Tempestade


Luís Naves,

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António Costa decidiu manter um ministro sem credibilidade e agora chefia um governo mais precário e isolado, que se meteu num caldeirão onde a temperatura só pode aumentar. No primeiro dia, olha-se para a crise política numa perspectiva de 24 horas. Depois, quando passarem meses, os eleitores vão perguntar se vivem melhor do que no ano anterior. Não, as coisas vão de mal a pior, embora isso não se sinta na bolha dos governantes. 
Nenhum dos cenários possíveis favorece os socialistas, que segundo as sondagens desperdiçaram a maioria absoluta e podem ter perdido 800 mil votos no último ano. Se a intenção era provocar eleições, ainda é possível evitar uma derrota histórica, mas como será em 2024? Os principais partidos socialistas da família do PS (social-democratas europeus) vivem nesta sangria desde o início do século. Os motivos são complexos, esmiuçados por autores que sublinham a redução do Estado social ou o declínio da influência das classes trabalhadoras. Pode até haver ligação entre a queda da esquerda tradicional e a subida dos populismos.
Enfim, existem detalhes nacionais e um padrão geral. No Parlamento Europeu, a família socialista a que pertence o PS perdeu 8 milhões de votos entre as eleições de 2004 e 2019. Tem agora apenas 18,5%, menos dez pontos percentuais do que em 1999.
Na Alemanha, onde o SPD costumava vencer no século passado com resultados próximos de 40%, a vitória de 2021 limitou-se a 25,7% do eleitorado. O partido está no poder, sim, mas fragilizado. A esquerda pós-comunista polaca colapsou, como aliás está a acontecer em todos os países de leste: no caso polaco, a esquerda venceu em 2001 com 41% dos votos; limita-se agora a 12%. O declínio dos socialistas é evidente um pouco por todo o lado, na Holanda, Itália, Grécia, Espanha e Finlândia, mas em França houve uma hecatombe, da qual o PS francês ainda não recuperou.
Em Portugal, onde os socialistas dominaram desde 1975, agora arrisca-se tudo. Os eleitores detestam a instabilidade, recusam piruetas que só podem trazer mais dificuldades no dia-a-dia. Ao comprar uma guerra institucional e ao manter teimosamente um mau ministro, António Costa criou uma tempestade que ninguém esperava, a somar ao sufoco do custo de vida. Ainda não se percebe qual é a estratégia do primeiro-ministro, mas o País não lhe perdoará, nem ao seu partido, mais empobrecimento, incompetência e sobranceria.

imagem Night Café, IA

13 comentários em “Tempestade”

  1. Num país dito normal, a seita vigente nunca mais se levantava, mas estamos em Portugal e socialismo é liberdade, o 25 de Abril deste ano o provou.
    Não tenho nenhuma ilusão, com os políticos que temos, salvas raras excepções, o futuro de Portugal é sombrio e cada vez mais divergente dos resto da Europa.

  2. Luís Naves, realmente como é que a esquerda social-democracia não se aguentou com o crescimento dos verdes, perdendo metade, os mais jovens, para estes, e outra parte, os mais velhos, forão desaparecendo.
    A direita democrata-cristã também não se aguentou com o crescimento dos populistas nacionalistas que se aproveitaram, principalmente, da questão da imigração de refugiados dos conflitos em países muçulmanos e guerras civis africanos. Mas já anteriormente com uma grande imigração de turcos e polacos, a ocupar postos de trabalho.
    Quando os socialistas, trabalhista e sociais-democratas foram na treta dos americanos com a questão do Iraque e por tabela o norte de África e médio oriente, cavaram o buraco que agora estão todos metidos.

  3. as pessoas não são parvas. os gigantes de que fala no outro post foram alimentados também pela “esquerda”.. deixaram que a propriedade dos negócios se concentrassem nos poucos , transformando todo mundo em assalariado sem liberdade nenhuma.
    andamos aos tombos , ao sabor de crises provocadas , há tempo demais.
    tanta gente “inteligente” por aí a legislar global e ainda não fizeram da banca um negócio sério , sólido e confiável? não se percebe.

  4. “sublinham a redução do Estado social ou o declínio da influência das classes trabalhadoras. Pode até haver ligação entre a queda da esquerda tradicional e a subida dos populismos.”

    Como sempre uma date de pressupostos e dados falsos.
    Deve ser por isso que os impostos não param de crescer e assim como a dívida até ter chegado a a inflação criada propositadamente para baixar essa dívida.
    O estado social está morto apesar de nunca se ter contribuido tanto para o estado social. Aha!

    O Socialismo não perdeu, pois boa parte dos partidos “conservadores” transformaram-se em socialistas tout court. Enquanto no passado o social conservadorismo estava ligado à igreja e a havia uma dose saudável de moderação nada disso se passa hoje. Hoje é irrelevante um governo de direita governar.
    O Estado não pode ser diminuído pois a violência com apoio dos jornalismo “democrático” começaria logo a seguir.

    O wokismo – marxismo caricatural – anglo saxónico só pode nascer precisamente pela segurança dada pela vitória do socialismo -tendência social democrata-
    As universidades, estavam completamente seguras que os fundos do estado social nunca iriam deixar de chegar mesmo que escrevessem que boa parte dos contribuintes que lhes pagam eram filhos do Demo.

  5. um mau ministro

    Que dados tem o Luís Naves para afiançar que João Galamba é um mau ministro, quando ele ainda só esteve três meses no cargo?
    Eu não tenho dados nenhuns para poder dizer se ele é mau ou bom, pior ou melhor do que qualquer outro. Admira-me que o Luís Naves tenha.

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