Um “acordo”, três grafias


Pedro Correia,

 

Um Acordo Ortográfico (AO) que pretendia “unificar a ortografia” consagra afinal… três ortografias. A brasileira, a portuguesa e a que se mantém em Angola, o maior país da África lusófona. Já havia diferenças de pronúncia, de vocabulário e de sintaxe entre os lusofalantes. Passa a haver agora ainda mais diferenças na grafia, o que diz muito sobre o mérito das luminárias que deram à luz este “acordo”.

O Presidente da República, na deslocação que acaba de fazer a Díli como convidado de honra das comemorações do décimo aniversário da independência de Timor-Leste, confessou com assinalável franqueza a sua falta de apego ao chamado “acordo ortográfico” da língua portuguesa. «Todos os meus discursos saem com o acordo ortográfico mas eu, quando estou a escrever em casa, tenho alguma dificuldade e mantenho aquilo que aprendi na escola.». Também recentemente, numa entrevista à revista Sábado, o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, emitiu uma opinião em sintonia com a de Cavaco Silva: «Eu não gosto de ter de mudar a maneira de escrever. Não gosto. É a minha opinião pessoal.»
Estamos assim: cada vez mais confusos, cada vez mais baralhados. Com três grafias oficiais da língua portuguesa. Confrontados com o insólito conceito de “pronúncia culta” que serve de fundamento “científico” à novissíma ortografia de base fonética. E sem o prometido novo vocabulário ortográfico da língua portuguesa, que jamais viu a luz do dia ao contrário do que fora prometido.
Felizmente, no meio desta balbúrdia, fomos confortados com garantias emanadas da recente cimeira de ministros da educação dos países lusófonos que prometeu a revisão do AO a curto prazo. Concretamente, os representantes dos executivos lusófonos comprometem-se a realizar “um diagnóstico relativo aos constrangimentos e estrangulamentos na aplicação do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa de 1990” e “acções conducentes à apresentação de uma proposta de ajustamento do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa de 1990, na sequência da apresentação do referido diagnóstico”.

Garantias por sinal expressas num comunicado redigido em português, não em acordês. O que deve ter feito ranger os dentes a muitos caçadores furtivos de consoantes mudas. Ainda bem.

12 comentários em “Um “acordo”, três grafias”

  1. É fácil perceber a “lógica” deste acordo “ortográfico” e vindo do consulado do pinóquio percebe-se logo qual foi. No programa da manhã da RTP há a rubrica “Bom Português”, onde já se “aprende” bom português o novo “português”. E então as pessoas têm de escolher duas hipóteses sobre a forma correcta de escolher uma palavra, só que frequentemente ambas são correctas. Está visto que à boa maneira das “novas oportunidades”, se se abandalhar a língua escrita de modo a ficar igual à forma (muitas vezes incorrecta) como é falada, diminuem os erros ortográficos. Então temos coisas “brilhantes” como “Egito” e “egípcio” ao mesmo tempo. Uma bandalheira que nos vai custar caro, como se já não houvesse analfabetismo suficiente neste país. E depois querem que um povo que domina mal a sua língua seja competente noutras línguas. Brincadeira.

    As televisões generalistas já usam o acordo. A maior parte das editoras também. Mas há jornais que mudaram e outros que não querem mudar, por exemplo. Há comentadores que querem escrever conforme o acordo em jornais que o não adoptaram, e outros que escrevem como antes em jornais que já mudaram para o novo acordo. Uma PALHAÇADA em três actos. Maldita a hora!

    1. Há jornais e revistas – como refere – onde se continua a escrever português sem os erros clamorosos ditados pelo “acordo”. E algumas editoras também resistem ao aborto ortográfico. Merecem um elogio rasgado aqui. É o que farei, com mais vagar, um dia destes.

  2. No mínimo, “pronúncia culta” obrigaria a manter tudo como está – e até a recuperar alguma ortografia do século XIX. E a ideia de pronúncia culta, obviamente, exclui todos os apresentadores de televisão, especialmente os da SIC e os da bola – que serviram de base a Malaca Casteleiro para inferir que TODOS os portugueses falam mal, o que não é verdade.

    1. O mais tristemente irónico é ver o vago e fluido e contestável conceito de “pronúncia culta” apresentado como uma espécie de aval científico do aborto ortográfico.

  3. Foi uma sorte não se terem lembrado de passar “possamos” para “póssamos”, ou “pussamos”, conforme a pronúncia do “freguês”…

  4. A revolta contra o acordo ortográfico é das poucas coisas que dá esperança em Portugal pois é das poucas revoltas contra o estatismo dos políticos-jornalistas-burocratas, daqueles que querem desenhar um país a regra e e esquadro mesmo cheio de buracos.

    1. Tem a certeza de que inseriu o seu texto nesta caixa de comentários? Garanto-lhe que não o li. Se puder, reconstitua essa sua opinião. Terei todo o gosto em publicá-la, aliás como é norma nesta casa. Com raríssimas excepções que só confirmam a regra.

  5. Só alguém completamente destituído de senso poderia permitir que semelhante aberração tivesse ido em frente. Digo, alguém que ignora por completo as questões essenciais (filosóficas) inerentes a uma língua. O problema é que esses não serão chamados (como sempre!) para prestar contas quando advierem as consequências desta enormidade carregada de absurdos. Penso que este acordo tem inscrito na sua matriz escondida a intenção inconfessada de contribuir para a devastação espiritual que, também por outros meios, está a ocorrer. É só mais um aspecto, uma dimensão do processo de esvaziamento espiritual.
    De resto, basta atender a mensagens como aquela que nos é apresentada por Orwell, na sua obra 1984, para percebermos qual é o critério destes tristes homens que se colocam no lugar de agentes da língua e são capazes de vendê-la em troca de um prato de lentillhas.

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