«Enquanto há morte há esperança.»
Lampedusa, O Leopardo
Um senhor de 87 anos, marceneiro de profissão, conta-me histórias sobre o tempo em que ele e o Pai, dois anos mais novo, frequentaram a escola primária do Parque das Tílias. A antiga empregada doméstica dos meus tios-avós, que andou comigo ao colo na velha quinta à saída para a estrada do Telhado, vem dar-me um abraço: reconheço-a logo pela voz. Dois primos vão desfiando memórias desse tempo em que eu passava aqui todos os Verões – os mais prolongados e doces da minha infância. No adro da capela de Santo António, pequeno monumento de granito erigido há mais de 300 anos no centro histórico da cidade, que era vila nos meus dias de menino, lembro as palavras amigas ditas ao telefone, pouco antes, pelo director do Jornal do Fundão, Fernando Paulouro Neves.
Após a breve missa, em que o diácono alude às bem-aventuranças, o cortejo segue, vagaroso, para o cemitério. Ali desce o caixão à terra, na campa rasa que já era também dos meus avós, junto ao Talhão dos Combatentes destinado a honrar a memória daqueles que, como o avô Luís, participaram na I Guerra Mundial. Percorro os olhos pelas sepulturas anexas – muitas das quais de pessoas que conheci na juventude, várias delas ainda minhas parentes, e vêm-me à memória as frases imortais do Eclesiastes: «Todas as coisas têm o seu tempo e tudo o que existe debaixo dos céus tem a sua hora. Há tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou, tempo para chorar e tempo para rir.»
Sopra uma aragem agreste a prenunciar o fim da tarde quando os coveiros começam a cobrir a sepultura. Em pano de fundo, como uma nave de pedra, o maciço da Serra da Estrela, ainda coroado com neve na Torre. Cenário da minha infância. Cenário da tua infância, Pai. Repousas no local que escolheste – na terra que não te serviu de berço mas foi sem dúvida a que mais amaste.
Tempo para amar, tempo para morrer: do pó vimos, ao pó voltamos após uma fugaz passagem debaixo do sol.


Os meus pêsames.
Obrigado, Luís Lavoura.
Essa frase do Eclesiastes é muito útil e deveria ser mais conhecida, sobretudo por muitas mulheres modernas que insistem em continuamente comportar-se como adolescentes e quererem fazer coisas próprias de quem tem vinte anos de idade, recusando-se a crescer.
Há algo de profundamente absurdo na lógica da morte. Só as memórias construídas no nosso pretérito transpõem esse lado da vida que não tem tempo.
um abraço, Pedro
Agradeço-lhe as suas palavras, Cristina. Ficam as memórias – uma forma doce de prolongar a vida para além da vida.
Bela homenagem, cara Pedro.
são sempre momentos difíceis.
Um abraço
Pois são, António. E nunca estamos verdadeiramente preparados para eles.
Obrigado. Um abraço.
Que texto tão bonito, Pedro e que verdade tão grande: há tempo para tudo. O tempo deles acabará quando o nosso acabar, só aí se esvairão as memórias carinhosas de um colo omnipresente. Um beijo.
Sem dúvida, Leonor. Obrigado pelas tuas palavras amigas. Beijinho.
E o tempo fará com que a dor se transforme numa saudade cada vez mais doce como a mim me aconteceu, Pedro. Um abraço
Sinto muito, Rui. Julgo que comigo sucederá o mesmo. Obrigado pelo teu abraço, que retribuo.
Pedro
Como deves imaginar foi com uma grande emoção que li o teu bonito texto. Como te acompanhei naquelas 24 horas – os reencontros, as histórias, as pedras, as casas, as pessoas, e tudo aquilo que o Félix amava e que tu e o Henrique, na vossa infância, puderam usufruir na boa terra do Fundão – que me custaram imenso tempo a passar. As tuas palavras levaram-me a recuar para outros tempos onde, com o Félix e o Joaquim Neves, aprendi a gostar da Gardunha. Os passeios pela serra, o saber respeitar os outros, a amar a natureza , foram mensagens que me ficaram. O teu pai teve um percurso de vida notável. Desconhecido por muitos mas os que o conheceram e com ele trabalharam, sabem que o Félix da Silva Correia foi um cidadão exemplar e um Homem notável.
Recordo-o com muita saudade.
Aquele abraço
Eduardo Saraiva
Muito obrigado por tudo, meu caro. Nestas horas aprendemos ainda melhor a importância da família e dos amigos: nenhum tesouro do mundo é maior que este. Tu acumulas: és da família e és também um amigo do coração, como há poucos.
Um abraço do tamanho da nossa Gardunha.
Nestas alturas é tão difícil encontrar as palavras certas. Deixo-lhe apenas um beijinho, Pedro.
E é quanto basta, Ana. Obrigado.
Tinha lido esta entrada no Hoje Macau.
Um texto lindo, Pedro.
Sentidos pêsames.
Obrigado, caro Pedro. Um abraço.
Conheci o Félix, mais pelas palavras do António Eduardo mas também pessoalmente. As memórias fisicas são a sul do Tejo, mas nunca o deixei de relacionar com o Fundão e a Gardunha, lá está, pela força das palavras. E palavras que transmitiam emoção e admiração, sentimentos contagiantes ao ritmo dos alicerces de uma história de vida.
Até sempre primo Félix.
Forte abraço primo Pedro.
Um grande abraço, Rodrigo. E obrigado pelas tuas palavras, que tanto me sensibilizaram.
Hoje, com mais tempo e depois de ler os comentários dos amigos do Pedro, deixem-me falar do Félix (meu primo e que sempre considerei com um irmão mais velho). A minha relação com o Félix começou muito cedo. Os meus avós (maternos e paternos) não tiveram a felicidade de me conhecerem. Deixaram-nos muito cedo. Desde cedo os tios Luís e a tia Ângela (pais do Félix) foram os meus avós. Eu, o meu irmão e a minha irmã, sempre os tratamos por avós. De facto, foram os nossos avós.
O Félix, no Fundão, teve (viveu) uma intensa actividade na sua juventude, com iniciativas associativas e desportivas. Aos 18 anos veio para Lisboa, trabalhar na Direcção Geral de Saúde.Trabalhador e estudante (na década de 40 e principios da década de 50, onde a vida não era fácil),tirou a licenciatura na Faculdade de Letras.
Paralelamente à actividade de trabalho e estudantil, juntou os colegas do Fundão, em Lisboa e criaram uma equipa de voleibol que obteve bons resultados. Mais tarde viria a entregar a equipa do seu Sporting (o único “defeito” que lhe conheci).
Concluída a licenciatura, a sua vida não ficou estática. Conheceu a Isabelinha (um amor muito bonito) e, os dois, partiram para a Alemanha para aprofundar o alemão. A Isabelinha trabalhou numa fábrica e o Félix, trabalhava e estudava. Não havia bolsas. Era preciso trabalhar para sobreviverem. Voltaram a Portugal e, mais tarde, o Félix é designado leitor de Português em Frankfurt. Também esteve em Londres em funções docentes.
Nunca esqueceu o Fundão e nas suas visitas, particularmente nas férias – Natal, Páscoa e no verão . foi o meu companheiro nas caminhadas pela Serra da Gardunha que ele tanto gostava. Foi, com ele , que aprendi a gostar da Gardunha conhecendo recantos e lugares maravilhosos.
Foi professor em Viana do Castelo e em Lisboa e, mais tarde, no âmbito da educação, desempenhou elevadas funções em Macau e em Timor.
Fez traduções, publicou trabalhos de muita qualidade num percurso de vida discreto mas sempre com a preocupação de servir o País e o sistema educativo.
Foi um cidadão de mão cheia e um chefe de familía exemplar.
O Fundão esteve sempre presente nos seus pensamentos. Era lá que estavam as suas raízes. Como ele me falava, com muito carinho, da minha avó materna, a tia Marquinhas. Deve confessar, pelo que dizia a minha mãe, o Félix era o sobrinho (num universo de 9 primos) querido da minha avó.
Na Gardunha, há um local parasidíaco – o Alcambar. O seu amor pelo Fundão levou-o, quando comprou uma casa no lado sul do Tejo (para as suas férias e onde passou os últimos tempos), baptizou-a de “Alcambar do Mar” pela proximidade com a praia da Caparica.
Ali recebia os amigos e “organizava” encontros com os conterrâneos da sua geração. O Félix nunca estava parado. Havia sempre algo para fazer e estou convicto, se não fosse terrível doença que chegou, em breve teríamos muitas surpresas com trabalhos e traduções que tinha entre mãos.
Recordo-o com muita saudade e o Félix, estará, sempre, presente, no meu caminhar.
Até um dia Félix, onde, de certeza, vou encontrar-te com aquele sorriso e um homem irrequieto e a fazer coisas muito boas e bonitas.
António Eduardo Correia Saraiva
Um grande abraço, António Eduardo. Depois do que escreveste, nenhuma palavra mais é necessária.
Bem-hajas.
Que a brisa intensa da manhã de primavera leve o seu pai para lá do mundo irónico e perdido que atravessamos para onde exista um mundo onde sejam possíveis os reencontros, e que suavemente o Pedro, possa sentir não dor, mas todos os momentos agradáveis que com ele passou…um abraço.
Abraço retribuído, com os meus agradecimentos pelas suas palavras, que muito me sensibilizaram.
Ainda hoje senti, compadre, uma versão modesta da reaproximação ao pó. À minha volta, vidas que se apagam, algumas que já nem procuram agarrar-se, dão-nos outra dimensão do tempo ao nosso próprio tempo. O fugaz ganha contornos mais precisos e, no meio, sobressai a capacidade de amar, um alto-relevo tão alto que parece a única coisa verdadeiramente intemporal, porque essa capacidade suge sempre nunca-sabemos-bem-de-onde e projecta-se na eternidade.
Um abraço amigo, compadre.
Tens toda a razão, compadre: nestas ocasiões “o fugaz ganha contornos mais precisos e, no meio, sobressai a capacidade de amar”. Obrigado pelo apoio e pela solidariedade. Espero poder abraçar-te pessoalmente muito em breve para pormos a cavaqueira em dia.
Um grande abraço.
Pedro, os meus sinceros pêsames. Sei como te sentes, porque também recentemente percorri esse doloroso caminho. Neste delicado momento, mais do que as minhas palavras, sente o forte e rijo abraço de grande amizade e consideração que te envio.
Obrigado pelas tuas palavras, Vítor. Lamento muito o teu luto familiar. Nestas horas – como ainda agora confirmei – os gestos de amizade, por pequenos que sejam, têm sempre um grande significado.
Um forte abraço, meu caro amigo.
Meu caro Pedro, um grande e sentido abraço. Pesa-me a tua hora.
[Fauré fez-me muito bem em idênticas circunstâncias quando sangrava por dentro de saudade e dor.]
Amigo Joaquim, eu ando às volta com o Mahler (quinta sinfonia) e o Tchaikovsky (sexta).
Por estes dias é o que me vai apetecendo escutar.
Um grande e sentido abraço.
Pedro, também me faltam as palavras nestes momentos tão difíceis. Deixo-te apenas um beijinho.
Obrigado, Ana Sofia. É quanto basta. E é muito, acredita.
Muito bonito este texto, com notas de extrema sensibilidade, foi a primeira coisa que me ocorreu dizer.
Seria desde logo um grande motivo para gostar muito de si, sentir-me a seu lado e lamentar profundamente as horas que está a passar.
Depois, porque foi lido em comunhão com alguém que nos é muito próximo.
Querido Pedro, agora por experiência pessoal, direi que nada se esquece, apesar do que tantos evocam. Ficam, felizmente, as memórias, que nos sustentam na caminhada que ainda temos pela frente. Elas passam de saudade terrível e dolorosa para uma saudade boa, fruto da doçura das lembranças, que nos alimentam. Mesmo que algumas vezes elas nos sejam gratas, mas nos arranquem ainda e sempre algumas lágrimas.
Impossível não sentir doçura quem pode ter a felicidade, a satisfação de ter feito tudo em vida, aproveitado bem a companhia, todos os momentos, as lições que nos foram passadas, as gargalhadas e mesmo as lágrimas, nada deixando por fazer.
Esses dias vão chegar.
A seu tempo.
Ao longo da vida já disse muitas e muitas vezes “tudo tem o seu tempo“, que aqui trouxe tão a propósito. Saibamos nós aproveitá-lo e valorizá-lo no tempo certo.
Um grande, enorme abraço, Pedro!
Obrigado pelas suas palavras, querida amiga, e pelo testemunho que aqui traz. É nos momentos difíceis que percebemos ainda melhor o valor da amizade. Retribuo o abraço, com gosto e gratidão.
Este texto é uma ode a um grande homem. Recordo o Doutor Félix Correia como o melhor Director dos Serviços de Educação de Timor.. Sei que ficaste imensamente triste, meu caro Pedro, sem poder imaginar a tua dor porque nunca tive pai. Abraço.
Um grande abraço, João – a somar àquele que te dei pessoalmente naquela noite triste e na manhã seguinte. Obrigado pelas tuas palavras, que sei serem sentidas e amigas.