Tempestade imperfeita


José Meireles Graça,

A Roménia vai no próximo ano dizer-nos adeus, somando-se a outros países que quanto ao PIB por cabeça, corrigido em paridades de poder de compra, já nos ultrapassaram. Foram eles a Polónia, a Hungria, a Estónia e a Lituânia. Não há muitos anos, na minha cidade, havia Romenos que andavam pelos cafés a pedir; e a uma fabriqueta de que sou sócio, pela mesma altura, foi roubado cobre, ao que se veio a descobrir por Romenos. Veremos, em devido tempo, emigrantes portugueses em Bucareste a arrancar dentes, projectar casas e engenheirar pontes, que Portugal aprecia investir na formação de quadros para promoverem outras economias.

De modo que o país político ficou comovido, e deve levar mais de uma semana a mudar de preocupação para outras infelizes notícias, das quais há cerca de quatro por mês.

Ouvi por acaso o programa Tempestade Perfeita, na Rádio Observador, onde a prestigiada académica Susana Peralta e o não menos ilustre Ferreira do Amaral se pronunciaram sobre esta matéria.

E o que dizem? Extraordinário: Para rebater a constatação do deslizamento sistemático do país para os últimos lugares do desenvolvimento (num continente que ele próprio cresce menos do que outras regiões do globo) começam por chamar a atenção para alguns aspectos em que esse deslizar não tem lugar. O que, evidentemente, não é o que está em questão e é apenas um mecanismo de anestesia da opinião pública ao qual a propaganda socialista vai recorrer. Depois, ao enunciar as razões do atraso vem o palavreado da desigualdade e das falhas e insuficiências disto e daquilo como se em todos os países que crescem mais não houvesse falhas e insuficiências. Acrescentam que Portugal está a crescer e, por definição, há sempre quem fique para trás, triste realidade que nos deve servir de refrigério; que a diferença prevista para a Roménia é de alguns poucos euros, uma irrelevância; que em Portugal se vive melhor, segundo os indicadores xis e ípsilon, do que em países que têm o atrevimento de nos ultrapassarem; e que o que tem faltado é investimento, o qual, ai, só não houve pelo compreensível esquecimento de se o decretar.

Estes dois comentadores são de esquerda e o que isso significa é que simplesmente não entendem os mecanismos de criação de riqueza e, além das tradicionais queixas sobre o que não funciona bem (como se falar nisso sem adiantar soluções servisse para alguma coisa), não fazem a menor ideia de como se inverte o acentuar do atraso relativo. A tragédia da nossa economia é que a esquerda tem uma data de bandeiras ideológicas que prejudicam o crescimento; e a direita é, com frequência, reaccionária nos costumes (o que não é necessariamente mau mas pouco tem a ver com economia), mas é refém do Estado obeso. E tudo isto sob o manto da suposta lucidez dos economistas, dos quais a maior parte nem sequer realiza o que lhes falta e que adquiriram uma injustificada importância na magistratura da opinião.

Não disseram, mas poderiam ter dito com orgulho que a Bulgária, a Grécia, a Croácia, a Letónia e a Eslováquia ainda estão para trás e que, fora da União Europeia mas dentro da Europa, há muitos países que tomaram eles ter o brilhante desenvolvimento que a esclarecida governação do nosso tem proporcionado. Um deles é a Albânia, para a qual podemos olhar com sobranceria, coitada, a par da Bósnia Herzegovina. E se a estes dois juntarmos a Sérvia, o Montenegro e a Macedónia do Norte, e este conjunto aderir à União Europeia, o PS poderá dizer com verdade e justificado orgulho que nos afastamos cinco posições do fundo da tabela.

Aqui está uma exaltante missão para o estadista Costa, se conseguir o lugar cimeiro que na UE deseja e merece.

15 comentários em “Tempestade imperfeita”

  1. Porque não emigra para um desses países? No Índice de Desenvolvimento Humano (que também deixa muito a desejar mas sempre é melhor que o PIB), Portugal está em 38º, a Roménia está em 53º. A esperança média de vida em Portugal é de 81 anos, na Roménia é de 74 anos.
    Em alternativa pode ir para o Catar.

    1. Sim, esses dados foram referidos por uma das duas luminárias, creio. Num país que cresce os indicadores que não se referem ao produto crescem a prazo. Num país que não cresce, apesar das esmolas europeias, é ao contrário. A ideia de que há indicadores melhores do que o PIB para medir globalmente o desempenho dos países num lapso grande de tempo fornece excelentes desculpas se este for medíocre, apenas isso. A sugestão de que, por delito de opinião, caso houvesse, deveria emigrar, é um velho bordão das redes. Cretino.

    2. Com a excitação de mandar os outros emigrar, eventualmente para o Catar (que é um argumento inteligente e construtivo) esqueceu-se de contextualizar o 38º e o 53º, que não são assim tão diferentes.
      Portanto fica a saber que o índice de Portugal é 0.866 e o da Roménia é 0.821, estando ambos no grupo de países com “IDH muito alto”.
      Só não percebi o que é que o PIB faz ali, ainda se fôsse o PPC (paridade do poder de compra), que esse é que diz quantos melões se compram com o mesmo dinheiro cá ou lá e esse, segundo o FMI, em 2022 foi maior 8% por cá. o que nos dá mais meia fatia de melão.

      1. Ah, afinal 0,866 e 0,821 são a mesma coisa… E 81 anos e 74 anos devem ser a mesma coisa também… A Matemática de alguns comentadores é impressionante.

  2. Com proverbial sorte do PM Costa, que absolutamente è simétrica à sorte do povo que ele , sorridente, apascenta, ainda vamos ter de trazer a taça do mundo daquele país do médio oriente onde matam estrangeiros no aeroporto e onde os suspeitos estão décadas para conseguir a graça de um julgamento.
    Esse seria um analgésico daqueles mesmo valentes, daqueles que até tirava o ar aos palermas que não aplaudem as maravilhas desta república, quase popular, portuguesa.
    Da outra vez precisamos de uma Troika. Da próxima vamos precisar de uma Perestroika.

      1. No texto não se compara nada com o Catar, que em lado nenhum é referido. Mas ainda que fosse esse o caso, e conforme já informei outro anónimo, essa velha sugestão de emigrar sempre que alguém faz comparações pouco lisonjeiras para o nosso país é simplesmente cretina.

        1. “essa velha sugestão de emigrar sempre que alguém faz comparações pouco lisonjeiras para o nosso país é simplesmente cretina”
          E quando o Pedro Correia manda pessoas para a Rússia?

  3. A estimativa 2022
    Roménia: PIB nominal 15.619 $ base 38.092 $
    Portugal: PIB nominal 26.404 $ base 39.544 $
    Ainda falta….

  4. Quase 30 anos de socialismo consecutivo com parte desse mesmo socialismo encostado à extrema-esquerda só poderia dar bota. Ah mas a culpa é do Passos, do Cavaco, do Salazar, da pandemia, do Putin, da conjuntura, dos mercados,…. Mas nunca jamais do PS nem tão pouco dos seus governos. Ora falando deste governo em particular para que serve mesmo já que nunca é responsável por nada de mau? Imagine-se um gestor empresarial a sistematicamente nunca assumir responsabilidade por nada perante os patrões da empresa, o que seria que lhe aconteceria? Simples, porta da rua no imediato mas no caso do dr Costa o que lhe aconteceu foi uma maioria no sapatinho. Ora com tanta ignorância na hora de votar como pode este país ir a algum lado? A cauda da Europa com esta premiação da incompetência e irresponsabilidade será nossa sem a menor dúvida.

    1. Então Portugal teve 30 anos de algo a que você chama “socialismo”. Ainda estou à espera que o governo PS nacionalize a EDP, a GALP, os CTT, etc., mas há mentes brilhantes que acham que Portugal é socialista. Quanto à Roménia, teve realmente 40 anos de socialismo. Podemos assim concluir que o socialismo (sem aspas) é melhor que o “socialismo” de que a direitalha tanto se queixa que na verdade é capitalismo só que ficam tristes porque não são eles a governar.
      Como outro comentador referiu, a esperança média de vida é de 81 anos em Portugal e de 74 anos na Roménia. Parece sim que a social-democracia portuguesa (no verdadeiro sentido da palavra, não no sentido do PSD que é na verdade um partido da direita reacionária) é melhor que o socialismo romeno.
      Mas estranhamente agora o Delito de Opinião até defende Ceausescu…

    2. Efetivamente estamos longe de estar bem, mas quanto aos sermos todos ignorantes, enfim,haja quem seja letrado … mas não o suficiente para fazer frente ao Costa, que recebeu um maioria enquanto que o letrado se reduz a lamentos e desabafos na caixa de comentários.

  5. Não é esquerda nem direita, é tão só o resultado do que somos como sociedade. É uma história com séculos. O que há de novo é a UE ter cá enterrado milhares de milhões de há 30 anos para cá para o resultado ser o mesmo. Há sempre uma culpa externa. O povo, bom, é sempre vítima.
    É uma mentira que sejamos vítimas da nossa condição de periferia na Europa. Muito pelo contrário, beneficiamos imenso de sermos Europa. Estivéssemos noutro continente e o programa alimentar das Nações Unidas andava por cá a distribuir farinha.

  6. Em tempo: também pode recorrer ao Human Development Index. Agora estamos em 38. lugar. Durante uns anos foi o 41. lugar. Se bem me lembro, já foi melhor. Se reparar, neste indicador das NU a Grécia até está, e bem acima, à nossa frente.

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