Afinal, de literatura sabemos todos um pouco? Parece que sim. Ora, a opinião pública conta pouco – ou mesmo nada – para esta corrida já que os putativos vencedores devem ser nomeados por antigos laureados, instituições e academias cujo perfil seja indiscutível.
A Academia Sueca, na sua sabedoria imensa, gere uma pequena fortuna do senhor Alfred Nobel e tem alguns objectivos a cumprir. Não se rala com a opinião dos meros mortais, é preciso ser especial.
A corrida para os prémios de 2018 já começou. Podemos torcer por este ou aquele, pouco adianta. A Academia Sueca segue as suas normas e, apesar da maioria ignorar, existem candidaturas designadas por outras academias (não vinculativas) e requisitos que são inultrapassáveis. Um exemplo? Não estando traduzido para sueco, nenhum escritor(a) terá hipótese de ganhar. E não basta um livro, terão de ser dois no mínimo. No caso de Bob Dylan, que ganhou o Nobel da Literatura em 2016 por obra e graça da sua poesia, não foi preciso mais. Dois livros traduzidos para sueco e uma obra inteira que faz parte da banda sonora de muitos milhões de pessoas. Muitos ficaram boquiabertos. Poesia? Música? E isso é literatura?
O que é literatura? A pergunta impõe-se, porque anteriormente o prémio já tinha sido atribuído, em 2015, a Svetlana Alexiévitch, jornalista e escritora bielorussa. Muitas vozes identificaram a obra de Alexiévitch como jornalismo ficcional ou ficção a partir de jornalismo e a polémica durou o tempo que tinha de durar. E a literatura?
Bom, o Nobel não foi entregue a Jorge Luis Borges, a Virginia Woolf, a Marguerite Yourcenar, e por aí fora, a lista é extensa. Tem sido entregue a muitos, mesmo muitos autores, de que nunca mais ouvimos falar. Autores que ganharam o Nobel, mas não ganharam um lugar na História.
Desde 1901, o início da atribuição deste prémio, cujo valor financeiro é muito elevado e a projeção internacional é garantida, os diferentes prémios foram atribuídos 834 homens e 48 mulheres. Quando olhamos para o Nobel de Economia existe apenas uma mulher agraciada. No Nobel da Paz temos 16 mulheres e na Literatura temos 14 vencedoras (a primeira foi a sueca Selma Lagerlöf, em 1909, e a última a bielorrussa Svetlana Alexijevich, em 2015).
A partir dos dados oficiais é possível perceber outras pérolas: 94 % dos vencedores são brancos, 88% são homens e 69% europeus. Negros e asiáticos? Representam 3% respectivamente. But who’s counting?
Discretamente, saiu a notícia de que a Academia Sueca terá pedido formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura. Assina a carta de pedido Per Wästerberg, o presidente do comité Nobel. «Em nome da Academia Sueca […] temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018».
Perante o convite, os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram dois nomes: Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre. Ora, o eterno candidato, Lobo Antunes, não terá apreciado grandemente este gesto, mas terá de o aceitar, porventura terá sido indicado no passado. Eu fico a torcer por Agustina Bessa-Luís. A Academia Sueca irá surpreender-me decerto e o gesto será entendido, outra vez, como um “sinal de abertura”.

“Eu fico a torcer por Agustina Bessa-Luís.” Por razões de literatura ou por razões de sexo? Diga-me para me ajudar a decidir-me.
Suspeito que por razões de tamanho qualidade literária. Manuel Alegre não tem nem de longe nem a dimensão nem a qualidade de ABL.
Para uma mulher ganhar tem de ser com as quotas.
José Vilhena e a sua Crónica da Humanidade?
por mim, teria torcido por Sophia. única.
Porque será que se esquecem de José Rodrigues dos Santos?
Quem alimenta Alegre só por amiguismo.
“De literatura todos sabemos um pouco? Parece que sim”. Tal como de política (e aqui a pergunta é milenar). E sabendo nada de literatura mas algo de política um tipo só se pode rir quando se propõe Manuel Alegre para Nobel – ainda que sabendo os interessantes nomes que os portugueses foram propondo ao longo de XX para o prémio.
Não foi a Agustina que descreveu o Manuel Alegre como “o melhor dos nossos poetas assim-assim”? 🙂
Concordo que soa estranho nomear Manuel Alegre.
No entanto ainda é possível nomear Lobo Antunes (ou Pedro Correia ou Helena Sacadura Cabral, porque não?
). Como? Sendo professor universitário de literatura ou linguística ou presidente da sociedade portuguesa de autores (creio). Isto pelo menos lendo a descrição: https://www.nobelprize.org/nomination/l iterature/index.html
Não percebo é o título deste post em Brasileiro? Presumo que seja alguma alusão obscura ou coisa do género.
Já agora, penso que Agustina Bessa-Luís está muito, muito acima da qualidade habitual dos prémios Nobel.