«Sem estabilidade e continuidade governativa não é possível disciplinar e aumentar a produção nacional, acumular a riqueza necessária ao investimento privado ou público, pôr termo aos elevados défices do Orçamento Geral do Estado e das Contas com o exterior; sem estabilidade e continuidade governativa não é possível extinguir ou sequer reduzir o endividamento externo, combater a inflação e o desemprego, proporcionar aos portugueses habitação, ir em auxílio dos reformados, dos pensionistas, dos doentes, dos inválidos e dos deficientes, tornar mais promissor o futuro dos jovens, etc; enfim, sem a estabilidade e a continuidade governativa não é possível elevar o nível de vida do povo português»
Carlos Alberto da Mota Pinto (1936-1985)
[Discurso de tomada de posse como Vice-Presidente do IX Governo Constitucional, conhecido por ‘Bloco Central’, 24 de Junho de ’83]
Há outros, mas tem-me ocorrido Mota Pinto, homem que detinha já uma carreira académica sólida quando iniciou actividade política. Foi cooptado pelo PPD logo na sua fundação, tornou-se líder parlamentar durante a Constituinte. Desentendeu-se e reentendeu-se com o partido algumas vezes ao longo dos anos, foi ministro, primeiro-ministro. Impressiona-me particularmente o ter aceite, depois de disso, a vice-presidência de um governo de coligação com o PS, em circunstâncias tão adversas como as que acompanharam a intervenção do FMI.

Dito de outra forma não é menos acertado:
Sem “poder de compra” (que está associado ao emprego e aos salários) não há produção nacional
e menos ainda se o tecido produtivo é desmantelado, e sem tudo isto não há estabilidade e continuidade que resistam, nem há riqueza para investir, para reduzir o endividamento externo, para pôr termo aos elevados défices, para…
A diferença subtil mas radical é entre o primado da estabilidade (que sempre convém aos poderes instalados) e o primado da mudança de rumo quando o barco vai (estavelmente) para o precipício.
São os erros da governação que desestabilizam os governos maioritários e não o contrário, na minha opinião.
António, concordo com o princípio de que a estabilidade não é um valor absoluto, claro. Mas quando numa situação de crise grave as várias lideranças partidárias se apresentam quase impermeáveis ao entendimento sobre questões estruturais relativas ao bem comum, podemos mudar de rumo à vontade, que a volta acabará por ser de 360 graus.
Ana Cláudia, essa de rodar “360 graus” não é mudança de rumo. Ai ai…! Vá lá, por esta vez passa… 🙂
Precisamente – é voltar ao mesmo lugar.