Com um editorial um pouco mais musculado do que na véspera, o Público saudou ontem a demissão de João Soares, considerando que se tratou da “única saída digna” para o efémero ministro da Cultura. Foi pena o jornal ter descoberto isto com 24 horas de atraso – facto tanto mais insólito quanto estavam em causa ameaças a dois conhecidos colunistas do matutino. No editorial anterior, recorde-se, o Público nunca exigiu a demissão de Soares. E chegou mesmo a escrever que a eventual saída deste ministro “podia trazer mais dissabores do que sossego a António Costa”, algo que mais ninguém concluiu.
O anónimo editorialista da edição de ontem não deve portanto ser o mesmo anónimo editorialista de sexta-feira. Porque o mais recente já escreve que “fora do governo, por mais ‘salutares bofetadas’ que prometa aos seus detractores, [Soares] não será uma sombra para a governação”.
O Público, em editorial, desmente-se a si próprio. Tudo está bem quando acaba bem.

Tanta polémica por causa de bofetadas que não na prática, não passavam de algumas palavras mais azedas de João Soares para quem o desclassificou. Não estou com isto, a desculpar João Soares que devia ter mais tino porque sabia e sabe que estão sempre à procura dum pequeno deslize, para crucificar o governo. Toda a gente se esqueceu do Alberto João Jardim que dizia o que queria e nunca ninguém lhe fez nada e foi sempre intocável.
Você ousa criticar-me, anónimo? Habilita-se a levar um par de galhetas quando eu o encontrar.
Não confunda. Fui bem explícito e fui tão claro que qualquer um entende, quem parece não entender é o Pedro. Recordo-lhe que não desculpei João Soares, mas isso passou-lhe ao lado.
Ainda bem que você o critica. Mas mantenha-se anónimo: ele não parece gostar de críticas.
O Público segue a voz do Governo. Se Soares continuasse também tudo estaria bem.
A questão, para mim, não é essa. O jornal tem todo o direito de escolher a linha editorial que entender.
A questão, neste caso, é perceber se tem alguma…
O jornal devia ter exigido de imediato a demissão do ministro, o que não fez. Pelo contrário, publica um editorial dizendo que essa demissão “traria mais dissabores do que sossego” ao chefe do Governo – tese absurda. No dia seguinte, publica outro editorial em sentido oposto, considerando afinal que a demissão era a “única saída digna”. Isto enquanto informa em manchete que “António Costa já não andava satisfeito com o desempenho de Soares”.
Quando se opta por editoriais anónimos, que não podem portanto responsabilizar quem de facto os escreve perante os leitores, saem estas “coisas em forma de assim”, como costumava dizer o Alexande O’Neill.
“O jornal tem todo o direito de escolher a linha editorial que entender.”
É verdade – é mau é mudá-la conforme “his master’s voice” disser – e então mudá-la de um dia para o outro e não defender os que são da casa, aí ultrapassa todos os limites…
É evidente. De uma coisa tenho a certeza: no tempo do Vicente Jorge Silva, fundador do jornal, nada disto teria acontecido (sequer remotamente) assim. Quem viu o ‘Público’ e quem o vê…