Um assassinato menos reprovável


Pedro Correia,

Excerto de um diálogo travado numa caixa de comentários, nada vicentina, do blogue 5 Dias:

 

JDC – O assassinato de uma criança israelita é menos reprovável que o de uma criança palestiniana? Isto significa que o valor da vida de uma criança depende do lado da barricada?

Renato Teixeira – JDC, é inexorável, é triste, mas é mesmo assim.

 

Para que não restem dúvidas: há mesmo quem considere que o valor da vida de uma criança depende do lado da barricada.

30 comentários em “Um assassinato menos reprovável”

  1. A vantagem destas “tricas” reside no facto de ficarmos a conhecer as barricadas, sabendo de que massa são feitas, e podermos escolher de que lado queremos estar.

    Valha-me Deus!!
    Deus (Alá ou qualquer Outro) nos livre de sermos governados por um punhado daquela estirpe.

      1. Não vou escrever nada sobre esse repugnante critério porque não concebo, sequer, que ele possa ser critério, ponto.

        Limito-me a constatar as ideias e princípios do outro lado da “barricada”. Bloguística, entenda-se.

      2. A pessoa em questão não me merece especial simpatia, mas o critério dele não é étnico. Se leu o diálogo de onde tirou este trecho, sabe que a diferença, para ele, está entre opressor e oprimido.

        Será que não podemos discordar sem distorcer, falsear, manipular?

        1. Explique-me, Luís Rodrigues, para eu tentar perceber melhor: numa guerra, qual é a criança opressora e qual a oprimida? E o que as distingue? Será o facto de uma delas ter tido a clarividência de “decidir” nascer do lado certo da barricada e a outra ser mais distraída e ter escolhido o lado errado? Estou confusa, pensei que todas as crianças eram igualmente vítimas de uma guerra de adultos. Mas vejo que, para si, algumas delas participam activamente nas estratégias bélicas nos intervalos dos biberons e mudança de fraldas…

          1. Oh céus… Esta doença pega-se.

            Onde é que EU defendi o ponto de vista de que uma criança é diferente da outra?

            O que eu digo é que para a pessoa que escreveu no 5 Dias, há uma diferença trágica entre elas.

            Essa diferença PARA ELE advém do facto de uma estar do lado mais fraco e a outra do lado mais forte. Isto é discutível, como a Ana Vidal muito bem faz.

            Mas não é HONESTO falsear o que ele diz atribuindo essa diferença a um qualquer ódio racial. Foi essa a minha crítica ao que foi escrito aqui. Se o Pedro Correia tivesse escrito o que a Ana Vidal escreveu, teria todo o meu apoio. Mas escolheu fazer outra coisa com a qual não posso concordar.

          2. Discutível? Não vejo como. Se você considera este assunto discutível, lamento dizer-lhe, mas quem pegou uma doença não fui eu.

          3. Não é discutível, tem razão. Vamos então não discutir.
            Assim como não discutimos a falta de honestidade que era o centro do meu argumento.

          4. Essa sim, é discutível porque é interpretativa. Na minha opinião, ou o Renato Teixeira se exprimiu mal, ou a interpretação do Pedro está correcta. Não vejo qualquer manipulação nisso, e muito menos discuto a honestidade do Pedro.

          5. Eu dou uma ajuda à discussão, se quiser:
            Um pouco acima na dita caixa de comentários o Renato Teixeira diz:
            “Não há paralelo possível entre o sofrimento do ocupante e a cólera do ocupado. “
            E é nesse contexto que conclui:
            “é inexorável, é triste, mas é mesmo assim.”

            Afirmar que a distinção é meramente étnica, é atribuir um preconceito racial que não vi exprimir em lado nenhum. E só chamei a atenção para isso porque exactamente a mesma manobra de diversão foi utilizada no embate com o mesmo blogue que deu origem a isto tudo.
            Se essa táctica não constitui uma desonestidade intelectual, (na terminologia de debates chamada “homem de palha”) não sei o que constitui.

            Só como adenda, não sou amigo de ninguém do 5 dias, e no que respeita ao Renato Teixeira em particular, será até o que menos gosto de ler.

            E nem sei bem porque me meto nestas coisas… suponho que é um fascínio um bocado mórbido pelas fragilidades e contradições humanas. É sempre intrigante quando alguém munido de inteligência, em certos assuntos prefere, talvez inconscientemente, não a utilizar.

          6. O que me parece ser exactamente o seu caso nesta matéria, Luís, se me permite o comentário…

            Eu também li a dita caixa de comentários. Quando se diz que “não há paralelo possível entre o sofrimento do ocupado e a cólera do ocupante” já se está a fazer uma manipulação óbvia das palavras: comparar sofrimento e cólera é, por si só, uma batota. Podemos, sim, comparar o sofrimento entre crianças vítimas de guerra, de um lado e de outro: parecem-lhe diferentes?

          7. Antes de discutir a demagogia ou o estilo panfletário do texto em questão, consegue indicar-me onde é que nele se coloca a questão étnica?

            Se se recusa a fazê-lo, não estamos a ter a mesma conversa.

            (Faço notar que trocou a “cólera do ocupado” pelo “sofrimento do ocupado”, devo depreender que foi um erro inocente? Ou que era mais útil para ilustrar o seu ponto?)

          8. Foi um erro inocente, sim, Luís, e nem sequer o que escrevi por engano favorece o meu raciocínio. Mas mantenho que comparar sofrimentos com cóleras não leva a grande porto.

            Quanto à discussão de fundo, é verdade que a questão étnica não está explícita. Mas é inerente a cada um dos papeis, no caso, o que permite uma associação de ideias que não me parece abusiva. A si, parece. Muito bem, não estamos de acordo. Mas não acha que a conclusão é de um mau gosto indiscutível, para não lhe chamar coisa pior?

          9. Uma criança inocente, é uma criança inocente. Ponto.

            Agora, permita-me que faça de advogado do diabo propondo-lhe um cenário:
            Algures no leste da Europa em 1943, um grupo de crianças judias é arrebanhado, morto e incinerado.
            Ao mesmo tempo o director do campo de extermínio, sofre um atentado por um grupo de resistentes judeus, e um dos seus filhos morre.

            A razão diz-nos que crianças inocentes morreram, num caso e noutro. E isso é igualmente deplorável.

            Mas tem a certeza de que as suas emoções são absolutamente idênticas num caso e noutro?
            E conseguiremos mesmo, e sempre, equivaler as consequências de um acto de resistência desesperado às consequências de um acto de extermínio organizado?

            É por isso que não consigo, liminarmente, repudiar os argumentos do Renato. Posso repudiar o estilo e o método, mas isso são sensibilidades minhas que não vêm ao caso.

            (Claro que há quem mantenha que Israel é o agredido e não o agressor, e nesse caso invertem-se os papéis mas não os argumentos. )

          10. Quanto à primeira pergunta, não tenho dúvidas: tenho a certeza de que todas as crianças envolvidas no seu cenário são igualmente vítimas. O seu próprio parágrafo de abertura responde por mim.

            Evidentemente que este é um exercício académico (para mim como para si, imagino) porque nenhum de nós sabe o que é estar num campo de extermínio, em nenhum dos papeis. Quais são as emoções de alguém que luta pela sobrevivência a qualquer preço? Não sei, a não ser por relatos de terceiros. Honestamente, só posso responder-lhe isto.

          11. Obrigado pelo diálogo, Ana.
            Como vê, pode-se discutir. Eu por outro lado percebo que isso seja difícil. Até porque não chegamos aqui sem alguns equívocos.

            As perguntas sobre emoções e valoração das consequências não são académicas na medida em nos interpelam enquanto observadores e não enquanto participantes.

          12. Ah, Luís, não caia agora você nas batotas que acusa nos outros! Eu gosto de discutir, como já percebeu, e só disse que para mim não tem discussão o tema da comparação entre sofrimentos de crianças vítimas de guerra.

            Quanto ao resto, por favor não me interprete mal: o que quero dizer é que haverá sempre um abismo entre filosofar sobre situações extremas e vivê-las na pele, por isso chamei académica à nossa discussão. Pela minha parte, reconheço sem problemas que não faço ideia de que actos terríveis seria capaz numa situação dessas, mas sei que nesses momentos de pura sobrevivência só os instintos imperam e lá se vai a elegância e a ética. É da condição animal, humana ou não.

            Obrigada também por me ter aturado.

  2. E já agora:
    Eu posso dizer que vendo aulas numa universidade e invocar essa minha qualidade, de professora universitária, para explanar sobre o tema ou isso choca os pseudo-intelectuais e será considerado argumento insultuoso?

  3. Classificar o «5Dias» na vossas «tag» como extrema-esquerda dá-me vontade de rir.

    Oxalá que os verdadeiros blogues da Direita em Portugal fossem tão conservadores e militaristas como o 5Dias!

    Aliás o 5Dias e os comentadores que lá passam é o único blogue que defende a diplomacia portuguesa no tempo do saudoso Salazar: ou seja nunca reconhecer o Estado de Israel.

    E olhem que o Salazar não era tolo nenhum!

  4. É natural que assim seja para aquelas mentes brilhantes, que aceitam com naturalidade a existência de crianças bomba do seu lado da barricada. há um mérito, é que ninguem pode dizer que vai ao engano com aquela gente.

  5. Como venho menos vezes aos vizinhos, nem sempre apanho o “fio à meada” ,mas infelizmente nesta caso apanhei mais ou menos o enredo da coisa.E sinceramente, há gente que faço questão de nunca querer conhecer ,mesmo que virtualmente.Gente que coloca a vida humana nestes termos, não é gente.
    abraço Pedro

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