Três momentos trágicos da História


Pedro Correia,

 

Manifestações de rua em Atenas, manifestações de rua em Paris. Contra a crise. Em blogues comunistas, leio aplausos a estas manifestações, mesmo quando se quebram montras, incendeiam carros e se bloqueiam vias de acesso às cidades. Alguns destes revolucionários de sofá aludem com nostalgia à antiga União Soviética como defunta “pátria dos trabalhadores” e não escondem a mágoa por ter sido derrubado o sistema “socialista” que vigorou durante 45 anos na Europa de Leste.
A estes nostálgicos do “socialismo real”, fervorosos amantes de manifestações de rua, gostaria de lembrar três datas: 17 de Junho de 1953, 25 de Junho de 1956 e 23 de Outubro de 1956.

 

Primeiro cenário: Berlim-Leste. Descontentes com o aumento das quotas de trabalho e a diminuição dos salários, milhares de operários saem à rua em protesto contra o Governo. Espalham-se pela cidade reivindicando reformas, eleições livres, o direito à greve. “Queremos ser livres e não escravos”, gritam. Duas divisões motorizadas soviéticas estacionadas em Berlim esmagam a revolta. É proclamado o estado de sítio. Balanço: milhares de presos, 42 dos quais são executados.
Segundo cenário: Poznan, na Polónia. Os 15 mil operários da fábrica Zispo – que produz locomotivas e material de guerra – entram em greve contra o aumento de quotas e a redução dos salários em 3,5%. Saem à rua com cartazes de protesto e vivas à liberdade. Reclamam pão e justiça. A polícia de choque entra em acção, os blindados também. A revolta é esmagada. Balanço: 54 mortos, 400 feridos, mais de 300 presos.
Terceiro cenário: Budapeste. A cidade é palco de uma gigantesca manifestação pela liberdade e contra a ocupação militar soviética. Durante duas semanas vive-se em toda a Hungria um clima de insurreição liderado por universitários e trabalhadores de fábricas e minas. A 4 de Novembro, faz hoje 54 anos, os tanques soviéticos suprimem todos os protestos. Balanço: cerca de dois mil mortos, milhares de operários e estudantes presos, 105 deles executados.

Defender hoje manifestações em sociedades livres em nome de ideologias que estão associadas a alguns dos períodos mais repressivos da história contemporânea é uma ironia trágica. Digna precisamente de revolucionários de sofá, que tanto gostam de invocar os oprimidos enquanto idolatram a memória de regimes opressores. Eles apostam na falta de memória colectiva. Mas fazem mal. Porque há quem não esqueça.

 

Imagem: tanques soviéticos esmagam os resistente em Budapeste (4 de Novembro de 1956)

18 comentários em “Três momentos trágicos da História”

  1. “Manifestações de rua em Atenas, manifestações de rua em Paris. Contra a crise. Em blogues comunistas, leio aplausos a estas manifestações, mesmo quando se quebram montras, incendeiam carros e se bloqueiam vias de acesso às cidades. Alguns destes revolucionários de sofá aludem com nostalgia à antiga União Soviética como defunta “pátria dos trabalhadores” e não escondem a mágoa por ter sido derrubado o sistema “socialista” que vigorou durante 45 anos na Europa de Leste.”

    Se fizer um esforço (que nem precisa de o arrancar do sofá) também encontra blogs de esquerda que se reclamam críticos da URSS e apoiam as manifs.

    Você é exímio (e símio) ao usar a táctica de Bush, que divide o Mundo na civilização e no islamo-fascismo. Com as taxas de juro a subir, o Poder já treme, não é?

    1. O anónimo deixou de acrescentar, provàvelmente porque a indignação o obnubilou temporàriamente, que todas as manifestações referidas no post eram comandadas pelo imperialismo americano. É uma das coisas boas que têm os comunistas: são previsíveis.

  2. blogs comunistas???!!! Mas eles agora utilizam plataformas símbolo da Globalização para comunicar???
    As ideologias, e os idealistas, já não são o que eram… qualquer dia vejo o Louça de Gravata ou o Portas (o mais novo) a cantar a Grândola Vila Morena no Avante…

      1. Cruz credo, vire essa boca para lá… já basta o que “conseguiram” fazer nos territórios por onde “passaram”… Deus nos livre de o quererem globalizar… até porque os nossos hábitos alimentares ao pequeno-almoço são mais “maduros”…

  3. E os que não são nostálgicos do socalismo real, podem aplaudir? Se sim, a quem devem pedir licença?
    Isto, sabendo que bastam umas dezenas de desordeiros para dar mau nome à justa reivindicação de milhões.

  4. E relembre-se Praga em 68, Tiananmen, e mesmo as repressões na revolução romena de 1989. A propósito, a forma como a China vermelha doma as manifestações críticas no seu território também são edificantes. Não haverá ninguém que diga isso ao senhor Jintao quando ele cá vier?

  5. Eu “também acho” que não devia haver manifestações contra as políticas dos governos que roubam os trabalhadores para dar aos banqueiros. E também acho que “os comunistas” que deram o corpo às grades pelas liberdades dos seus povos, e todos aqueles que lutaram pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores nas acções sindicais, deviam ser enforcados como terroristas…

    E que todos os homens da Direita deviam ser comparados a Pinochet e a Hitler, para usar dos mesmos pesos e das mesmas medidas que você usa para a Esquerda do campo de batalha!

    É que uma coisa é a responsabilidade histórica dos partidos comunistas nas situações que denuncia e outra coisa é usar isso para diminuir a legitimidade e a necessidade de combater outros crimes – económicos e sociais – da actualidade. Até porque é na actualidade que a justiça pode ser feita ou desfeita.

    Qual é o seu papel, mesmo no sofá?

    1. Os comunistas que “deram o corpo às grades pelas liberdades dos seus povos”, como você diz, mal chegaram ao poder desataram a prender e a liquidar outros. E entre as principais vítimas figuraram outros comunistas. Estaline, por exemplo, dizimou dois terços dos membros do Comité Central do partido nos anos 30. E mandou executar quase todos os comunistas russos que combateram na Guerra Civil de Espanha.
      Negar estas evidências históricas tantos anos depois é uma cegueira inqualificável.

      1. Sou comunista e não lhe nego absolutamente nada do que diz, especialmente o capítulo da guerra civil espanhola, que poderia ter alterado verdadeiramente a relação de forças na Europa, promovendo uma nova vaga revolucionária incluindo na própria URSS (por isso mesmo o movimento também pereceu devido a Estaline).

        Mas pegando no seu raciocínio, absolutamente primário, e virando-o contra si mesmo: não volte a votar Sócrates, porque ele é de um partido social-democrata, e com a crise os partidos social-democratas transformaram-se em partidos de direita e Hitler também era de direita e matou muita gente, e tudo e tudo, basta ver os judeus e os livros queimados e a economia de guerra e…

        Haja pachorra. Cresça e apareça.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *