Tenham juízo


José Meireles Graça,

Um amigo socialista pouco carregado (isto é, cor de rosa pastel e não choque), há dias ecoava uma colega de profissão que se queixava de que o PS, não obstante o cartaz de progressista, feminista e modernaço, não apoiava uma mulher para a Presidência. E dava-lhe razão, lembrando o descaso a que foi votada Maria de Belém nas últimas eleições, a benefício de uma completa nulidade palavrosa, qualificação minha, como Sampaio da Névoa (não, não grafei mal).

A queixa é sintomática. O mulherio anda nervoso e, se até há pouco se limitava a querer igualdade para níveis semelhantes de competência, agora reclama a obrigatoriedade de quotas em lugares de direcção, para já em empresas públicas e privadas cotadas, salvo erro, depois em grandes privadas e finalmente em todas, que não há cá ninhos. Se forem de esquerda, as queridas não precisam de desculpas, é imperioso impor justiça, igualdade e mais um par de botas até que as empresas fiquem de joelhos, altura em que devem ser salvas pelo Estado, pelo expediente de as nacionalizar. Se forem, ou se dizerem, de direita, há que rapar de um dos estudos – há dúzias – que demonstram, preto no branco, que em havendo mulheres na direcção, e não apenas homens, o desempenho da organização ganha com isso. Claro que, com interesse e recursos, se podem fazer estudos a demonstrar o contrário e até o contrário do contrário – pessoas ingénuas julgam que os estudos se fazem para entender o real, e não para o modificar, e que a distinção entre correlação e causalidade é fácil de estabelecer, ou que essa preocupação sequer existe; e que na escolha dos factores que influenciam um determinado fenómeno se selecionam os mais relevantes.

Elas votam, são maioria, e as pessoas que andam na política, e não simplesmente a comentam, têm as orelhas arrebitadas e o olho arregalado para topar a tendência. E a tendência é essa – mulherio a bem ou a mal, e se o resultado for que apareçam umas cómicas a asneirar, como a querida Jo, nada de mais: cómicos a asneirar é o que nunca faltou.

Depois, já há países onde o apoio à mulher foi mais longe, e onde menos pesam os handicaps daquela condição (maternidade, sobretudo) e as adoradas, donas da liberdade de escolher sem excessiva penalização financeira, fogem de certas profissões tipicamente masculinas e escolhem outras, que não eram para ser, mas afinal são, tipicamente femininas.

Esclareci o meu amigo, ou melhor, a amiga dele, que com justiça não me ligou pevas, que o PS não é misógino, mas nem Maria de Belém nem agora a pasionaria Gomes, de Estremoz, davam garantias ao regedor do PS de não lhe tolherem as mãos. Elas não, mas Marcelo sim. Daí que o PS apoie Marcelo, não venham cá com teorias da conspiração. E, com o coração apertado por ter defendido o PS, fui rezar um Acto de Contrição, e julgo-me absolvido.

Bem bem, temos portanto duas mulheres candidatas, que se dá o caso de serem duas abominações:

Marisa é uma carta batida e rebatida do Bloco, uma agremiação que os comunistas justamente desprezam por ser de revolucionários de pacotilha, e o resto do país, salvo alguns jovens e outros eternamente, por lhe parecer que os dirigentes têm acne, nas trombas ocasionalmente bem giras e nas ideias;

E Ana Gomes, que tem banca montada no negócio do combate à corrupção, que quer combater a golpes de declarações bombásticas, sempre poupando o principal agente facilitador da corrupção no país, que é o Estado omnipresente, e os seus camaradas, que entende terem, como o seu admirado Sócrates, um par de asas nas costas. Isto e causas sortidas, incluindo internacionais, decerto por achar que como usa sapatos de salto não se nota que se está a pôr em bicos de pés.

Restaria, para gente com a cabeça em cima dos ombros, Marcelo e o candidato da IL. E corre por aí uma tese peregrina segundo a qual a vitória de Marcelo é uma vitória da direita porque este, no segundo mandato, vai mostrar as suas credenciais de PPD e pôr o PS em sentido.

Claro que não vai. Para isso seria preciso que não fosse, mas é, um socialista que vai à missa, como Guterres, que aliás diz admirar, Deus lhe perdoe, e que tivesse para o país alguma ideia que vá além do ar do tempo e da preservação da estabilidade, que confunde com a sua popularidade, julgando ambas valores a defender.

Lá popular é – Cristina Ferreira também. E estabilidade tem garantido – a estabilidade da mediocridade que tem feito Portugal deslizar com pertinácia para os últimos lugares do desenvolvimento na UE. Mas o caderno de encargos para um Presidente que fosse eleito pelo Parlamento, com a Geringonça, desenharia Marcelo. Porquê então a maçada de uma eleição directa, e ainda por cima com a possibilidade, mesmo que remota, de a duas voltas?

Sobra o candidato da IL, que ninguém conhece (nem eu, e mais talvez devesse, por ser do Porto e circular em meios que não me são alheios) e precisava, para vencer a falta de notoriedade, de ter uma personalidade espectacular e abrasiva, ou alguma espécie de auctoritas, que julgo não tem. E, voltando ao princípio do post, é homem, que o diabo o carregue.

Então, tiro algum coelho da cartola? Tiro sim senhor, embora dele ninguém se tivesse lembrado e, por razões várias, incluindo o ser tarde, ninguém se vá lembrar.

Assunção Cristas não deixou, como dirigente do CDS, grandes saudades: por falta de consistência em algumas posições, por uma direcção errática, por parte do eleitorado ter dado à sola para o Chega e a IL, e por não ter sabido calçar os sapatos de Portas, que de toda a maneira ficariam sempre apertados ou largos.

Nada que a desqualificasse para fazer uma boa candidatura à Presidência. Não se lembraram decerto, os que a apearam, porque se a achassem muito boa não a tinham apeado, e os outros porque entenderam talvez que a sua derrota era demasiado recente ꟷ e de toda a maneira muitos não a apreciariam excessivamente.

Porém, eles são eles e eu sou eu, que me estou bem nas tintas para uns e outros.

E talvez, senão com toda a certeza, Marcelo seja invencível, como um cantor reles que vende muitos discos.

Mas haverá alguém que, sem ter a alma ancorada à esquerda, ache que Assunção não seria mulher para se medir com uma bloquista com a cabeça cheia das caraminholas da seita, e uma socialista com modos, e opiniões, de justiceira de Freamunde? Tenham juízo.

16 comentários em “Tenham juízo”

  1. Tudo candidatos tipo Senhores políticos e Senhoras políticos(?) de carreira e, como bem diz, desejosos e desejosas de estabilidade.
    Mais precisamente: estabilidade, em bons cargos, políticos.
    Um não-político que se meta nisso (ex:Trump) inspira anátema.Um perigo.
    Aguardemos pelas hilariantes cenas dos próximos episódios.

    1. Tudo candidatos tipo Senhores políticos e Senhoras políticos(?) de carreira

      O candidato da IL não é um político de carreira. (Talvez aspire vir a sê-lo, mas não é.)

    2. “, em bons cargos, políticos.” Bons cargos políticos? Pela minha experiência pessoal e dos meus conhecidos, isso (quase) não existe. Ao contrário do que muito analfabeto (ou inexperiente) em matéria política, esses cargos (salvo raras excepções) só dão chatice e frequentemente da grossa. Há muita coisa muito mais interessante fora dessa área.

    3. Nesta procura da novidade salvadora é melhor isolar o Túmulo do Soldado Desconhecido. É o reduto permanecido intocável aos escarros e bombas de qualquer candidato fora do sistema. Cambada de Otários que se deixaram matar
      é a recente designação atribuída aos tradicionais Campos Santos de soldados mortos ao serviço da Pátria. E foi expelida tal designação por esse baluarte dos valores ocidentais.O que vale é que tal personagem muda tais valores conforme o estado do tempo e as sondagens ou a vara de microfone apontada.Valores só os do momento que passa,melhor dizendo –não os tem,deixando na trampa a anarqueirada quotidiana já sem vigor nem petardo. Talvez por essas e outras certa direita olhe para Putin…Quem diria.
      Olhe, traga lá essa Cristas confinada que nem chicos nem portas lá chegam.
      Onde é que está ?

  2. Eu creio que o que está a acontecer não se traduz na possibilidade de 2 voltas mas, antes, numa volta sem possibilidade.

    Um dos indicadores do mal que existia na governação mundial encontra-se na corrida que se está a fazer para aquisição do ouro e da prata bem como dos investimentos feitos na cripto-moeda.
    O bichinho que por aí anda revelou-nos que a economia há muito vem sendo insuflada artificialmente. Não obstante, e no actual quadro, as lojas vão fechando um pouco por todo o mundo, as companhias aéreas despedem em larga escala, o sector da hospitalidade não arranca, a restauração estoura e não é possível reinventá-la, a indústria reduz sua produção, o petróleo cai para níveis nunca vistos e os bens alimentares dão nota de fazer disparar seus preços.
    Indicando este último que se avizinha um período de fome, aumento da criminalidade, de convulsões internas e de movimentos geopolíticos de extrema gravidade.

    Perante este cenário, admira-me que o discurso ainda seja feito em torno de candidatos e candidatas, homens e mulheres, quotas e cotizações.
    Sim, não só temos uma economia mundialmente falida como também uma falência nas mentes.
    Concluindo, “Wall Street” não é a “Main Street”

    Se algo deve ser feito neste momento em que se decide injectar mais dinheiro nos mercados, o discurso devia passar por garantir maior autonomia e auto-suficiência na produção alimentar, gerando empregos em considerável escala, reordenar-se os circuitos das cadeias de distribuição alimentar, apostar na indústria de medicamentos e equipamentos de saúde que evitem a dependência dos abastecimentos das multinacionais, aumentar a autonomia da indústria das pescas completando-a com uma rede de frio e de transporte de frio, criar um banco de reserva de sementes, e apostar na inovação agrícola com vista a uma melhor gestão da água e menor necessidade para rega.

    É mentira que o sector tecnológico virado para o consumo seja a salvação do sistema. Como também é mentira que o discurso político vigente, a permanecer, altere ou inverta o ciclo de ruína que já se instalou e agravará.

    1. Não sou economista mas já há algum tempo, quando vi o BCE a criar dinheiro sem contrapartida produtiva, esperei, passado o tempo da praxe (18-24 meses) uma inflação a aproximar-se dos 2 dígitos.
      Quando isso não aconteceu, aceitei a explicação de um familiar, economista pela LSE, de que havia uma grande capacidade instalada (p.ex quem trocava de carro de 4 em 4 anos, passaria a aguentar até aos 6-8 ou, mais cruamente, grande parte da classe média evoluiria para uma classe de novos pobres) mas o tempo foi passando, a compra de dívida aumentou com Draghi e mantém-se com a Lagarde e eu fiquei sem perceber nada, até me aperceber que as criptomoedas e, em bolsa, as tecnológicas (de que a maioria não deverá durar mais de 5 anos) estavam a absorver o excesso de liquidez que assim, só parece ter reflexos em alguns produtos primários.

      Mais uma vez, não sou economista, mas isto só pode acabar com um enorme estoiro que pelos volumes envolvidos, vai deixar as crises do sub-prime etc., a perder de vista.
      Henrique Neto, no comentário que recomendo
      https://eco.sapo.pt/opiniao/em-portugal-fazer-previsoes-e-facil/
      entende que a Europa impedirá qualquer deriva ditatorial em Portugal mas eu, mesmo dando desconto ao meu pessimismo, vejo a Europa como parte do problema e não creio que isto vá passar indolor e ao canto das liberdades, igualdades e fraternidades.
      Tanto mais que, historicamente, são as classes médias – os que ganharam e os que herdaram mas todos desejando transmitir aos filhos – que conferem estabilidade às sociedades, pois os ricos safam-se sempre e os pobres não têm nada a perder.

      P.S. Concordo genericamente com as medidas económicas que preconiza mas duvido seriamente que sejam possíveis de implementar sem uma profunda alteração política.

      1. Grato pela ligação. Gosto muito de ler Henrique Neto.

        Na realidade a capacidade instalada a que se referiu seu familiar, que é correcta, tem pouco que ver com a política monetária do BCE e com uma eventual possibilidade de inflacção.
        O quantitative easing (QE), que funcionou em circuito fechado, teve como objectivo primário salvar o sistema bancário e financeiro e não a economia. Manteve-se um ciclo de injecção de moeda, compra e recompra de dívida para garantir no mínimo não o alívio dos estados mas a liquidez da banca e algum cumprimento no pagamento de juros e serviço da dívida.
        Por um outro lado, o BCE funcionou como banca comrcial mas não garantia a distribuição dos lucros gerados por essas operações para os respectivos estados ou governos. Como qualquer banco central está obrigado a fazer.
        Obviamente que este circuito garantiria a estabilidade da inflacção e até mesmo a deflacção, o que ocorreu. Não só ocorreu a deflacção com também se verificou o êxodo das indústrias para outros continentes, em busca de mão-de-obra barata mas também, no caso da China, de um mercado em potencial crescimento.
        Em matéria de perspectiva económico-financeira o único que se revelou um verdadeiro profeta foi Varoufakis.

        Portugal, nesta matéria, limitou-se a uma tradicional política de movimentos especulativos, com particular incidência no imobiliário cuja bolha aumentava.
        Enquanto o turismo pôde puxar pelos serviços e garantir alguma produção, o cenário dantesco foi encapotado.

        A questão da classe média já não se coloca. Onde está ela, e para onde vão os poucos que ficaram?

        O problema que hoje vivemos nas economias mundiais não se deve ao bicho, mas ao que anteriormente não foi feito.
        E sim, a Europa aumentou o seu cancro e hoje os países do norte não sobrevivem à crise por isto mesmo.

        A forma como se equacionou o alargamento da UE foi transformar países em consumidores e gastadores para suportar o que se produzia na Alemanha, França, Itália e Reino Unido. Depois chamaram preguiçosos a esses outros.

      2. “Não sou economista mas já há algum tempo, quando vi o BCE a criar dinheiro sem contrapartida produtiva, esperei, passado o tempo da praxe (18-24 meses) uma inflação a aproximar-se dos 2 dígitos.”

        A Inflação existe. Está nas bolsas, nos “mercados”.
        Pois é preciso sustentar as seguranças sociais e fundos de pensões.

        Sim a bolha hoje é bem maior que em 2008.

        lucklucky

    1. Estranho, não é? E é que são em quantidade surpreendente. Possivelmente não batem completamente bem da bola, uns e outros. Até já tenho informado os de direita, quando vamos jantar juntos, que me pareceria judicioso que mo oferecessem. Aos de esquerda não me atrevo a fazer semelhante sugestão, mas vontade não me falta.

  3. O autor do post omite que uma candidatura à presidência depende, em primeiro lugar, da vontade do próprio candidato; e, em segundo lugar, de esse candidato arranjar apoios financeiros para levar àvante uma campanha eleitoral.
    Ora, eu creio que Assunção Cristas está farta da política e não está virada, nem que lhe pedissem de joelhos, para se candidatar à presidência; e além disso não tem quem lhe dê o dinheiro para se candidatar. E, compreensivelmente, não quererá delapidar o seu próprio património financeiro numa causa à partida perdida.

  4. Se há algo que eu adoro neste blogue é o, por vezes, verdadeiro surrealismo alucinado que alguns “posts” aqui colocados até conseguem desenvolver nos seus seguidores: este é um deles!

    O seu autor, inventou uma rábula com uns “socialistas” imaginários, num perfeito esquema onde um “socialista-seu-amigo” até lhe veio choramingar que uma “suposta-socialista-não-sua-amiga” lhe tinha dito que… e nesse “diz que disse”, ele até acabou por descambar num longos parágrafos do que mais misógino até tenho lido ultimamente por toda a NET ou, ah como, segundo ele, «O mulherio anda nervoso»… com as, lá está, “abominações” e depois, lá para o fim, até resolveu atirar um osso aos seus ululantes seguidores, na forma da Cristas e claro, eles logo o assaltaram assanhados… é só lê-los!

    Mas na verdade, a verdadeira anedota no seu “post” até se encontra algures lá pelo meio: «Restaria, para gente com a cabeça em cima dos ombros, Marcelo e o candidato da IL»… claro, o Marcelo na anedota é só para ela até poder parecer séria!

    E termina ele, o seu “post”, com um “Tenham juízo”…

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