Ter razão cedo de mais


Pedro Correia,

 Em 29 de Setembro de 1938, virava-se em Munique uma das mais vergonhosas páginas da diplomacia ocidental. Neville Chamberlain, então primeiro-ministro britânico, vendeu a Checoslováquia e a honra do seu país na capital da Baviera, capitulando aos pés de Hitler sem que o tirano nazi tivesse sequer necessidade de disparar um tiro. Tudo em nome “da paz honrosa no nosso tempo”, como proclamou no regresso a Londres, entre os aplausos da populaça.

A ‘paz’ dos pacifistas é muitas vezes apenas o caminho mais curto para a guerra: eis a principal lição dos compromissos de Munique, em que Chamberlain e o primeiro-ministro francês Édouard Daladier se vergaram à vontade de Hitler e do seu aliado Mussolini para ‘preservarem’ a paz. Os tambores de guerra já rufavam – eles foram os últimos a perceber.

Discursando na Câmara dos Comuns a 5 de Outubro de 1938, Winston Churchill – então o mais impopular dos políticos britânicos – advertiu Chamberlain para o enorme fiasco de Munique: “Teremos a desonra e teremos a guerra.”

Foi apupado pelos seus pares. Mas era o único a ter razão, como meses depois todos perceberam. Vai fazer agora 70 anos.

16 comentários em “Ter razão cedo de mais”

  1. E foi mesmo.

    Felizmente, pouco depois, Leo Amery, do meu ponto de vista um homem a sério, citando um dos seus antepassados, interpelou Chamberlain e invectivou-o:

    «Go, in the name of God, go!»

  2. Li por estes dias um pequeno livro sobre os tempos seguintes, quando a cobiça de Hitler era sobre a Polónia. Chamberlain e Daladier continuavam na mesma. No fim do livro, já com a Polónia invadida, começam as referências a Churchill. «1939, Contagem Decrescente para a Guerra», de Richard Overy (Livros d’Hoje); livro fascinante.

  3. É um aborrecimento ter razão cedo demais. À escala de cada um: “sofre-se” no momento em que ninguém nos entende e ainda passamos por estorvo que desmancha o prazer das soluções tipo “tá-se mesmo a ver, p’ra quê complicar”. Sofre-se a seguir, no confronto com os problemas criados pela má solução e que sentidos como evitáveis, se tornam mais irritantes. Sofre-se passado algum tempo quando inevitavelmente se volta a discutir o assunto e acabam por decidir algo semelhante ao nosso entendimento inicial. Só que, obviamente, a situação já não é o que era e tudo parece sopa mal requentada…

    1. Políticos que costumam ter razão antes do tempo acabam por ter um percurso mais acidentado. Foi precisamente esse o caso de Churchill, Maria do Sol. Hoje é considerado um dos gigantes da política europeia e mundial. Mas houve um tempo, aliás longo, em que era o politico mais detestado em Londres.

  4. Para além de ter razão antes do tempo (e a razão raramente é atribuída a estas pessoas, mesmo quando já se provou que a tinham) Churchill apresentava pelo menos mais um grande defeito: era tudo menos politicamente correcto. No sistema político actual nunca seria mais que um excêntrico, uma voz incómoda que a liderança do seu partido tentaria manter calada. O que diz muito sobre os partidos actuais mas também sobre os eleitores.

    1. Tem razão. Acrescento que, mesmo naquela época, só foi projectado para o primeiro plano devido à guerra. Foi um homem excepcional num momento excepcional. Não era um político para tempos sem história.

  5. Isso do WC ter razão acontecia mais vezes do que era suposto… 😉
    Era curiosa a relação do Churchill com o Chamberlain…quando este morre, Churchill faz um discurso algo comovente, mas por outro lado não perdia uma oportunidade para gozar com ele. Lembro-me de uma história em que Churchill vai a Jerusalém e o guia diz: “Foi aqui que nasceu o Princípe da Paz”, e Churchill diz: “Mas eu pensava que Neville tinha nascido em Birmingham”. 😀

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