordei com vocês (e vice-versa), mas aqui respira-se democracia e aqui percebe-se porquê ela é tão importante: cada um de nós sabe muito pouco, juntos, com o saber de todos, é possível fazer-se qualquer coisa mais de jeito (quem diz qualquer coisa, diz uma sociedade) …
Se usasse chapéu, tirava-o para si!E fazia uma vénia! 🙂
É bom saber que mais importante que a estratégia, é a verdade. É saber que mais do “defender um dos nossos”, defender a verdade.Eu tinha ouvido mencionar o caso de passagem e só pensei “mais um escândalo”.Foi bom ver o caso assim (bem) explicado. É que o Eng.º Sócrates não é Luís XIV. E responsabilidade do que acontece no país é de todos nós, dos 10 e “picos” milhões.