Todas as ditaduras são más. A de Cuba, a da Coreia do Norte, a do Zimbábue, a do Irão – e a que acaba de ser derrubada no Egipto. Se amanhã a ditadura iraniana caísse, seria um motivo de alegria e de congratulação para todos os democratas. Como o é hoje a queda da ditadura egípcia. Não podemos ser democratas até metade da bacia do Mediterrâneo e ‘compreender’ a ditadura na outra metade.
Certos povos e certas culturas não estão preparados para a democracia? Esse foi o argumento invocado durante quase meio século por Salazar para justificar a ditadura portuguesa. Simetricamente, invocou-se esse argumento para justificar a ditadura soviética. Afinal, mal ou bem, Portugal e a Rússia vivem hoje em democracia, que segundo Churchill é o pior dos sistemas excepto os outros todos.
E não me digam, por favor, que é impossível instituir um sistema de governo democrático nos países islâmicos, por estes dias varridos por ventos de liberdade. Que é a Indonésia senão um país islâmico – por sinal o maior país islâmico do mundo?
Imagem: protestos antigovernamentais em Teerão (Junho de 2009)


Os seres humanos nunca estão é preparados para uma ditadura, Pedro.
Ainda bem, Rui. E há ainda os egípcios, que segundo alguns ‘egiptólogos’ de 25ª hora não estão preparados para a democracia.
Este texto serve de resposta a Pulido Valente que defendeu que alguns países não podem ser democracias.
(Peço desculpa, mas este cansaço fez-me comentar este texto no post anterior)
Gostava de saber se Pulido Valente também pensaria o mesmo de Portugal em 24 de Abril de 1974, Daniel.
Pedro, parece-me que a resposta às dúvidas (de quem as quer ter e alimentar) às aspirações democráticas desses povos já está achegar do Irão (outra vez) e da Líbia.
Se calhar alguns que ontem lamentavam a queda de Mubarak e Ben Ali já torcem hoje para que Kadhafi e Ahmadinejad caiam em breve, Eduardo. Dois pesos, duas medidas.
Com o que temos visto em Portugal,
do anterior regime ao actual,
acabo por admitir que a ditadura pode ser a pior e a melhor forma de governo.
Os primeiros anos do regime de 1933 em Portugal,
os primeiros anos de alguns dos regimes do norte de África, como soluções necessárias e positivas.
Problema, é que passam a julgar-se necessários para sempre, insubstituíveis.
Em democracia, também não nos faltam insubstituíveis – caso do agora PM.
José, falo do mundo actual – não falo de há 80, 100 ou 150 anos.
Atenção, que quanto ao mundo actual, há que ter em conta factores como economia e cultura de cada sociedade.
Como por ex, entre o Norte de África e a RAS, onde dificilmente se poderão encaixar regimes liberais.
No caso que tem defendido quanto ao Egipto e Norte de África, nada a opor, antes pelo contrário.
Contra alguns dos cérebros que aparentam tudo saber e adivinhar, ao temerem o pior:
Quem nos diz que não temos ali um processo de avanço com algo de semelhante ao que sucedeu ás monarquias europeias há um/dois séculos?
Não é perfeitamente visível:
Que os dirigentes, ao eternizarem-se no poder, afastando-se da realidade povo, se condenaram ao que está à vista?
Que a população juventude, acabaria por se sentir defraudada com a elite política?
Que o povo aspira naturalmente ao progresso – economia e liberdade?
Problema: a economia, se não for capaz de dar ocupação decente ás populações. O que na economia global em que caímos, não vai ser fácil.
A economia, claro. E a velocidade a que a informação se processa nos nossos dias. É impossível permanecer indiferente quando se sabe que os preços disparam e os empregos desaparecem. Num mundo sem esperança todas as revoluções são possíveis.
Claro que todas as ditaduras são más.
Sopram ventos de mudança, é certo. Muitos dados terão que ser revistos e revisitados, que vão até a lugares muito profundos, no cerne do tecido social destes povos. A par com as suas formas de viver e de pensar.
Nao creio que seja impossível haver democracia nos países árabes. Bem…falar de países árabes como se de um todo homogeneo se tratasse já é de si um equívoco. Á Jordania…e o Iémen, são ambbos países árabes. Mas não poderemos importar coisas que lhes são profundamente estranhas. Tem que ser a democracia deles, não a nossa. Ninguém pensa num American way of life adaptado ao Iémen…as coisas vão ter que partir de dentro. E não ser impostas de fora.
Diz bem: «As coisas vão ter que partir de dentro. E não ser impostas de fora.»
É isso que tem sucedido até agora. Aconteceu na Tunísia, aconteceu no Egipto. Está a acontecer no Iémen e noutros países. A partir de dentro. Nada a ver com o sucedido no Iraque, com a cavalaria norte-americana a entrar por ali adentro, impondo à força a democracia.
Que deu no que deu…
Mas entretanto, nada como reler (imagino que todos estes jornalistas leram de fio a pavio) o Corão. De perceber as doutrinas Sufis, pelo menos as quatro corrente mais importantes, de conseguir interligar isso tudo com a tal Irmandade Muçulmana e as novas hermenêuticas que surgem todo os dias…(o Barack Obama já deve ir para aí na página 3. Pelo menos. De um lado qualquer…)
Claro. O Iraque deu no que sabemos e foi justificado da forma que sabemos também.
«Por muito que doa ao idealismo adolescente em moda, civis sem armas não derrubam ditaduras»
Ao ler esta afirmação do Vasco Pulido Valente, não pude deixar de pensar nos argumentos que o Pedro Correia tem vindo a apresentar sobre a temática da insurreição popular no Egipto.
Pulido Valente tem razão, Fernanda. No século XIX era assim.