Sumptuoso, a caminhar para o eterno, esse provisório “eterno” que se pode afirmar, o “To catch a thief” de Hitchcock. Não é um primado de suspense, talvez por nem tanta a sua entoação, ou talvez apenas porque tantas décadas passadas encontra espectadores que já calcorrearam os trilhos do “mistério” que este mestre, e alguns outros, abriram. E, pois assim veteranos, já pouco atreitos a surpresas. As pistas estão lá para se antecipar o desfecho, que nem é o mais importante, que o argumento da acção nem será muito burilado. Pois a trama é mesmo o que se vai passando, o rio de fotogramas. Paisagens belíssimas – a inicial perseguição de automóvel é deliciosa; um Cary Grant muito em forma, bem apessoado e melhor vestido. Secundários de luxo (a proto-sogra Jessie Royce Landis, o totalmente britânico John Williams – haverá fisionomia mais estereotipada?). E, muito para além do deslumbrante, Grace Kelly, arquétipo, ideal-tipo, o que se quiser … Alguns diálogos são sublimes, uma ironia, nos implícitos quase explícitos.
A trama é conhecida. John Robie (Cary Grant) é um ex-presidiário. Ladrão de jóias em França, cumpriu pena, e fugiu durante a guerra acompanhando um grupo de ladrões nacionais. Entraram na “resistência”, nisso ganharam o perdão (ou, melhor, a liberdade condicional). Robie tornou-se até “herói” (pelo menos na imprensa americana). Vive elegantemente criando “flores e uvas” (fruindo os frutos dos velhos roubos?) na companhia de uma valente “governanta”, antiga “companheira de estrada”. De súbito, quinze anos depois da sua prisão, regressam os roubos de jóias, usando a sua metodologia, fazendo recair as suspeitas e a ameaça de prisão sobre todo o velho “gang”. Leal, a primeira acção de Robie, já fugitivo, é procurar os velhos companheiros, todos acoitados num restaurante da Riviera, numa pré-reforma, para lhes afiançar a sua inocência. Mal recebido, com desconfiança. Com imputações de deslealdade.
Depois é o romance com a endiabrada Grace Kelly, polvilhado com a caça ao verdadeiro ladrão, forma de se inocentar (e, também, de salvaguardar os velhos companheiros). Na osmose com a mãe e a filha Stevens, Robie demonstra-se como é. Um americano em França – mas não daqueles finórios dos anos 20 moldados por Fitzgerald ou Hemingway. Burilado pelo bom gosto, adquirido por via dos lucros obtidos (como deliciosamente afirma ao britânico Hughson), que capeia o antigo trapezista de circo falido. Mas, como lhe diz Kelly, já não genuíno, dado que “não fala como um americano”, outros assuntos e entoações. Num elegante in-between.
Por isso tão amargo, também, é o final, apesar de toda a ironia bem-disposta (aquelas violações dos ovos estrelados …). Agridoce, melhor dizendo, pois que amargura se poderá reclamar diante da apoteose final de Cary Grant, conjugalmente acolhendo na sua belíssima “villa” a divina Grace Kelly, ainda para mais herdeira de “20 milhões de barris de petróleo”.? Mas é, também, um ensaio sobre o ser estrangeiro, a incontornável alteridade. Melhor do que qualquer texto de antropologia, muito mais do que uma conversa de mais-velho.
E, talvez, apenas especulo, também Hitchcock nos EUA. Terá sido?


Os filmes do Mestre Hitchcock são intemporais.
É sempre um prazer revê-los, embora já saibamos como a história acaba e até onde ele vai sorrateiramente aparecer…
Gostei de recordar este filme.
🙂 Antonieta
Ainda bem que o postal permitiu a recordação. revi agora o filme e notei, até estupefacto, que só tinha visto o filme uma vez – e há trinta anos!!
Bom texto, JPT. Polegar para cima.
Este filme é interessante a vários títulos. Foi a primeira vez que Hitchcock rodou um filme em França, quase todo em exteriores. Foi, de longe, o mais ousado dos três papéis que Grace Kelly teve num filme deste realizador. E foi também o filme que proporcionou o encontro da futura princesa do Mónaco com o pequeno país onde se radicaria dois anos depois.
Mais curiosidades: o “mau” era uma mulher – originalidade neste cineasta. E foi também uma película em que Hitchcock pôs muito em prática a sua tese do “sexo indirecto”, filmando de propósito Grace Kelly “impassível, fria e até glacial” (as palavras são do próprio Hitchcock) para mais confundir e atrair os espectadores. Uma outra forma de ‘suspense’, afinal.
É um filme com várias cenas de antologia. Como a do longo beijo entre Cary Grant e Grace Kelly, com planos alternados do imenso fogo de artifício. Uma forma subliminar – ‘ma non troppo’ – de contornar com sucesso o severo olho da censura cinematográfica, ainda vigente naquela época nos EUA.
OBrigado pelo polegar … O filme tem ainda um pormaior, a sequência de Kelly guiando arrojadamente – triste premonição