Tristezas


Patrícia Reis,

Situação da imprensa, segundo a Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação. Dados de Janeiro-Fevereiro de 2013. Entre parêntesis, a tiragem de cada título, referente a exemplares vendidos.
Diários: «Correio da Manhã» (112.919 exemplares diários), «Jornal de Notícias» (56.561), «Público» (17.305), «Diário de Notícias» (13.186), «Jornal de Negócios» (11.467), «i» (3.712), «Diário Económico» (3.617).
Semanários: «Expresso» (80.914), «Sábado» (37.615), «Visão» (29.824), «Sol» (13.032).

22 comentários em “Tristezas”

  1. São números verdadeiramente arrepiantes. Porque não há democracia sem imprensa. Mas não se culpe a crise de tudo: em vários destes casos a queda a pique já tinha começado muito antes da crise, com opções editoriais profundamente erradas.

    1. Tens toda a razão, Pedro, as vendas, a colocação de publicidade, tudo isso, começou antes da crise (embora tenha de confessar que vivi uma vida inteira a ouvir falar de crise, portanto acho que nunca saímos dela, mas isso é outra conversa). O drama é que os mais novos não compram e o que lêem está on-line e tomam como bom e não questionam. Não tem por hábito ler os cronistas ou as grandes entrevistas (ainda se fazem?) ou o jornalismo de investigação (eis uma espécie em extinção!). E são estes que optam por não votar, colocando a nossa abstenção num nível absurdo e dando cabo de uma potencial democracia. A minha pergunta é: quem nos governa daqui a 20 anos? E quem são os jornalistas daqui a 20 anos? Estaremos todos só na net? Talvez. Aqui, no DO, faz-se muito jornalismo de opinião e bom, na minha opinião, e temos leitores (bem hajam), mas será que chega? Não chega. E se formos ver os shares de televisão o susto é maior ainda. Há uns dias explicava eu a um adolescente a aventura de O Independente e ele ficou a olhar para mim como se fosse parva. O primeiro jornal a ter computadores? Pois. Não temos internet há tanto tempo assim. E a net tem os seus defeitos, claro, como têm os jornais. Há opções jornalísticas muito más. Ontem fiquei verde: festival literário em Bogotá, não sei quantos escritores (muitos!) e a peça do Público é sobre o Ricardo Araújo Pereira? Não tenho nada contra gatos, fedorentos ou nem por isso, mas gaita: tanto escritor e damos duas páginas a um humorista inteligente porque… Pois é. Não se entende. Mas há muita coisa nos jornais que não se entende. Infelizmente as vendas são o reflexo disso, da crise, da publicidade e de uma nova geração que se está a borrifar para o estado das coisas. Isso é o mais perigoso de tudo. Beijos, Pedro, tem um bom feriado

      1. Criou-se o mito urbano de que os jornais estão condenados a desaparecer devido à Internet, Patrícia. O que não é verdade. Pelo menos dois que mencionas demonstram o contrário pois estão em trajectórias ascendentes com alguma consistência.
        Também é preciso dizer que estes números se referem apenas a vendas nas bancas – o que, pelo menos no caso das revistas, que têm muitos assinantes, se distancia claramente dos números reais das vendas.
        Dou-te razão: o jornalismo de opinião, por mais qualidade que tenha, não pode ocupar o lugar do jornalismo tradicional. Nem por sua vez este – acrescento eu – deve ceder à tentação, como já se vê muito por aí, de constituir uma espécie de prolongamento da lógica das redes sociais, onde as regras deontológicas mais elementares (nomeadamente a da audição prévia de todas as partes envolvidas) não é respeitada.
        E há até exemplos recentes, tristemente famosos, como a da célebre manchete do ‘El País’ em Janeiro deste ano, com a suposta foto de um Hugo Chávez agonizando no hospital e que afinal não era de Chávez mas de um outro indivíduo qualquer, e já tinha sido tirada quatro ou cinco anos antes.

      2. Pelos vistos, sou um dos 17.000 que ainda compra o Público, não todos os dias, como fazia dantes, mas muitos dias. E deixei de comprar diariamente para acompanhar a viragem à esquerda verificada naquele jornal, que antigamente dava abrigo a jornalistas de todos os quadrantes, coisa que eu apreciava.
        Claro que também topei aquele frete ao Araújo Pereira que eu até nem sabia escritor…

      3. “E são estes que optam por não votar, colocando a nossa abstenção num nível absurdo e dando cabo de uma potencial democracia.”

        Esta correlação parece-me excessivamente generalizada. Duvido que haja dados que a sustentem (até porque os valores de abstenção, devido aos cadernos eleitorais, têm muito que se lhe diga). No dia em que votar à distância for tão fácil como enviar um e-mail – e com o Cartão do Cidadão deveria ser, tivesse a coisa sido desenvolvida com um mínimo de critério -, talvez se possa de facto avaliar o desinteresse eleitoral das gerações mais jovens.

        (o artigo e o comentário merecem mais atenção – a ver se escrevo qualquer coisa sobre isso)

        1. João, podemos debater a democracia e ver sondagens que apontam para que as gerações até aos 40 anos, ou seja, aquelas que não fizeram a revolução, são a maioria da abstenção. Está provado. O que move as novas gerações não é a ideologia ou a causa. Serão as pessoas? Que líderes carismáticos é que temos? Acresce isto: os jornais não são uma oposição são, como sempre foram, um negócio, mas desta feita um negócio com muitas faces e interesses e nem aí as novas gerações pegam. Seja como for, a nossa democracia é relativa, votamos sempre nos cerca de 200 mil militantes, inscritos em estruturas partidárias, e duvido que estas almas possam reflectir o meu estado de alma:) ou do meu filho que faz 18 anos e não quer saber da vida política, quer saber como vai ganhar a vida. E quando se explica que a intervenção cívica é essencial, os mais jovens encaram a coisa com um enfado que outras gerações não tinha. É só isto. Não queria generalizar e tão-pouco dizer que tenho razão absoluta no que escrevo, podemos concordar que discordamos. A venda dos jornais é penosa, a publicidade é pouca, a oferta muita, a procura residual e a internet conta uma verdade distinta a cada minuto. Esta é a realidade vista pelos meus olhos, não tem de ser vista por mais ninguém deste modo. Um beijo, João, e resto de bom feriado.

          1. Mas o problema é que os jornais são desinteressantes para os mais jovens. A política enquanto tema até me interessa – mas há muito que perdi a vontade de comprar o Público ou o Diário de Notícias. Nos últimos dois anos comprei cada um destes jornais exactamente uma vez – e apenas por causa de um artigo concreto em cada um dos caso, não disponível online.

            Tens razão quanto ao enfado (também o sinto), mas talvez isso se deva, pelo menos no caso partidário (bem sei que a coisa não se esgota aí), à percepção de que os partidos são círculos fechados em torno de interesses mais ou menos obscuros, onde o que conta é fazer os amigos certos e não pensar pela própria cabeça.

            Quanto aos líderes carismáticos: os nossos líderes políticos têm tão pouco carisma que se formos quantificar a coisa precisaremos de números negativos. Um beijo, Patrícia, e como já não posso desejar bom feriado desejo um bom Maio 🙂

  2. DELITO OPINIÃO 2032
    – Patrícia Reis – *

    (+/-) ” Crise na leitura dos jornais on-line. Culpa? Os leitores desde jovens habituaram-se a ler noticias e mexericos nas embalagens dos hambúrgueres Mac-Donalds e na dos gelados Olá…

    * Oxala, ainda escreva neste maravilhoso blogue… e desculpe-me usar o seu nome …

  3. O grande mistério, pelo menos para mim, é a razão, ou as razões que levam os proprietários do Publico, do Diário de Notícias, ou do “i” (3.617 exemplares?) p. ex. a suportarem prejuizos de milhões de euros com esses jornais todos os anos. Sabendo nós a importância que Belmiro de Azevedo ou Joaquim Oliveira dão ao dinheiro, é no minimo “esquisito”!
    Em casa dos meus pais, compravam-se dois jornais por dia, um de manhã e outro à tarde; os meus irmãos e eu, fomos sempre habituados a ler jornais desde míudos, habito que me ficou até há seis ou sete anos, altura em que deixei de comprar jornais: primeiro foi o DN, depois o Publico, e o Expresso foi a gota de água. Agora, nem diários nem semanários, e com grande pena o digo, não lhes sinto a falta.

  4. Os jornais portugueses estão a morrer porque o produto é (na grande maioria) muito mau. O produto é mau porque é muito mal produzido: especulativo, opinativo, descuidado (há 20 anos nem um estagiário ousaria fazer o que fez o DN com a frase de Nogueira Leite). O produto é mal produzido porque os seus produtores são maus e são maus porque são muito, muitíssimo, mal formados – sabem imenso de Bourdieu e Habermas, foram sujeitos a um “ensino crítico”, resultado: nunca criticam a crítica. Foram mal formados porque a cultura dominante nas escolas (a maior parte) é péssima, auto-suficiente, rasuradora, destrutiva (acham que arte é cultura e disparates assim).
    Se toda a cadeia de valor é um desastre como poderiam as consequências não serem desastrosas? Mas não estamos sozinhos:
    http://ogilvynotes.com/49790/456301/sxsw-2012/the-future-of-the-new-york-times

    http://www.economist.com/news/united-states/21574515-signs-promise-and-peril-american-news-organisations-no-news-isnt-good-news

  5. Portugal foi parar à bancarrota. Qual foi o jornal que avisou quando já era claro há anos?
    Nenhum. Qual o interesse do jornalismo para as pessoas se nem tal coisa conseguem fazer?

    Eu li o DN desde criança. Lia em casa Diário Popular, Capital e por vezes o Diário de Lisboa.
    Deixei de comprar o DN, quando um da extrema esquerda chamado António Rego Chaves foi para lá. Passei para o Publico durante um ano, deixei de comprar quando o jornal se dedicou à evangelização esquerdista anti Israel, restou o Expresso que deixei de comprar em 2003. Cada vez mais a derivar para a extrema esquerda, a gota de água foram as canalhices que fez sobre a Guerra no Iraque.

    Ainda tenho boa parte do suplemento Aerospaço do Diário Popular, e muitos números do Autosport.
    Há umas semanas veio um Publico como promoção Continente. Nem foi aberto. Directo para a lareira.

    A monocultura de esquerda do jornalismo. Nem 1/10 dedicaram à Dívida e Défice comparado com o Aquecimento Global…

  6. Os jornais poderão ser maus (ou medíocres) mas também convém relativizar isso. Quando o “i” apareceu era bastante interessante e não vingou (depois mudou e piorou, presumo que por falta de dinheiro).

    Há alguns anos eu chegava a Portugal e no quiosque da Portela enchia-me de jornais, tamanha a saudade. Agora nem o Record … Maus ou bons o fundamental é que os jornais já não são o chafariz das notícias, a gente já leu na internet ou ouviu noutro sítio.

    1. Por isso mesmo os jornais não devem ser as réplicas do que passa na TV. Conheci uma editora, num jornal, que só fazia o alinhamento da sua secção depois de ver o telejornal da noite. Subalternizar os jornais do dia seguinte ao que se disse na TV na véspera é não ter sombra de ideia própria sobre conteúdos jornalísticos – é, no fndo, condenar os jornais à morte.
      E, no entanto, quando o caminho é diferente deste é possível fazer-se excelente trabalho jornalístico. No ‘Público’ deste fim de semana comecei a ler um diálogo entre a actriz Ana Moreira e uma mestra de pesca de Caxinas, a propósito do mais recente filme do João Canijo, e rendi-me fascinado àquela peça jornalística – longa mas viva, em vez de curta e morta como agora é norma.
      Os jornais morrem se forem réplicas dos telediários. E abastardam-se de vez se andarem a reboque das redes sociais, nomeadamente ao servirem de posto de abrigo de todos os frustrados e ressentidos que pululam na Net com os seus comentários anónimos.
      Quem não percebe isto já devia há muito estar fora do jornalismo. Porque o problema principal é este: o jornalismo anda a ser feito por quem não percebe nada do assunto. Porque anda a ser feito por quem, no fundo, detesta jornalismo e está nesta profissão como podia estar noutra qualquer.

      1. Sem pôr em causa o que escreveu, acontece-me, com muita frequência, considerar que o alinhamento das TV seguem os alinhamentos dos jornais do dia, parecendo-me que isso resulta da acção de grupos de interesses corporativos, apoiados por agências de imagem/comunicação.
        Estarei errado?

        1. Está certíssimo, o que explica o efeito de saturação que muita gente sente perante o caudal desse noticiário, funcionando em sistema de eco. Por isso, de mês para mês, a audiência televisiva flutua noutras direcções – fugindo dos canais generalistas para os temáticos e outras plataformas tecnológicas.

  7. Honestamente, mais triste e alarmante parece-me ser o simples facto da posição mais alta do pódio ser ocupada, destacadamente, pelo Correio da Manhã. Essa mescla estranha de fait divers, todos eles com uma carga claramente fatalista e populista, junto a um novo modelo de “Maria” e “Ana”, assim como uma contribuição bastante fraca – para não dizer nula – de pensamento independente, aka crónicas.

    Acaba por ser algo como: “diz-me o que lês e dir-te-ei que Sociedade és.”

  8. Tantas boas opiniões, não resisto a meter o bedelho…
    A passagem dos jornais para o digital não é, em si, um problema. Antes pelo contrário; é melhor que não se gaste tanto papel. O problema é que ainda não se encontrou um “modelo de negócio” que torne os jornais digitais como eram dantes os em papel. A publicidade não rende tanto e tem sido difícil habituar os leitores a pagar, uma vez que têm notícias de graça nos chamados “agregadores” – sites que vão buscar as notícias aos jornais, em papel ou não. Mas o Wall Street Journal e o Financial Times já conseguiram fazer essa passagem; o New York Times tem 500 mil assinantes digitais.
    Quanto à qualidade dos jornais – portugueses, neste caso – só em parte é responsável pela quebra de vendas; no Estado Novo os jornais eram piores (por causa da censura) e vendiam bem. O que determina a quebra de vendas é que as pessoas tomam conhecimento das notícias pela rádio, tv e internet – tudo instantâneo e movido a electricidade. Os hábitos e a tecnologia estão a matar os jornais em papel.
    Quanto às revistas (ainda em Portugal), ao contrário do que alguém diz aqui, não têm muitas assinaturas. Nos Estados Unidos há o hábito de assinar as revistas que se lêem regularmente, mas aqui não. Passarão ao digital, mas lenta, mas inexoravelmente.
    Então a qualidade do jornalismo é pior agora do que há, digamos, vinte anos? É. Toda a gente vê isso. Mas não tem a ver com papel e digital; tem a ver com uma menor exigência dos leitores. É triste, mas é verdade. Por exemplo, mesmo numa revista, a ordem é para não escrever artigos muito longos, se não as pessoas não lêem. Talvez porque se habituaram à televisão, querem mais imagens e menos texto.
    Isto é mau? É. Mas não vale a pena chorar; há muitas grandes tecnologias/técnicas e artes que desapareceram, substituidas por outras, num trade-off – as vantagens das novas por alguma razão superam as das antigas. Por exemplo, entre milhares: o ferro forjado produziu peças lindas, como as balaustradas das varandas, portões, etc. Foi substituido por alumínio trabalhado à máquina, que não se compara em peso e aspecto. Hoje já é difícil encontrar quem conserte os ferros forjados dos edifícios do final do século XIX. Mas o alúmínio, desenhado por um bom arquitecto, tem a sua beleza… Tanta coisa que desapareceu assim: fotografia analógica, música de câmara… Fica sempre um culto, mas só para alguns persistentes.
    Voltando à imprensa, ela está a passar por uma mudança dolorosa, porque são sempre dolorosas, mas vai renascer com outra forma. Talvez as opiniões não sejam tão fiáveis, mas há acesso a dezenas e o leitor é que tem de distinguir…

  9. Em Portugal, julgo que este processo tem sido acelerado pela televisão. Há certas coisas que me fazem confusão cá em Portugal e, sempre que tenho oportunidade, confronto estrangeiros que vou conhecendo, tentando comparar realidades. Uma das questões que mais confusão me faz são os telejornais, principalmente os da noite, que chegam a ter quase duas horas de duração. Não conheço nenhum país, pelo menos europeu, onde tal aconteça. Isto conjugado com 3 canais de televisão 24/7 de notícias, para um país de 10 milhões de habitantes (para já não falar, por exemplo, do ETV). Penso que o recuo das vendas da imprensa diária generalista começou antes da epifania da internet, uma vez que a televisão passou a oferecer conteúdos muito mais alargados e mais abrangentes. Eu gosto de ler, compro o I de vez em quando, porque gosto do estilo (e, talvez por ser novo, não carregar um certo estigma que está quase subjacente aos outros), mas fazia-o mais quando viajava de comboio todos os dias para ir trabalhar. Agora tenho um Kindle e um smartphone: ou jogo ou leio, sem ter que andar com calhamaços atrás de mim. E para notícias, o facebook basta-me no dia-a-dia (e ler o DE, JNegócios, A Bola, Público, Sábado e semanários católicos quando ao fim de semana vou até casa dos meus pais).

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