Acabo de escutar as intervenções emocionadas de Isabel Soares e João Soares no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, durante as solenes exéquias do pai de ambos. Foi um momento exemplar de dignidade e elevação a que se associaram todas as instituições do Estado, todos os representantes partidários e uma galeria de ilustres convidados estrangeiros.
Somos tão invadidos pela vulgaridade e pela grunhice no nosso quotidiano mediático que quase estranhamos estes momentos de recolhimento e solenidade propícios à meditação sobre a frágil condição humana, impostos pela lei da vida e pelo luto nacional na hora em que nos despedimos de um político de excepção como Mário Soares.
Arrepiante foi escutar a lacrimosa do Requiem de Mozart naquele cenário. O mesmo em que Soares, em Junho de 1985, pôs a sua assinatura – com Felipe González, novamente hoje ali presente – na cerimónia da adesão dos dois países ibéricos à então CEE. Arrepiante também foi escutar a saudosa voz bem timbrada de Maria Barroso, que partiu ano e meio antes do marido, recitando os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste, de Álvaro Feijó.
«Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro / Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos / Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos / E ver-te-ás de corpo inteiro. // Como quando sorrias no meu colo. / E, ao veres que tenho toda a tua imagem / Dentro de mim, se, então, tiveres coragem, / Fecha-me os olhos com um beijo. // (…) Não um adeus distante / Ou um adeus de quem não torna cá, / Nem espera tornar. Um adeus de até já, / Como a alguém que se espera a cada instante. // Que eu voltarei. Eu sei que hei de voltar / De novo para ti, no mesmo barco / Sem remos e sem velas, pelo charco / Azul do céu, cansado de lá estar. // (…) E, se quiseres partir e o coração / To peça, diz-mo. A travessia é longa… Não atino / Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?»
Como tantos portugueses, assisto comovido à cerimónia. Ficam-me a reverberar os acordes sublimes do Requiem e as sílabas do belíssimo poema que aquela gravação de Maria Barroso projecta para a eternidade.
Tento reter estes instantes. Antes que a poluição sonora nos invada novamente o recato do domicílio, com as berrarias do futebol mescladas de música pimba, graçolas rascas e vídeos imbecis das “redes sociais”. Sem estética, sem gosto, sem grandeza. Tudo ao contrário do que acabámos de escutar agora.

Entendo o que diz. Respeito. Mas…
“Sem estética, sem gosto, sem grandeza. Tudo ao contrário do que acabámos de escutar agora”
É o preço de vivermos em democracia (demos) e não em aristocracia. Sempre assim foi. O povo sempre preferiu o Pão e o Circo, às grandes obras do espirito (da literatura, música, etc) E sempre o há-de preferir, se não for Obrigado a mudar. Mas aí acaba-se com a liberdade. A liberdade que todos também têm de esgotar a vida na estupidez. Mas talvez seja melhor assim. Pela história não podemos ignorar que as almas mais sensíveis, as que tinham grandes planos de reforma social e espiritual, através da beleza (o Bem é tudo o que é Belo), apenas conseguiram provocar dano e morte em larguíssima escala – Papas, Fuhers, Duce, Pai, Mãe …os Demónios de Dostoiévski
“O pior é que a beleza é tão misteriosa quão terrível”
Os brutos nunca matam em larga escala. Apenas os estetas, os reformadores do espirito, têm a frieza do mármore para o fazer.
Meu caro, democracia não é sinónimo de berraria. Pelo contrário, a berraria é uma perversão da democracia – uma espécie de darwinismo das cordas vocais, em que prevalece a lei do mais forte. Neste caso a lei de quem mais berra.
Sendo estes dias de luto, tenho ficado muito impressionado com a dignidade, a um tempo solene e sóbria, com que Portugal tem estado a despedir-se de Mário Soares. Sem excessos nem insuficiências.
Até os mais empedernidos adversários políticos têm estado à altura não apenas do falecido mas também do país. Sim, porque, nesta ocasião, está em causa tanto o homem Mário Soares como o estadista e a nação que ele serviu e representou. Nesse sentido, devemos sentir-nos honrados com a presença e mensagens de tantos dignitários de países e entidades internacionais, o que atesta, em simultâneo, a dimensão pessoal de Soares e o lugar que ele ajudou a conquistar para Portugal.
De facto, é possível haver beleza e elevação mesmo em circunstâncias de tristeza.
As suas palavras traduzem exactamente o que eu sinto e penso.
Eu sei que hei de voltar hei de???!!!
Sente-se bem?
Bem melhor o Requiem do que aquela grotesca marcha fúnebre que a banda da guarda republicana tocava ontem.
Sem a menor dúvida.
O ambiente dos claustros, as palavras ditas e declamadas e a música, toda ela tão própria e sóbria…
Aquela lágrima que não queres deixar sair e o bombo dentro do teu peito repetem-te incessantemente ao ouvido ” Foi lindo, foi digno, foi merecido”… depois encostas as portas em respeito, passam as motas, o armão, os cavalos , os carros… passou também uma vida vivida em pleno.
Eu estarei talvez um pouco fora de moda, Dulce, admito. Mas entendo que a sociedade tem tudo a ganhar se souber manter, ao nível do Estado, rituais que traduzam a melhor expressão dos sentimentos colectivos, por mais antiquados e ‘demodés’ que possam parecer aos olhos de alguns.
Senti que isso aconteceu, de forma irrepreensível, no funeral de Estado de Mário Soares. E – creia-me – senti algum orgulho de ser português também por isso.
Valores, respeito e orgulho nacional nunca estarão démodés enquanto de homens e mulherese livres e esclarecids forem escolha , Pedro.
É em momentos como este que o eu se funde no nós e todos somos Portugal.
Valores, respeito e orgulho nacional nunca estarão démodés enquanto de homens e mulherese livres e esclarecidos forem escolha , Pedro.
É em momentos como este que o eu se funde no nós e todos somos Portugal.
Numa das televisões, um repórter não conseguiu calar-se durante a música. Outra televisão cortou a meio o Elgar (que eu ouvisse, ninguém conseguiu explicar que este fragmento das Variações Enigma tem por título Nimrod e é uma das peças mais belas e solenes do reportório sinfónico). Outra repórter nem sequer conseguiu dizer correctamente o nome da orquestra (ela julgava que estava a ouvir a Metropolitana de Lisboa, bastando olhar para o folheto oficial, onde estava correctamente Orquestra Sinfónica Portuguesa). Apesar de tudo, dizer banalidades durante a música acho grave e imbecil, pois aquele é um momento de reflexão interior, em que as pessoas estão a pensar no falecido. Falta de respeito! Fiquei irritado com tanto amadorismo e falta de chá! Tive vontade de partir a televisão!
Percebo-te muito bem e partilho da tua indignação. Estendo-a aliás à poesia, com um papagaio a inutilizar com paleio da treta os dois primeiros – e tão emblemáticos – versos de Álvaro Feijó pronunciados pela inesquecível voz de Maria de Jesus Barroso Soares.
«Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro / Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos.»
Quando o imbecil enfim se calou, estes versos já tinham ido à vida. É o jornalismo do ruído, a que temos direito. Incapaz de perceber que o silêncio também é uma forma de comunicação. Sobretudo o silêncio que nos leva a aperceber as vozes dos outros.
Muito bem dito. Parabéns.
Grato pelas suas palavras, meu caro. Um abraço amigo.
Belo post, Pedro
Julgo que traduz aquilo que muitos de nós sentimos, Teresa.
Revi-me completamente nas tuas palavras.
Gosto muito desta sintonia, Teresa.