Todos morremos a cada dia que passa


Pedro Correia,

misfits_mmonroe[1].jpg

Marilyn Monroe durante a rodagem de Os Inadaptados (1961), de John Huston

 

Rosyln Taber (Marilyn Monroe), desencantada da vida, interessou-se pelo único homem que, sabendo ver para além das aparências, percebeu que ela era infeliz. Percebemos isso num sublime diálogo que marca Os Inadaptados (The Misfits) obra-prima de John Huston e um dos grandes filmes dos anos 60. «És a mulher mais triste que conheço», diz-lhe ele. «És o único homem que não me diz que sou feliz», espanta-se ela. Rendida à dilacerante argúcia daquele anacrónico cowboy que faz do deserto do Nevada o seu lar iluminado por estrelas «tão longínquas que podem estar já mortas no instante em que olhamos para elas».

Ficção, claro. Mas podemos vislumbrar em tudo isto uma alegoria da própria Marilyn na fase crepuscular da sua carreira que culminaria pouco depois no mais mediático suicídio da história do cinema.

É compreensível: o argumento foi escrito por Arthur Miller, casado com a actriz, e era já então evidente que o casamento estava condenado ao fracasso. Aliás, nenhum cineasta como Huston soube tão bem filmar o fracasso: é isto que The Misfits também destaca. O próprio Gay Langland (Clark Gable), epítome do «último verdadeiro homem americano», como o descreve Isabelle Steers (Thelma Ritter), está num beco sem saída: deixou de haver lugar para pessoas como ele numa América que se despedia dos seus mitos na década de todas as convulsões. «Tenho de arranjar outra maneira de me sentir vivo, se houver alguma», confessa ele, à beira do fim.

Também neste caso o filme teve carácter premonitório: Gable faleceu duas semanas após a conclusão das filmagens. Com ele morria uma era de Hollywood: o cinema clássico tornava-se moderno. Igualmente sob este prisma, Os Inadaptados decorre sob o signo da despedida.

Uma obra cinematográfica pode ser apreciada de várias maneiras, conforme as alterações registadas no nosso olhar. Só quando a vi pela terceira vez, numa sessão da Cinemateca, percebi que esta película onde não morre ninguém é afinal uma película sobre a morte – uma das mais pungentes de que há memória. Calhou olhá-la num dia muito doloroso, marcado pelo trágico desaparecimento de uma colega. E de súbito todo aquele enredo adquiriu para mim um novo sentido. É de perda que este filme nos fala, num subcontexto que o percorre por inteiro.

Numa das mais extraordinárias sequências que Huston rodou, Roslyn, à distância, grita para os homens que prosseguem a absurda caça aos cavalos selvagens: «Vocês os três estão mortos!» (os outros dois, além de Gay, são Perce Howland, interpretado por Montgomery Clift, e Guido, interpretado por Eli Wallach). «Todos, homens e mulheres, estamos a morrer a cada momento que passa», lembra ela noutra cena. E Gable, quase numa frase-testamento, diz: «Um homem que tem medo de morrer tem medo de viver.»

Os inadaptados eram todos eles – deserdados da fábrica de sonhos, na tela como na vida. Até que ponto não seremos também nós?

12 comentários em “Todos morremos a cada dia que passa”

  1. É horrível o que vou escrever mas é o que sinto.
    “Ainda bem que morreu jovem”
    Ficam só as magníficas imagens dela plena de vida e não imagens vivas, mas plenas de morte

      1. Se bonita, assediada.
        Se feia, arredada.
        Se rica, pretendida.
        Se pobre, esquecida.
        Se casada, ignorada.
        Se mãe, sacrificada.
        Partida ou desfeita do destino. Por que será que para certas mulheres cuja beleza as deveria fadar à felicidade, de nada mais sirva do que veículo condutor à sua desgraça.

  2. Prado mortal de lunas
    y sangre bajo tierra.
    Prado de sangre vieja.

    Luz de ayer y mañana.
    Cielo mortal de hierba.
    Luz y noche de arena.

    Me encontré con la muerte.
    Prado mortal de tierra.
    Una muerte pequeña.

    Lorca in Canción de la muerte pequeña

  3. Linda Marilyn.
    Não sabias tu, menina, a voracidade do mundo com que sonhaste.
    Que o Céu te seja eternamente Doce.

  4. “Também neste caso o filme teve carácter premonitório: Gable faleceu duas semanas após a conclusão das filmagens. Com ele morria uma era de Hollywood.”

    Sejamos práticos: o homem tinha quase 60 anos, fumava três maços por dia, bebia como um opala e insistiu em fazer as cenas de acção a domar cavalos selvagens a 40 graus no deserto, sem duplo, só para provar que ainda tinha testosterona. Chamar a isto “o signo da despedida” é um eufemismo poético brutal só para dizer que o coração do homem borregou por falta de cardio.

      1. Não se iluda com a genética ibérica. O Siza não está vivo apesar de fumar, o Siza está vivo porque o fumo o conservou em vida. O homem por dentro é um presunto de Barrancos. O fumo nele não é um vício, é estrutural. O alcatrão já lhe impermeabilizou os órgãos todos. Se o homem deixar de fumar, as paredes mestras cedem e ele abate.

      2. Pessoas como o Álvaro Siza Vieira deixam-me sempre muito esperançosa… Salvé Álvaro Siza Vieira!

        Quanto ao texto do Pedro:

        Norma Jean sempre me soou muito melhor do que Marilyn Monroe, vá lá saber-se porquê…
        Em qualquer caso, seja Norma Jean ou Marilyn Monroe, estamos perante uma mulher linda e maravilhosa, inteligente, mas atormentada pela vida, por si própria e por algumas pessoas…

        Metaforicamente, a expressão “wrong number”, patente na “Oração por Marilyn Monroe” de Ernesto Cardenal, citada pelo Pedro no texto anterior, parece-me resumir e definir muito bem a própria vida de Norma Jean…

        Há pessoas que, aconteça o que acontecer, nunca serão esquecidas. Norma Jean será sempre uma delas…

  5. Marilyn foi uma excelente atriz, tanto no drama como na comédia – aliás, até pela “mistura de géneros” tão próxima da genuinidade humana, a sua Cherie de “Paragem e Autocarro” é, na minha opinião, uma das suas interpretações mais memoráveis, entre outros grandes papéis.

    Sobre a questão final que o Pedro nos deixa, estou convicta de que a larguíssima maioria das pessoas, pelo menos no nosso contexto cultural, é “deserdada da fábrica de sonhos”, como diz. Talvez não ao ponto da inadaptação, mas sem dúvida da insatisfação, mais ou menos difusa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *