Três cartazes à beira da estrada.


Luís Menezes Leitão,

É estranho que esteja a passar despercebido um dos melhores filmes que já vi nos últimos tempos: “Três cartazes à beira da estrada” (no original Three billboards ouside Ebbing, Missouri). O filme consta a história de uma mãe desesperada, perante a ausência de resposta da polícia local depois de uma brutal violação e assassínio da sua filha, e que resolve demonstrar o seu desespero, colocando uma simples mensagem publicitária numa estrada onde ninguém passa. A mensagem é simples, mas só o facto de ser colocada constitui um desafio à autoridade, que leva a que quase toda a gente em Ebbing, Missouri, passe a perseguir essa mãe, em lugar de perseguir os criminosos. Mas ela não desiste da sua obstinação, resistindo ao ódio da polícia, dos vizinhos e de todos os que lhe peçam que esqueça o assunto. Frances Mcdormand tem aqui a melhor interpretação da sua carreira, mostrando-nos uma mulher terna, mas ao mesmo com uma força extraordinária, que ninguém consegue submeter.

O filme poderia ser apenas mais um daqueles típicos filmes americanos, a apelar ao vigilantismo perante a ineficiência das autoridades. Mas é muito mais do que isso. É o retrato de uma América profunda onde ninguém é perfeito, nem sequer a heroína do filme, e onde se descobre que os membros de uma polícia violenta, racista e homofóbica são afinal apenas seres humanos, também com os seus dramas pessoais, e que são igualmente capazes de gestos sublimes. Mas também nos mostra como o drama de uma família, após um crime violento, é para o Estado burocrático apenas o dossier de um processo até aparecer um cartaz (neste caso três) que, só por fazer uma simples pergunta, vira toda uma comunidade do avesso. Neste ano em que em Portugal tivemos tantos mortos pelos incêndios, e também continuamos a ter tantos crimes de violência contra as mulheres, é bom que o nosso Estado saiba sempre dar às vítimas a adequada resposta.

21 comentários em “Três cartazes à beira da estrada.”

  1. Também gostei deste filme. Não faço ideia se a América profunda é todo esse desencanto. Sendo, é assustadora. Os mesmos seres que são capazes de gestos solidários e de ajuda gratuita são desmedidos e selvagens, agressivos como cães raivosos. Os actores estão no ponto certo, alinhados com a história, mas a actriz principal salienta-se, todos os extremos lhe vão na pele, já pouco tem a perder. Não chega a obter nada, nem sequer descobre o agressor da filha que também não era flor de cheiro, mas sem dúvida merecia justiça. Vale-lhe ter tentado. Desde o início, o filme parece perseguir essa verdade sem fruto de apenas não baixar braços. É o mundo dos anti heróis.

  2. Gostei muito.Não sou critico nem tenho competencias para avaliar desempenhos , mas este é sem duvidas um dos melhores filmes que vi nos ultimos anos.Infelizmente com a industria a apostar maioritariamente em séries ter um filme como deve ser para ver é um presente .
    Em relação ao filme sem duvida que a protagonista enche o ecrã em todas as cenas que entra , mas quase todos os secundários tambem fazem do filme o que ele é.A história é simples , mas é a atitude das personagens que faz o filme .Achei contudo o filme curto .

  3. Não sei se estará a passar despercebido, quem o vê recomenda-o a todos os conhecidos.
    Na minha opinião é sublime, cru, duro e uma história de amor, de amor nas suas mais variadas formas.
    Tem diálogos absolutamente fantásticos, momentos de humor desconcertantes, interpretações brilhantes.
    Este ano nem é preciso esperar pelos Óscares para saber quem será o grande vencedor, é incontornável.

  4. Está na minha lista dos filmes a ver.
    Gosto desta actriz desde que a vi em Fargo, um filme também passado na América profunda.

  5. Para Beatriz Santos

    O seu comentário está bem escrito e desperta interesse pelo filme.
    Infelizmente, a Beatriz estraga o comentário, estraga o post e estraga o filme a quem ainda não o viu com aquela infeliz tirada “não chega a obter nada, nem sequer descobre o agressor da filha”.
    Na sua ânsia de fazer poesia fez porcaria. Da grossa.

    Porque gosto de boa escrita e de bom cinema, solicito-lhe encarecidamente que escreva, escreva muito porque escreve bem – mas abstenha-se de escrever críticas a obras recentes ou, se o fizer, não deixe de colocar FUCKIN’ SPOILER ALERT!

    1. Obrigada, foi exatamente o que eu pensei ao ler o post da Beatriz Santos. Fiquei super interessada no filme e fiquei logo desencantada por saber o que iria encontrar:(

      1. Veja o filme.Independentemente de pensar que sabe o que vai acontecer , não é isso que importa , o que importa é como acontece.

  6. Amei o filme. Mostra uma parte, quase sempre “escondida” da vida real, pessoas mal tratadas, embrutecidas, sem sonhos, sem “glamour”, mas, que ainda assim, são humanas e podem ser despertadas. São vidas de raiva contra tudo e contra todos, como meio de sobrevivência. E onde se mostra que raiva gera raiva mas que gentileza pode gerar gentileza.

  7. Não sei como tanta gente gostei do filme.
    Medooo… Não tem sentido nenhum, nem sequer é interessante. Tive mesmo para desistir a meio e ainda assim só foi possivel terminar de ver com 3 intervalos bem longos. Foi um custo, apesar da curiosidade e expectativa.

    Desejo boa sorte para os oscares mas espero realmente que nao leve nada pois há outros trabalhos que bem o merecem.

  8. Ao anónimo que perguntou o que era o FSA: Spoiler Alert é um termo usado para definir um texto que revela a acção do filme ou episódio, mais especificamente, que revela o fim de uma sequência de acontecimentos que compõem a trama, ou uma das tramas, do filme.
    Não costumo usar estrangeirismos, mas não temos equivalente – embora o nosso velhinho Estraga-Fados pudesse ser aplicado com maestria 🙂

    Para a Anónima que sentiu o mesmo:
    Os bons filmes não ficam piores por sabermos o final; mas mergulhamos com bóia, visitamos catacumbas iluminadas como estádios, tomamos posse de castelos que outros conquistaram! A Beatriz, presumo que sem intenção, roubou-nos a satisfação de sentirmos a insatisfação da personagem.
    Se o Karma existir, alguém lhe colocará molho de tomate no gelado de baunilha 🙂

  9. Carlos Alberto Ilharco:

    É como estraga-fados.
    A literalidade já não existe, nem em inglês nem em português 🙂

  10. Totalmente de acordo. Já vi o filme e considero-o um dos melhores de 2018 e se ganhar algum óscar a difusão será maior.

  11. Adorei o filme, as personagens, o argumento…
    Mas o final foi um pouco desapontante, ou fui eu que não percebi?
    Alguém explica???

  12. Um filme que é uma parábola sobre a América, sobre o Ocidente onde o mundo dos “comuns” tem crescido a uma velocidade estonteante sem tempo para os indispensáveis rearranjos institucionais dando lugar à medievalização porque o dinheiro/empresas substituiu o feudo.
    As massas sentem-se mal representadas, desconsideradas, magoadas, com medo e desmotivadas. Vai ficando óbvio para todos o desvanecimento da ética e, sem esperança, com os nervos à flôr da pele, ficam todos contra todos.
    Neste filme, todos têm razões, até a repórter da tv a aproveitar para servir os interesses de quem, para lhe manter o emprego, lhe espera o sensacional mesmo que irresponsável.
    E que personagens…
    – o polícia infantilizado/castrado pela própria mãe sua “eleita”, desnorteado, passivo e raivoso;
    – a mãe esposa rejeitada a projectar a sua enorme culpa de mãe sobre “o adversário”;
    – o ex-combatente a continuar a guerra contra os fracos;
    – o chefe da polícia (a situação) ferido de morte por uma doença (ainda) sem cura.
    Sem lei e sem ética, todos contra todos porque afinal (ao menos) pressentem que a lei não existe e os novos “senhores” não têm limites.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *