Foi na universidade que terei feito mais amizades para a vida. No sentido de amizades que durarão a vida inteira e em que, independentemente do tempo de separação, cada reencontro é vivido como com o calor associado ao retomar da conversa do dia anterior. No final dos estudos cada pessoa segue para seu lado, como é evidente. Nalguns casos as escolhas profissionais serão parcialmente influenciadas pela proximidade geografica a amigos, mas nem sempre isto é possível. Com a vida, os horários de trabalho e desfasamento na escolha de períodos de férias, a chegada de filhos e mil outros afazeres, o contacto reduz-se a uns telefonemas, um fim de semana ou outro e ocasiões não planeadas. Quanto maior a distância entre amigos, maior será a oportunidade para o reencontro.
No meu caso, que saí de Portugal há quase 13 anos, as oportunidades são bastante reduzidas. As minhas escolhas profissionais e pessoais reduzem-me a frequência de viagens a Portugal e a diferença de rendimentos entre Portugal e o centro da Europa também conspira para limitar a possibilidade de visitas de amigos – quando há menos dinheiro, é-se mais criterioso na selecção de destinos de férias e um amigo numa pequena cidade holandesa mais conhecida por um tratado que pelas vistas não figura muito alto na lista.
Instrumentos como o Facebook, Instagram, blogues e afins ajudam a ir mitigando a saudade. Acompanhamos melhor ou pior as aventuras e desenvolvimentos, vemos as crianças crescer – que grandes que estão!, deixa-me estar calado que detestava quando os amigos dos meus pais me diziam isso! estou igual a eles! – lemos sobre as opiniões, ideias, viagens e outras coisas do género. Comentamos, gostamos, reagimos, retweetamos, partilhamos, reencaminhamos. E no final deixamos sempre a mesma promessa: da próxima vez digo qualquer coisa a ver se vamos beber um café/jantar/sair.
A maior dificuldade surge quando temos que equilibrar as pessoas que mais estimamos com aquelas que mais nos estimam. Há pessoas que gostaríamos imenso de rever, mas que não têm exactamente o mesmo apreço por nós e outras haverá que têm saudades mortais nossas mas que nós colocaríamos num segundo patamar. Quando recentemente escrevi a um destes amigos «temos que nos encontrar», dei por mim a pensar que isso será improvável. Não que não tivesse prazer em fazê-lo, mas darei sempre prioridade, no meu tempo limitado, ao encontro com outras pessoas, sejam família ou amigos.
Foi uma sensação profundamente inquietante pensar que provavelmente já vi pela última vez com vida certas pessoas e que, se acaso lhes sobreviver, possivelmente não os voltarei a ver ou só lhes verei uma campa, no meio do cemitério, e a conversa será apenas um monólogo onde as respostas serão perfeitas porque imaginadas. Mais inquietante ainda quando este pensamente surge não no final da vida, quando começamos a ver amigos e conhecidos a ficar pelo caminho, mas no meio dela, quando ainda guiamos os nossos filhos e temos legítimas aspirações a ver muito do mundo (geografica e sensorialmente).
É nestes momentos que recordo uma frase de um dos meus mais velhos (em idade) amigos: não tenho tempo para ter amizades, só família. Não o compreendi verdadeiramente, quando lhe ouvi essa frase há tanto tempo. Hoje compreendo-a melhor. Tanto melhor porque não mais a ouvirei da sua voz e sem saber que assim o era até 5 segundos antes do telefonema que de tal me informou. Agora, com tal conhecimento – que estará sempre aquém do dele – tento orientar a minha vida nesse sentido. Guardo o meu tempo para a minha família, de sangue e de vida. E espero, desejo, que um dia a mesma vida me atire um rebuçado pelo caminho e eu o possa comer, juntamente com uns camarões e uma cerveja, com esses amigos que eu, cinicamente, vou descartando.

Belo texto, João. Viver emigrado tem várias implicações. Esta de que falas, não é a mais perceptível para quem não se encontra nessa situação. É preciso sentir no pêlo ou então ser muito próximo de alguém que saiu.
No entanto Teresa, sempre que discuto o assunto com amigos que nunca saíram de Portugal eles revêem-se nisto. A verdade é que a nossa vida (minha e dos meus amigos) não deixa espaço para muito, mesmo num país relativamente pequeno como o nosso e com muitas auto-estradas para ajudar às viagens.
Já vi as crianças crescer (e foi tão, tão rápido).
Por estes dias – por estes anos -, passo tantas coisas da gaveta dos projectos adiados para a das coisas que sei que definitivamente já não farei, ajudo os mais novos a acabar de crescer (Deus!, demora-se tanto mais tempo… e só passou uma geração) e há algum tempo já que faço tudo o que posso para ajudar os mais velhos a morrer. A ir morrendo, com a dignidade, a voz activa e o conforto possíveis.
E é estranho. Há, parece, tão pouco tempo ali estavam eles, os mais velhos, parecia que com uma energia sem fim, e eram tantos os contratempos. Com a solução garantida. Ao meu lado, há minha volta, sempre protectores, sempre presentes, sempre porto de abrigo. Agora olham-me subitamente tão frágeis, os papéis inverteram-se e às vezes, egoísta, nem lhes quero reconhecer a velhice. O passar do tempo, a minha nova responsabilidade.
Pela ordem natural das coisas, a seguir sou eu. E se tudo se passar tão depressa como me pareceu que passou…
Costa
Não estou ainda assim tão adiantado, mas do meu ponto sinto que sempre que olhamos para trás tudo passou a correr e depressa demais.
Não lamento o envelhecer nem aquilo que sei que nunca farei: sempre tive uma visão pragmática que me ensinou que iria envelhecer e que nunca cumpriria todos os meus projectos e sonhos.
Só que nunca me apercebi que andaria a acompanhar a vida de amigos, mesmo que não os mais próximos, sem que alguma vez os voltasse a ver. A vida deu-me algumas alegrias inesperadas nesse aspecto (rever uma amiga da escola secundária em Helsínquia foi uma delas) mas sei que na sua maioria são pessoas que, na minha cabeça, terão sempre cerca de 20-25 anos.
Julgo compreender essa dualidade de sentimentos.
A distância também ajuda a cimentar laços, por vezes mais duradouros que alguma vez a proximidade proporcionará. O nosso olhar sobre as pessoas desaponta-nos mais que as próprias pessoas. Há como que um desejo irreprimível que elas correspondam ao que imaginamos. Mais difícil ainda é quando isso ocorre não porque as imaginamos mas porque nos fazem acreditar que são o que se descobre não serem. E nem sempre revelam tal característica por maldade ou por hipocrisia, mas porque se deixam levar por convenções que a sociedade cria. Todavia, estes mesmos sintomas propagam-se como genes de geração em geração.
Há quem, por qualquer razão, desperte para esta realidade e compreenda que a afirmação “quem não deixar pai e mãe, irmãos e irmã, sua mulher e seus filhos… e até sua própria vida não é digno de mim” (Mt. 14, 25-33) está associada não à ruptura familiar mas à ruptura com essas convenções, que a mais das vezes não passam de vaidades. E isto é extensível a todos os outros núcleos sociais.
Talvez o desapego da necessidade de as imaginarmos, na expectativa que a isso correspondam, ajude a equilibrar as emoções e torne as relações menos tensas.
Não obsta, certamente, à natural selecção que sempre ocorre.
Quem sobe nunca pode aí permanecer, tem de descer para dizer o que viu. E o João acabou de revelar, ainda que tímido, um passo nesse sentido.
Não pretendi ir tão longe, era um reflexão mais sobre mim mesmo e não sobre os outros. Mas este comentário (ao qual posso arescentar o de cima, do Costa) ajudam a complementar os sentimentos de que falo no post.
Excelente texto, João. Entrada directa na antologia DELITO DE OPINIÃO.
Obrigado Pedro. Como eu sempre disse, a escolha seria melhor feita por outros :).