Ninguém gosta de viver num país onde o primeiro ministro está constantemente sob suspeita. Recordo que, ainda antes de ser eleito, já os jornais afirmavam que era homossexual e vivia um idílio com um conhecido actor.
Em plena campanha eleitoral, surgiu o primeiro capítulo do Freeport. Depois veio o episódio da licenciatura, das casas cujo projecto terá assinado, embora não fossem da sua autoria, a segunda parte do caso Freeport, a Face Oculta, as tentativas de interferência na comunicação social e a pressão sobre jornalistas.
Não sei se me terá escapado alguma coisa, mas estes casos já seriam suficientes para desejar, como cidadão português, que tudo se esclareça rapidamente. É certo que algumas das acusações (como a da homossexualidade) existiram apenas na mente fantasiosa de alguns proto-jornalistas que só pretendem vender jornais. É verdade que, até ao momento, não há provas que permitam acusar Sócrates. Ninguém ignora que há jornalistas enfeudados a interesses partidários que se comportam como vestais, tentando convencer-nos que a sua única preocupação é a descoberta da verdade. Todos sabemos que há agentes da justiça que passam para os jornais informações, cuja veracidade é questionável, que esses mesmos jornalistas dão como fidedignas, apenas porque convêm aos seus interesses.
Nada disto invalida, no entanto, que os portugueses tenham o direito de exigir saber a verdade sobre a implicação do PM em todos os casos de que vem sendo acusado. A bem da democracia e do Estado de Direito, é urgente que tudo seja esclarecido.
Mas se a Justiça não é capaz de actuar em tempo útil e se deixou enredar numa onda de suspeição, também o julgamento em praça pública reflecte a fraqueza de carácter daqueles que, sem provas, acusam Sócrates e intoxicam a opinião pública com rodriguinhos dialécticos e vitimizações próprias de meninos de escola mimados.
O PSD recusou a proposta do BE para a criação de uma Comissão de Inquérito. Preferiu tratar do assunto na Comissão de Ética, transformando a AR num circo, por onde passou gente sem qualquer credibilidade, que apenas aproveitou o palco para se vitimizar e dar espectáculo. Algumas das pessoas que por lá passaram merecem-me menos crédito do que alguns criminosos ou proxenetas. Não dou qualquer crédito a gente despeitada e imprestável ou que faz do jornalismo uma feira de vaidades.
Felizmente o PSD recuou e acabou por aceitar a proposta do BE. Vem aí uma Comissão de Inquérito Parlamentar. Contra todas as (minhas) expectativas, o PS vai votar contra.
A bem da verdade e da higienização deste país, o PS deveria apoiar esta Comissão. Quem não deve não teme. Tentar ocultar eventuais culpas de Sócrates em todo este processo é prestar um mau serviço ao País. Contribuir para o apuramento da verdade, mesmo que isso signifique o fim do seu líder, é um contributo inestimável para a credibilidade das instituições e a preservação do regime. O país não pode continuar a viver neste clima de suspeição, onde as alcoviteiras e os Miguéis de Vasconcellos se transformam em actores de telenovela e são elevados à condição de heróis nacionais.

“algumas das acusações (como a da homossexualidade) existiram apenas na mente fantasiosa de alguns proto-jornalistas”
Já não me ria assim desde o discurso do Vasco Gonçalves no Samouco.