Teletrauma


Ana Vidal,

 

Há coisas que não percebo. Em vez de proibirem as suas criancinhas de levar telemóveis para um exame – por iniciativa própria e sem que sejam precisas recomendações exteriores, como seria lógico e natural – os pais dos alunos que fizeram hoje o exame do 4º ano vêm para a televisão insurgir-se contra o terrivelmente traumatizante pedido de assinatura de um papel que garante que os meninos não estão a conversar com os amigos em vez de estarem concentrados no exame. Insurgir-se, no fundo, contra a introdução das primeiras e utilíssimas noções de responsabilidade, ética e compromisso nas mentes dos filhos.

 

Esta nova forma de educar (ou de não educar, mais precisamente) com base no pressuposto de que tudo traumatiza as crianças, deixa-me seriamente preocupada. Primeiro, porque cria gerações sucessivas de florzinhas de estufa que não podem ser contrariadas nem suportam qualquer espécie de autoridade, o que as deixa totalmente impreparadas para o que vão enfrentar na vida real. Depois, porque torna quase insuportável o trabalho dos professores, desautorizados por um muro acusatório constituído por alunos mal educados e pais incapazes de autoridade que os apoiam incondicionalmente, tenham ou não razão. Finalmente, porque não vejo este excesso de protecção aplicado depois a outras frentes, como por exemplo à enorme exposição a que essas mesmas crianças estão sujeitas com a net, a televisão, a “noite” precoce, etc. Seria bom que estes pais pensassem um pouco mais em tudo isto, em vez de saltarem escandalizados, com acusações que não têm pés nem cabeça, para o microfone que a voraz media lhes estende à porta da escola.

 

97 comentários em “Teletrauma”

  1. Pois a mim, Ana, o que me espanta mais ainda é como se chegou ao ponto de criancinhas tão pequenas já andarem munidas de telemóvel!
    Pior: e no caso de andarem(como andam), quais termos de responsabilidade, qual carapuça! É: toca a desligar imediatamente essa porcaria e pôr tudo num caixote à entrada até ao final do exame!… Irra!!!

      1. Mas a questão é precisamente essa. Porque carga d’água é preciso mais uma inefável papel?

        Não era mais fácil as regras do dito exame dizerem que os telemóveis e outros aparelhos electrónicos devem ser desligados e colocados em cima da mesa, junto do lápis/caneta ou o que raio forem usar para fazer o dito exame?

        1. Era mais fácil e com certeza as regras já o dizem há muito tempo, Bernardo. Vejo este papel como um compromisso pessoal que os miúdos assumem, nada mais. Até porque um papel assinado por um miúdo de 10 anos não pode, penso eu, ser usado para efeitos legais.
          O que não percebo é porque se faz tanto barulho em volta de uma ninharia destas, com tantos erros bem mais graves para corrigir no actual ensino. Quem quiser atacar o ministro tem motivos de sobra, mas não este que não vale um caracol. É a minha opinião, claro.

          1. Concordo que esta história é apenas barulho, mas também vejo o papel como inútil. Se as crianças não obedecem á ordem, porque carga de água hão-de ligar a um papel qe não acarreta qualquer consequência? A verdade é que, compreendendo ou não o conceito de honra, as crianças não têm qualquer razão para ligar a isso.

          2. João, pondo de parte a história do papel (que me parece bastante irrelevante) há nisto tudo uma incongruência que me encanita: as pessoas que infantilizam ao limite as crianças de 10 anos, defendendo a tese de que elas não têm capacidade para entender noções de honra, compromisso e responsabilidade, são as mesmas que acham naturalíssimo essas mesmas crianças terem maturidade para usar um telemóvel, estar horas em frente a um televisor ou a um computador sem qualquer vigilância, concorrer a programas televisivos de caça-talentos, etc. Qual a explicação para isto que não seja a confusão, a demissão e o facilitismo dos pais?

          3. Muito bom dia, Aninha. Permita-me que aqui produza uma retro-introdução ao pape :-)l. A estorieta do papel é relevante, porque temos de ensinar as criancinhas a amar as arvorezinhas. Elas são muito nossas amigas: oferecem sobra, espaço para os passarinhos fazerem o ninho e, quando em seus galhos, permitem que dejetos esparços nos atinjam. Contra estes dejetos não me oponho, oponho-me a outros.
            Vai daí, Aninha, entendo que esta qu-es-tão da honra só nos desonra, aos que têm honra. Por que a honra não se produz numas linhas de papel mas sim em atitudes. Se ela existisse sempre não seriam necessários tribunais e as leis que as nações produzem muitas vezes elaboradas por gente com pouca ou nenhuma honra.
            É aqui que dorme o gato, e necessário nos é ir mais longe. Há uma nostalgia, em particular por parte dos novos neoliberais, que são uma espécie de novos ricos armadilhados de tradicionalistas, que conduz este tipo de gente a passadas noções de honra. Quero com isto dizer que essa honra que se propõe enaltecer esta muito próxima da hipocrisia passada onde as virtudes eram públicas e os pecados privadamente trabalhados. Assim sendo, e era continuando a ser, não se pode driblar uma mentira com outras ainda mais elaboradas, caso contrário caímos no grave risco de perpetuar a tradição. O conceito de honra deve ser desenvolvido em torno do conhecimento e não da autoridade, porque esta infelizmente produziu o caos que todos vivemos. Os neoliberais, ainda que disfarçados de tradicionalistas ou conservadores, procuram sempre camuflar sua culpa com a produção de uma falsa autoridade que negam para eles. Geralmente estas personalidades costumam estar bastante alinhadas com a imagem de uma falsa religiosidade que só se mantém porque os quadros das religiões, para bem deles, estão velhos. E é esta caricatura de autoridade que também os move. Mas lá diz o evangelho, citando Jesus, “Não se cose pedaço de pano novo em roupa velha, de contrário será maior o rasgão; e também não se coloca vinho novo em odres velhos, de contrário os odres se arrebentarão”. É este equílibrio entre o que é novo, no sentido de uma verdadeira novidade, que eu não vejo que se estabeleça; e continuarei a não ver porque isto requer um trabalho individual sobre si mesmo, sobre o próprio indíviduo. Só me resta a Esperança, Aninha, mas aquela esperança que surja através de uma baleia que a todos engula e que a todos vomite sobre esta Ninive. Jonas aprendeu, mas os tradicionalistas continuam a teimar em manter a beatitude que os afundará.
            Vai daí, Aninha, e como falamos de autoridade telemobilizada, gostaria de aqui deixar uma atitude que considero bastante pedagógica para a qu-es-tão que foi versada. Professores, sigam este exemplo e acabam-se as merdas:

            http://www.youtube.com/watch?v=q9cbM18bTj4&NR=1&feature=endscreen

          4. Os passarinhos, tão engraçados
            Fazem os ninhos com mil cuidados
            Usam pauzinhos, folhas, enfim
            Só telemóveis nunca lá vi.

            😉

            (Anoniminho, essa professora traumatiza muito as crianças…)

          5. Tenho poucos motivos para atacar este ministro. Para já tem cumprido com o que prometeu (antes sequer de sonhar ser ministro).
            Talvez o único motivo de ataque será a lentidão. Mas se conhecer o ambiente patético, com a medrosidade do fanfarrão e um QIb que se vê entre os professores (meus colegas), talvez a calma seja ciência.

  2. Não é “Em vez de”, é “conjuntamente com”.

    Repare, Ana. Eu posso perfeitamente proibir o meu filho de qualquer cosia mas, simultâneamente, revoltar-me em que ele seja obrigado a assinar um papel com palavras que ele não compreende e que ele não sabe para que é necessário, papel esse que pode ser utilizado contra ele, que não passa de um menor.

    O meu filho não sabe o que significam palavras como “compromisso” e “honra”, não sabe o que é uma assinatura nem qual o seu valor legal. Eu revolto-me, naturalmente, se seja quem fôr pretender obrigá-lo a “assinar” uma declaração, ainda por cima com palavras que ele não entende.

    E havia necessidade? Não havia. Qualquer criança percebe o que é “ter um telemóvel” e “levar um zero no teste”. Bastava explicar-lhes isso. Não era preciso compromisso nenhum. Muito menos uma assinatura.

    Enfim, Cratices.

    1. O Lavoura já reparou que é sempre no contra?
      Quem falou em compromisso e em honra? Ninguém, como dois dedos de juízo.
      Quem acredita que uma coisa destas está a ser pedida a crianças de 9/10 anos? Acreditam os tipos (e as tipas) tipo “Lavoura”…

      1. (1) Não sou sempre do contra. Simplesmente, quando sou a favor, não sinto necessidade de o dizer.
        (2) Num blogue chamado “delito de opinião” é-se suposto ter opiniões contraditórias, parece-me a mim. Peculiarmente, os autores deste blogue parecem achar o oposto.
        (3) Quem falou em “compromisso” e “honra” foram os mídia, que disseram que as crianças são supostas assinar um papel em que diz “comprometo-me por minha honra”. Eu (talvez ingenuamente, concordo) acreditei nos mídia.

    2. Não, Luis, para mim é mesmo “em vez de”. O problema nem sequer devia chegar a pôr-se na escola. Já agora, acho graça a essa sua indignação pela assinatura de um papel “que a criança não compreende”, coitadinha. Se tem estatuto e compreensão para usar um telemóvel, também tem para compreender um papel que limita o seu uso num exame.
      Não sei a idade do seu filho, mas os conceitos de compromisso e de honra podem e devem ser transmitidos bem cedo às crianças, e elas compreendem-nos perfeitamente. Além disso, que eu saiba este papel só terá consequências legais (se as tiver) no caso de a criança usar um telemóvel durante um exame. Acha mal? Eu não, acho até muito bem que as tenha.

      1. A Ana já tem filhos muito velhos e já se deve ter esquecido do que são crianças pequenas. Eu tenho filhos dessa idade, estou mais consciente.
        (1) A maior parte das crianças da 4ª classe não tem telemóvel.
        (2) A generalidade das crianças consegue facilmente trabalhar até com um computador, coisa que para elas é muito mais fácil de aprender do que para um adulto. Já compreender o que é uma “assinatura”, o que é “honra” (um conceito que hoje em dia praticamente ninguém usa) ou o que é “comprometer-se” é muito mais difícil. Não tem nada a ver, conseguir manejar um telemóvel com compreender o que é honra.
        (3) Muito menos sabem as crianças o que é uma assinatura. Sabem escrever o nome, mas não sabem o que significa assinar. (O que aliá é um conceito esquisito, se você pensar bem; por que raio é que escrever o nosso nome há de ter qualquer valor legal?)
        (4) O que a Ana está a dizer é que as crianças de 10 anos são imputáveis em troca de um papel com o nome delas escrito (e uma criança de 10 anos ainda não tem uma caligrafia definida). Um conceito que brada aos céus.
        Não há dúvida: as pessoas velhas tornam-se efetivamente de direita, quando não de extrema-direita.

        1. Olhe, Lavoura, vou passar por cima da sua habitual deselegância, já todos percebemos que você tem a sensibilidade de uma retro-escavadora. Pior para si, enfim.
          Mas não passo por cima de uma acusação de extrema-direita, não só porque não lha admito como porque não sei de onde a deduziu. Quanto ao resto do relambório, ou muda de tom ou não me darei sequer ao trabalho de lhe responder.

          1. E digo-lhe só mais uma coisa: tenho um curso de educadora de infância, além de ter filhos. Estudei psicologia infantil e lidei com muitos pais de crianças da idade dos seus. Eram habitualmente mais bem educados do que você, mas isso foi no tempo do arroz carolino dos velhos como eu.

        2. Sempre o li , aqui e noutros sítios , com evidente prazer intelectual mesmo quando (e especialmente quando) não concordo consigo .

          Mas como pai de 3 filhos entre os 38 e os 42 anos (nenhum deles com mais que o 12º ano) e avô de 3 netos dos quais 2 estão a prestar provas nestes exames , acho que V. sabe muito bem o que está a dizer e é isso que é muito grave .

          Claro que para si é “igual ao litro” e se “está cagando” mas não vou perder mais tempo na vida a lê-lo e a si o deve – a honestidade intelectual só pode ser exigida aos outros por quem a pratica .
          E V. exige muito e cada vez pratica menos .

        3. Engano seu, sr. L.L. Se observar com alguma atenção acaba por verificar que em cada dez crianças da 4ª classe, 7/8 possuem tlm.

    3. O que é grave é o seu filho com 10 anos não saber ler o que está escrito no papel, nem saber o significado das palavras “honra” e “compromisso”, ou o que é uma assinatura e para que serve. Está à espera que lhe ensinem essas coisas na universidade?

  3. Concordo totalmente.
    A noção de que os pais devem saber educar os filhos assenta num pressuposto falso: que os pais foram educados. Acontece, no nosso país, que o nível de vida subiu muito (agora está a descer, mas isso é outra história) e esta geração de pais tem acesso a bens de consumo que PARECE que são famílias de boa educação burguesa; mas não são. Andam de Audi e os miúdos usam Adidas, mas não sabem comer à mesa nem tratar os mais velhos com a deferência devida. (Não quis usar “respeito” para este comentário não ficar com um ar ainda mais classista…)
    O Nuno Crato está a fazer muito bem; há mais disciplina nas escolas, há mais stress para os alunos, que é o que eles devem ter (em doses medidas) para aprender, realmente, o que é a vida.

    1. Zé, eu também acho que o Nuno Crato está a fazer muito bem em introduzir novas regras de disciplina e de responsabilidade. Muita falta têm feito nas escolas, como qualquer professor poderá comprovar. Até o facto de voltar a haver exame no 4º ano é positivo porque reintroduz também a noção da seriedade com que deve ser encarado o ensino básico, basilar para todo o futuro ensino.

      1. Nunca tinha visto defender a existência de exames pelo seu valor como ensino moral. Julgava, na minha ingenuidade, que o objetivo dos exames fosse aferir dos conhecimentos das crianças. Agora vejo que não: no reacionário entender da Ana, o seu verdadeiro objetivo é criar stress e transmitir uma ideia de seriedade, isto é, o objetivo do exame é moral e não educativo. Interessante.

  4. Tem inteira razão. Bom seria que coisas destas fossem ditas numa dessas reportagens que todos os dias os nossos jornalistas apresentam, sobre assuntos do mesmo género, sem uma palavra de alguns pais que demonstrem possuir bom-senso e a mostrarem que, verdadeiramente, gostam dos filhos.

    1. Provavelmentesso não vai acontecer, Tiro ao Alvo. Os jornalistas querem é polémica, darão sempre mais relevo a quem está contra do que a quem está a favor de quaisquer medidas.

  5. Absolutamente de acordo na parte relativa aos pais, Ana. Já sobre o pedido de assinatura não sei; a história dos telemóveis resolve-se bem proibindo simplesmente o seu uso nos exames, sob pena, à semelhança do que acontece com o copianço, de anulação da prova. Não?

      1. qual é o mal de isso ficar consignado num papel

        Nenhum, se o papel fôr entregue às crianças e aos pais. Também nenhum, se aos pais fôr pedido para assinar o papel.
        O que tem mal é pedir às crianças para escreverem o seu nome no fundo desse papel e interpretar esse nome escrito como sendo uma assinatura que responsabiliza a criança.
        Um dia destes ainda vamos ver o Nuno Crato a autorizar putos de dez anos a ter conta bancária sozinhos e a passar cheques sobre essa conta… Ou a fazer escrituras de compra-e-venda de propriedades…

      2. O mal, Ana, muito francamente, é o carácter formal, constrangedor, atemorizador, quase criminalizador sobre idades em que quanto a mim o processo deveria ser educar na responsabilidade através – à partida -da confiança. De outro modo ter-se-á de estender um papel ao aluno por cada um dos mil processos de falcatruas possíveis numa prova. E isso não parece saudável nem garantia de um bom crescimento.

        1. É pertinente a sua observação. Mas daí, como fizeram outros, até acusar os nossos governantes de exigirem do aluno um “compromisso”, tipo juramento, vai uma distância muito grande.
          Alguns dos nossos jornalistas gostam não de criticar e assumir a crítica, mas de atiçar a fogueira contra tudo o que cheire a autoridade, mesmo que para isso tenham de recorrer a tontices. Como foi o caso.

        2. Concordo, Fernando, que a educação da responsabilidade deve ser dada através da confiança. Mas já não concordo que este papel, que nem legal é, seja de algum modo “constrangedor, atemorizador, quase criminalizador”. Vejo-o, acho que já o disse, como a assunção de um compromisso. E não vejo em que é que isso poderá traumatizar as crianças, sinceramente. Nas entrevistas que lhes fizeram nenhuma se referiu a isso sequer, a histeria foi inteiramente dos pais.

          1. Bom, Ana. Eu não vejo como a confiança precisa de um papel. Ter confiança é precisamente dispensar um compromisso desta natureza. É uma contradição, mas, posso estar enganado. A assinatura de papéis está na nossa sociedade associada a uma garantia de cumprimento que implica, no caso da falta, uma sanção. Logo, sim, julgo que tal assinatura é um constrangimento. (Não usei a palavra constrangimento)

          2. Não vejo contradição, Fernando: a confiança não precisa de um papel, o que precisa de um papel é a falta de educação. E nas escolas há muito mais quantidade da segunda do que da primeira, logo, o papel não é disparatado. E sobretudo não traumatiza nenhuma criança, já que nem sequer pode ser usado contra ela.
            (bem sei que não usaste a palavra, mas uso-a eu) 🙂

        3. o carácter formal, constrangedor, atemorizador

          Exatamente.

          Se o Fernando reparar ainda melhor, a própria existência de um exame de 4º ano tem esse caráter, eu diria mesmo que o seu objetivo é essencialmente esse: constranger e atemorizar.

          De facto, no sistema de ensino atual, em que não há um diploma da 4ª classe (como havia no meu tempo, que fiz esse exame) e em que ninguém (exceto os deficientes mentais) sai do sistema de ensino no 4º ano, não faz qualquer espécie de sentido haver um exame no final desse ano.

          Ou seja, o exame não se destina verdadeiramente a nada, a não ser a constranger, atemorizar e dar um caráter formal à instrução.

          O objetivo deste exame é moral. Não se trata de avaliar nada, trata-se de dar uma lição de moral aos alunos e aos seus pais.

    1. a história dos telemóveis resolve-se bem proibindo simplesmente o seu uso nos exames, sob pena, à semelhança do que acontece com o copianço, de anulação da prova

      Evidentemente. Bastava explicar isso tanto às crianças como aos encarregados de educação. É trivial. Tal como, aliás, se faz em qualquer exame de qualquer nível de ensino: é explicado às crianças que, se copiarem, chumbam. Não é preciso nenhum papel assinado para impôr tal norma.

  6. Infelizmente, o pobre jornalismo a que temos direito é perito em colocar-se acriticamente de microfone em punho à frente de gente, toda contente por aparecer, mas com flagrante carência de ideias/informação/algo que valha a pena ouvir dizer sobre o assunto, e é vulgaríssimo as peças supostamente informativas que passam na TV limitarem-se a isso.

      1. Um amigo meu , canadiano residente em Vancouver , costuma dizer :
        “Ponham uma câmara e um microfone em frente de uma pessoa normal e de imediato se transforma num cretino” .

  7. Concordo inteiramente com o teor do post. Já alguns dos comentários me oferecem dúvidas. Suponho que o exame tem um peso de 25% no resultado final, pelo que não consigo entender isso do chumbo. Por outro lado, não duvido de que cairia o Carmo e a Trindade se um miúdo tivesse zero na prova por, coitadinho, se ter esquecido de obedecer à ordem de desligar o telefone. Ou, por, inocentemente, como é suposto em tal idade, conversar com o colega do lado, esclarecendo pequena dúvida — até saberia a resposta, mas “com os nervos”, varreu-se-lhe…
    Um exame, para além de prova destinada a avaliar conhecimentos, é um acto formal, que deve ser assumido com responsabilidade pelos pais e pelos miúdos. Fiz o meu exame da 4ª classe aos dez anos, logo seguido dos exames de admissão às escolas técnicas e aos liceus e não fiquei traumatizado por isso. Nem os meus colegas, que então não havia stress, nem traumas, apesar da certeza de uma boa tareia em caso de reprovação.

    1. José, eu não conheço uma única pessoa que afirme ou sinta ter sido traumatizada por um exame da 4ª classe (ou do 4º ano, como se diz agora). Pelo contrário, era um marco solene – o primeiro – na vida escolar e uma espécie de ritual de passagem a uma nova fase de responsabilidades, que todas as crianças desejam porque lhes dá estatuto de “gente grande”. Por alguma razão (e não é pelo traumatismo, com toda a certeza) esse momento é sempre inesquecível, por mais exames que se faça depois. Sinceramente, não entendo nem concordo com esta aversão a exames.

  8. Isto nunca mais acaba… Santa teimosia de certas pessoas.
    UM. As crianças de 10 anos sabem muito bem o que é “honra” e “compromisso”. Nem é preciso que lhes ensinem os pais, basta que vejam televisão para a idade deles – o que quase todos fazem. (Digo para a idade deles porque os programas de adultos nem sempre… bem, adiante).
    DOIS. O compromisso escrito parece excessivo, mas provavelmente tem a função de os habituar a assumir compromissos. Não tem valor legal, isso não tem, e é impossivel que no ME não saibam isso. De qualquer maneira parece-me uma questão menor; seria mais interessante que se discutisse aqui a volta dos exames, que a esquerda radical e o insuportável Mário Nogueira consideram um retrocesso educativo. Em todos os países civilizados há exames, nos mais avançados os exames são mais terríveis ainda, e acho que estavam a fazer muita falta por cá. Têm um valor de 25% para a nota final, o que dá um certo equilíbrio com as impressões das aulas. O ensino tem de ser difícil, duro, exigir muito e puxar as responsabilidades. Assim, além de se instruir, ensina-se como é a vida – como se fosse uma vacina. E olhem que não só conservador em nada! Acho supreendente este paradigma que se criou em Portugal de Democracia e ensino à balda, sem stress, serem sinónimos…

    1. As crianças de 10 anos sabem muito bem o que é “honra” e “compromisso”. Nem é preciso que lhes ensinem os pais, basta que vejam televisão para a idade deles – o que quase todos fazem.

      Exactamente. Os programas infantis (os que são bem feitos, pelo menos) têm a preocupação de ser didácticos. Ou seja, são pensados para introduzir essas noções essenciais. Os próprios desenhos animados (e há muitos de inspiração oriental, os mais eloquentes nesse sentido) giram em torno do conceito de honra.

      Quanto aos exames, continuamos de acordo.

  9. O cara lavoira devia assinar um compromisso de honra de não poder utilizar linguagem de “pateta”-

    É chato pr’a caramba!
    Porquê não te calas?

    Quanto ao post concordo 1000000%.

  10. Subscrevo na íntegra tudo o que diz, post e comentários. E já agora, Ana, visto que sou professora, conto isto: Enquanto Diretora de Turma já avisei algumas vezes os pais que os “seus” meninos levam as aulas a comunicar por sms e que isso é incontrolável. A única maneira de resolver o assunto é não levarem o telemóvel para a escola. Ao que os pais respondem, invariavelmente e quase em uníssono que isso é impossível, porque depois ficam “incontactáveis”…
    E acho que isto diz tudo!
    Beijinho
    Isabel Mouzinho

    1. Mas fique a saber que há escolas, em Portugal, onde é proibido aos alunos levarem telemóvel para as aulas.

      1. Em todas as escolas é proibido, fique a saber também!
        Está em todos os regulamentos internos que eu conheço – e olhe que eu conheço muitos. Mas os alunos levam na mesma. Pior:os pais sabem. E acham bem.
        Como deve imaginar, não faltaria mais nada que era os professores a “revistar” os meninos. E ainda que o fizessem posso assegurar-lhe que continuariam a levar. Mais: os próprios pais (muitos) mandam sms aos filhos quando eles estão nas aulas. Bom, poderia dizer mais coisas, mas parece-me suficiente.

        1. Não há faltas no sistema escolar português? Não se reprova por faltas? Os alunos não podem ser excluídos das aulas por indisciplina? Uma exclusão da sala de aula não pode implicar a contabilização de uma falta ?
          Realmente, parece-me necessário introduzir estas dimensões. Quando eu era estudante e, brevemente, docente isso acontecia. É necessário reintroduzir.

          1. Há faltas, disciplinares sim e reprova-se por faltas, mas por causa da escolaridade até aos 18 anos, os meninos, menos “chumbados”, continuam a frequentar as aulas até ao final do ano. Não sei se consegue imaginar o que isto implica…

  11. O que mais me preocupa, a mim que sou contra e que tenho um filho que fez o exame hoje, é também esta irracionalidade dos pais. Porque a irracionalidade de alguns pais existe para a indignação das declarações, existe para a indignação da proibição do uso do telemóvel, que nem deveria existir nas mãos dos miúdos, mas existe também para exercer pressões desnecessárias, em idades onde ainda não são precisas. E existe ainda para exigir e criar ansiedades, no lugar de acompanhar e ensinar devidamente. A meu ver, podemos responsabilizar, educar e ensinar, sem levar a exames rigorosos miúdos tão novos. Para além disso, e de tudo o que já ouvi e li sobre o assunto, continuo a aguardar uma justificação válida para a pertinência do exame. Até agora, ainda não me surgiu nenhuma realmente satisfatória.

    1. Não estamos de acordo quanto à pertinência dos exames (eu defendo-os, pelas razões que já invoquei acima), mas sim quanto ao desvio de energias dos pais para indignações inúteis. Melhor seria guardarem essas energias para educar os filhos, uma coisa que fazem cada vez menos.

  12. Bem, os comentários já são muitos mas já agora…
    Concordo com os que pensam que a ideia das “declarações de honra” foi um disparate (apesar deste esclarecimento:http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=3199588 ).
    Mas subscrevo o aspecto fundamental do post. Aliás pensei exactamente o mesmo quando ouvi de manhã, na TSF, a reportagem sobre o assunto. Não posso deixar de pensar que, tal como em tantas situações, a comunicação social amplifica perspectivas que são exactamente isso: perspectivas. E esta, segundo a qual os exames têm mais de negativo que de positivo, é tão, mas tão, discutível…

    1. Olá Ana Lima
      Eu não acho que seja sequer discutível se os exames têm mais de negativo que de positivo. É claro como a água que os exames têm sempre mais de positivo. Estudar para exames faz sempre bem a crianças e a professores.

      1. “Estudar para os exames faz sempre bem”. Não necessariamente. Faz bem, consoante o tipo de estudo e o estudo para exames tem muito tendência a ser oco e baseado numa memorização massiva dos conteúdos. É o tal “marrar e despejar”, o mais fácil comparativamente ao “compreender e ser-se capaz de”. Acontece que o ensino português lembra-se de ser rigoroso e exigente na altura dos exames, coisa que devia acontecer durante o ano lectivo inteiro e que, gradualmente, fosse aumentando, consoante o avanço no percurso escolar. As crianças são levadas a uma avaliação escrita com peso de 25% na nota final, quando nem sabem ler e escrever correctamente. Se não sabem ler e escrever, a solução é impor-lhes a realização de um exame, que já por si exige essas capacidades? É assim que aprenderão aquilo que num ano lectivo não aprenderam? E mais importante, é assim que saberão interpretar e questionar, com base num raciocínio crítico, aquilo que lêem e escrevem?
        Fazer com que uma criança aprenda não passa, na minha opinião, pela imposição de informação e de “rituais” formais e rigorosos de avaliação. Há que se incentivar o seu gosto por aprender e quando tal se consegue, consegue-se tudo o que de melhor ela pode dar. E é isso que acho que falta no ensino português: motivação, estimulação. Estes exames, no contexto educacional em que nos inserimos, só servem para fazer uma triagem de alunos na passagem da primária para o 1º ciclo, sendo mais fácil não se apostar tempo e recursos naqueles que realmente precisam, naqueles que vão ficando para trás.
        A escola pública é de todos e não somente daqueles que se adaptam a um sistema pontualmente rígido e formal. “Faz-lhes bem para verem como é a vida!” A vida é baseada num sistema capitalista que escraviza uma maioria (que se deixa escravizar por falta de conhecimento ou por falta de vontade de o ter) para favorecer uma minoria, uma elite. Ninguém parece importa-se com isso, talvez porque muita gente carece de capacidade para percepcionar, interpretar e formar juízos construtivos e críticos acerca do mundo que a rodeia. Essas capacidades deveriam são adquiridas primeiramente através da escola, mas não são, e não são porque na escola estuda-se para um exame, o somente necessário para um exame.

        1. Lembro-lhe, Gehenna, que o peso do exame é de 25%. O que significa que 75% ficam para a avaliação contínua, onde não basta estudar por alto e despejar de memória o somente necessário para um exame.

          1. Na escola, os exames são considerados muitas vezes como um objectivo a ultrapassar e não como um momento de avaliação de 25% de peso.
            Olhe-se, então, para as médias nacionais dos exames dos anos que já tinham exame. Médias negativas na maior parte das disciplinas (alguma coisa está mal, não?). As médias de exames nas escolas têm influência no acesso a recursos financeiros e humanos, que segundo a (i)lógica, quando melhores forem os resultados, maior acesso a esses recursos terão as escolas. Quanto melhor forem os resultados, mais posições as escolas ganham nos rankings. No meio disto tudo, será que quanto melhores forem os resultados, melhores serão os alunos? É discutível. 25%, por pouco que possa parecer, pode influenciar uma nota de um ano lectivo inteiro. Conheço alguém que, no 9º ano, teve nota negativa no exame de Português por umas décimas, décimas que lhe foram descontadas num número excessivo de palavras na composição. Os exames do 9º ano valem 30% (os do 4º passarão a valer o mesmo para o ano). A nota final dessa pessoa baixou um valor.
            O meu ponto é: será que antecipar a realização de exames fará com que os resultados dos nossos estudantes melhorem posteriormente? Ou será que a própria estrutura do ensino não está tão sólida e tão adaptada aos tempos que correm quanto isso? As pessoas acreditam que os exames melhoram as capacidades de um aluno, pelo que tenho lido. Dizem que vão para os exames sem saberem ler nem escrever e que, portanto, necessitam desse elemento de avaliação de 25% para o saberem. São 25%, pois são, mas as pessoas fazem dele um bicho de sete cabeças para os alunos. Já dizia Einstein “Questione a capacidade de um peixe de trepar uma árvore e ele pensará para o resto da vida que é estúpido”. Frequento o 12º ano e tenho colegas que mesmo sem se aperceberem, rebaixam-se ao referirem-se a alunos com médias elevadas como “os inteligentes”. E quando sabem que aos “inteligentes” algum teste lhes correu menos bem, acreditam que vão fracassar no mesmo teste, como se fossem menos dotados.
            Deixe-me dizer-lhe, Ana, tenho professores que, pela idade que deduzo, chegaram a ter este tipo de provas que estão a ser re-introduzidas no ensino. Têm cursos superiores, têm acções de formação e não sei mais o quê. Para explicar uma dúvida a um aluno não conseguem se não tiverem o apoio do manual com eles, e se não tiverem mesmo, baseiam-se numa retórica faliciosa, cheia de voltas e reviravoltas, acabando por nada explicar. Inteligência e capacidades não as têm tanto assim, no entanto, têm os diplomazinhos todos.
            Acho que o nossa escola pública está atrasada e como se não bastasse, está constantemente a ir buscar métodos ineficazes do tempo da maria cachucha, como se por milagre, dessem resultado. O objectivo disto tudo é apresentar resultados à custa da qualidade de ensino, do incentivo à compreensão e ao gosto pela aprendizagem: “Veja-se que temos menos analfabetos!”. E os analfabetos vão passando e chega-se ao 12º ano, onde há gente que não sabe ler e interpretar um texto, que não sabe associar conceitos (memorização, em muitas cabeças, é equivalente a descartar a ideia de que é preciso capacidade de associar coisas), que não tem espiríto crítico, que não tem iniciativa própria, que não tem interesse pela actualidade quer nacional quer internacional, porque acha que não lhes diz respeito, que facilmente aceita ideias já pré-concebidas sem as questionar e quando se depara com uma troca de ideias, não se apercebe nem aceita a contradição das suas.
            Estamos a criar máquinas consumidoras inteligentes o suficiente para que os seus objectivos de vida sejam arranjar um bom emprego, consumir e ganhar uma boa reformazinha. Ensina-se a ler e escrever, mas não se ensina a questionar o que se lê e o que se escreve. Ensina-se métodos matemáticos, mas não se ensina o interesse e a importância que eles têm na vida quotidiana, não se demonstra a sua real aplicação. Ensina-se os nomes dos reis e as datas de certos acontecimentos, mas não se ensina a interpretá-los (se se ensinasse, não estávamos constantemente a repetir erros do passado). Já Hannah Arendt dizia: “The aim of totalitarian education has never been to instill convictions but to destroy the capacity to form any.”

          2. Gehenna, lamento que tenha maus professores. Eu tive a sorte de, no geral, os meus terem sido muito bons. E tanto os seus como os meus fizeram esse tipo de provas quando eram estudantes. Assim, o que quero dizer-lhe é que não pode generalizar e muito menos atribuir a provas que se fazem em idade precoce a má qualidade profissional futura.
            Mas quero dizer-lhe também que percebo o que diz e até concordo consigo quando diz que não basta ter “os diplomazinhos todos” para se ser um bom professor. Claro que não. É preciso ter vocação, arrojo, persistência, coragem, paixão, paciência… poderia estar aqui mais meia hora a nomear as características de um professor ideal, mas a todas elas se acrescenta uma que é imprescindível nos dias de hoje, mais do que nunca: muita saúde. Confesso-lhe, muito sinceramente e sem qualquer ironia, que não queria ser professora numa escola portuguesa nos tempos que correm nem pelo triplo do salário mais alto de um professor.

          3. Confesso que me posso ter precipitado, mas sim, que existem bons ou más professores, existem (e concordo que ser professor na escola pública actualmente não é das coisas mais estimulantes). Não estava a atribuir a culpa da falta de profissionalismo aos exames numa idade precoce, estava apenas a questionar, com exemplos, se realmente serão a solução para o insucesso escolar. Porque no plano geral, o que falta aos alunos é fé neles mesmos e no sistema que os educa. Somos alunos desmotivados, despreocupados, no geral, fazemos o mínimo dos mínimos (é costume os alunos fazerem cálculos para saberem os mínimos que precisam de tirar em testes e exames para passarem). Eu própria admito que me desmotivo facilmente, embora tenha um tremendo interesse em ampliar os meus conhecimentos. Não posso dizer que são somente os exames os causadores deste desempenho medíocre dos estudantes, mas posso dizer, porque sou estudante e sinto-o, que todo o sistema, em prol de uma edução supostamente justa e uniforme (exames iguais para todos, em circunstâncias iguais, são um exemplo), leva a uma supressão da individualidade dos alunos, a uma opressão das suas potenciais capacidades. Acho o nosso método de ensino pouco espontâneo. E na altura dos 9/10 anos, espontaneidade é o que não falta numa criança. Para quê obrigá-la, já, nesta altura a prepar-se para um futuro carente de individualidade, carente de um toque mais humano, mais original, mais pensador e reflexivo? Porque não ensiná-la a interpretar e compreender esse futuro, para mais tarde decidir como será o seu? Porquê não deixá-la encontrar primeiro os seus gostos na escola, as suas capacidades, para só assim poder agarrar-se a objectivos e optimizar os seus resultados?
            Não sei se está familiarizada com o método da chamada Escola Moderna. A Escola Moderna defende, nas suas variadas pedagogias, que uma criança precisa de uma educação mais prática, mais contactável com a realidade, permitindo que ela experience por si mesma determinada situação e que se interesse em compreendê-la. Simpatizo bastante com a pedagogia de Célestin Freinet, que defende uma instrução que incentive o aluno a ser socialmente activo. Definiu um conjunto de invariantes pedagógicas, sendo que algumas enumero aqui:
            – O comportamento escolar de uma criança depende do seu estado fisiológico, orgânico e constitucional;
            – A criança e o adulto não gostam de imposições autoritárias;
            – Ninguém gosta de trabalhar sem objectivo, actuar como máquina, sujeitando-se a rotinas nas quais não participa;
            – É fundamental a motivação para o trabalho;
            – A escola cultiva apenas uma forma abstracta de inteligência, que actua fora da realidade e fixa-se na memória por meio de palavras e ideias;
            – A concepção actual das grandes escolas conduz professores e alunos ao anonimato (a tal falta de individualidade que mencionei);
            – A democracia de amanhã prepara-se pela democracia na escola. Um regime autoritário na escola não seria capaz de formar cidadãos democratas;
            – Toda atitude imposta é paralisante;
            – A criança prefere um trabalho individual numa comunidade cooperativa.

            Se formos ver, os professores que nos ficam na memória são aqueles que nos deram voz. Tive um professor de Geografia no ensino básico que, em vez de dar a matéria convencionalmente, fazia com que os alunos chegassem até ela, apenas guiando o seu raciocínio. Ele fazia perguntas, que iam sendo respondidas aqui e ali dentro da sala. Eram as nossas respostas que arrecadavam outras e que, no final, chegavam às conclusões pretendidas. Ele desabafava frequentemente acerca do desagrado que lhe provocavam os testes, que era obrigado a fazer periodicamente. Não tenho Geografia há 3 anos, no entanto, lembro-me bastante bem dos conteúdos dados, enquanto disciplinas que tive no ano passado e deixei de ter este ano, estão completamente “apagadas”.
            O que estou a querer dizer é que existem alternativas e que não faz mal perdermos tempo a pensar nelas. Na minha opinião, os 25% ou 30% ou seja lá que percentagem for a de um exame, servem para distorcer a realidade educacional que temos e não propriamente para avaliar as capacidades de um aluno, que durante um ano inteiro lectivo nem sequer é levado a crer nas suas próprias potencialidades.

          4. Antes de mais, dou-lhe os parabéns por mais um excelente comentário (que proponho, desde já, para comentário da semana). A qualidade do seu português, somada à sua capacidade de pensar e de ter opiniões próprias e ainda à de saber exprimi-las com convicção e clareza, levam-me a concluir que afinal não pode ter tido tão maus professores. Mesmo admitindo que quase todo o mérito seja seu, algum bom trabalho eles hão-de ter feito. 🙂 É um privilégio ter aqui alguém da sua idade, que vive o problema por dentro e que o analisa de um prisma a que é pouco habitual termos acesso, sobretudo com essa lucidez.
            Dito isto, louvo o seu entusiasmo por um ensino mais personalizado e mais criativo, e não posso deixar de dar-lhe razão. Uma sugestão: já que o tema lhe interessa tão apaixonadamente, por que não dedicar-se ao ensino, no futuro? É de gente assim que as escolas precisam, como sabe. Quanto aos exames, não defendo nem acredito de forma nenhuma que eles resolvam as falhas que o ensino actual tem. O que digo é que introduzem uma noção de responsabilidade que não faz mal nenhum aos alunos, pelo contrário. Mas estou de acordo em que o ensino ao longo do ano deve ter, idealmente, essas características que Freinet enumera para ser o mais personalizado e estimulante possível. Acontece que, ao contrário de si (porque não tenho a sua idade), já estou mais descrente e mais pragmática hoje em dia. Mas que isto não sirva para desanimá-la, ok? Já me bati por muitas utopias e ainda hoje as considero essenciais à vida. Volte sempre, será muito bem-vinda.

          5. Oh, muito obrigada pela felicitação, pelos elogios e pela motivação! Confesso que acabo por ficar meio sem jeito para responder a coisas destas. :p
            Já me apercebi que os adultos chegam a partilhar essa espécie de pensamento maligno de que as utopias são coisas bem lá distantes, pelas quais não vale a pena lutar. Sempre foi assim, afinal. Sempre houve esta luta com gerações mais novas, mais idealistas. Acho que faz parte do processo: os adultos estão cá para nos fazerem assentar os pés na terra e nós estamos cá para os fazer voltar a sonhar e a acreditar. Precisamos uns dos outros para irmos sobrevivendo, não é verdade? 🙂
            Quanto ao futuro… Estou com as ideias bastante divididas. Ciência Política anda nos meus pensamentos, mas como frequento o curso de Ciências e Tecnologias, há outras áreas que me piscam também o olho. A verdade e, tocando agora no tema do parágrafo acima, é que prosseguir estudos na área da Política entusiasma-me bastante. Só que o que eu quero é a Política pura, verdadeira e honesta e não a Política dos oportunistas e dos corruptos. Parece que todos aqueles que têm boas intenções ou são obrigados a colaborarem com um sistema que abominam ou então desistem, o que é triste. E, bom, não posso negar, eu penso e repenso nisso.
            De qualquer modo, agradeço a sugestão. Pode parecer que não, mas foi motivante tê-la lido.
            E por cá por estes lados, estarei sempre, pode apostar! 🙂

  13. muito sinceramente, não acho que seja a assinatura de um papel que dê mais responsabilidade ou ética a um aluno de dez anos, Ana.

    importante é que os professores no dia a dia escolar, façam com que eles interiorizem essas responsabilidades e valores e que a escola seja de facto um lugar onde se ensina e aprende e não um lugar “onde se tem de estar”, porque é obrigatório.

    o uso do telemóvel por crianças desta idade é uma questão transversal, já que é da total responsabilidade dos pais. o professor pode e deve proibir o seu uso nas aulas.

    1. Luís, não pode (nem deve, quanto a mim) pedir-se aos professores que substituam os pais na educação das crianças. O papel da escola é importantíssimo na formação de uma criança, é claro, mas hoje em dia os professores vivem a remar contra uma maré que lhes consome todas as forças e os impede de fazer aquilo que é realmente o seu papel: ensinar.

      Volto a dizer: parece-me totalmente irrelevante esta história da assinatura de um papel que nem valor legar tem. O que me fez escrever este post foi a atitude dos pais indignados, que lhe conferem uma importância que não tem e vêm clamar contra o famigerado “traumatismo” dos seus pequenos infantes intocáveis. Tão intocáveis que nem sequer os proibem de levar um telemóvel para um exame.

      1. eu nunca pedi isso, Ana.

        não quero que os professores me substituam na educação dos meus filhos, mas quero que eles tenham um papel activo na sua formação, não é por acaso que os nossos filhos passam quase mais tempo na escola que em casa…

        1. Bem sei, passam quase mais tempo com os professores do que com os pais. O que, infelizmente, contribui bastante para a demissão de muitos pais do seu papel de educadores e empurra os professores para uma tarefa hercúlea e muito inglória, já que depois lhes tiram o tapete da autoridade.
          Não digo que é o seu caso, Luis, evidentemente. Mas é o de muitos pais, e são sempre esses os primeiros a manifestar-se contra os “traumatismos” que atribuem à escola.

  14. As crianças e os adolescentes até aos 18 anos precisam de telemóveis para quê, já agora?

    É isso mesmo Ana Vidal.
    A imagem transmite tudo aquilo que escreveu. Está perfeita. A sua opinião é perfeita.

    Tanta gente a queixar-se que não tem dinheiro, nem para comer, que os ordenados são baixos! Mas para telemóveis arranja-se! Às tantas o puto nem o pequeno almoço tomou porque não há dinheiro (!), mas o telelé no bolso carregado com saldo, esse não falha!

    Martinha

    1. Martinha, há neste país mais telemóveis do que cidadãos (incluindo crianças, naturalmente). Um caso de sucesso comercial de tal ordem que é único, ao que parece, em toda a Europa. No entanto, por mais estranho que pareça isto passa-se no mesmo país que tem carências básicas importantes (e crescentes, infelizmente).
      O que diz este facto de nós, portugueses?

  15. Sou a favor dos exames do quarto ano.
    Mas absolutamente contra esta palhaçada engendrada por mentecaptos.
    O que leva esta gente a desconfiar, da legalidade dos exames efectuados nas escolas que os alunos frequentam?
    A quem serve esta fantochada mediática em que transformaram os exames do quarto ano?
    Quais os custos desta palhaçada, em termos de transporte e de impedimento das aulas, a alunos de outros anos?
    Tenham vergonha da forma como expõem estas crianças, aos vossos desejos de mostrarem serviço.
    Ainda se tivesse algum proveito concreto.

    1. Mas isso não é novidade nenhuma! Não me lembro de ter feito um único exame nacional nas escolas e liceus que frequentei, o que me parece perfeitamente lógico: com a luta por um bom lugar no ranking anual, cada escola tende a dar as melhores notas aos seus próprios alunos.

  16. Já quase tudo foi dito, mas porque me parece que a assinatura dum papel para cumprir um dever tão simples e insignificante poderá vir a ser contraproducente no futuro dessas crianças. Quem é que nos diz que algumas dessas crianças não se sentiram importantes por terem de assinar um papel se lhes quiseram tirar o telemóvel ?” Como vai ser no futuro? Vão exigir um papel ao pai à mãe, etc.. Não teria sido mais fácil como alguém já disse, quem desobedecer apanha zero. Ou será que quem neste caso deveria dar o zero tem ou teria problemas? Nós somos um País de problemas quando se trata de justiça, parece que há uma grande falta de coragem para não lhe dar outro nome.

    1. Nós somos um país de problemas, como diz, mas também muitas vezes de falsos problemas como é este caso. Como se não tivéssemos suficientes dos verdadeiros…

      1. Cara Ana

        Infelizmente este falso problema é apenas um dos falsos problemas que corroem a nossa sociedade enquanto os verdadeiros são empurrados para debaixo do tapete, que é como quem diz para os corredores e os esconsos dos gabinetes dos des-governantes e da justiça, porque não convêm tomar atitudes.

  17. Senhores,

    Tenho um filho no 4º ano que fez o exame de Português, e tem apenas 8 anos, estou assim habilitada a dizer:

    O meu filho tem 1 telemóvel que a tia lhe deu no Natal, mas não o usa, porque não precisa ligar a ninguém, e muito menos na escola. Achei caricato que me tenham alertado para o fato de a prova lhe ser zerada se ele fosse portador de telemóvel – pensei para mim: pensam que sou tolinha, claro que ele não sai de casa com qualquer aparelho – nem precisam alertar.

    A confusão que a prova me provoca, alem do gasto de papel (20 e tal páginas/criança), é o aparato à volta dela, a mudança de escola para, o dinheiro gasto face ao eventual beneficio, num país na banca rota.

    1. Não sabia que a prova tinha vinte e tal páginas, também me parece um exagero e um gasto desnecessário de papel. Quanto à mudança de escola, acho-a lógica, como já disse ali atrás.

  18. Tenho uma filha com 9 anos, que está no 3º ano. O ano passado, fez os testes intermédios. Tanto eu em casa, como a professora na escola, preparámo-la para os mesmos. Por norma, nós enquanto pais “sofremos” mais com estas situações do que as crianças. É normal a preocupação dos pais (por vezes exagerada, admito) com os seus filhos, o nervosismo e a apreensão, mas não devemos deixar transparecer isso para as crianças. Devemos sim, explicar-lhes o que vão fazer, a responsabilidade que acarreta e transmitir-lhes confiança e determinação.
    Relativamente às provas, não concordo com o peso das mesmas na avaliação global. Até mesmo uma criança que tenha por hábito obter boas notas, pode descarrilar num exame ou prova deste género, por nervosismo, bloqueio…E por isso, não acho justo que um único exame comece a ter um peso cada vez maior na avaliação, desvalorizando o trabalho dos alunos ao longo de um ano inteiro. Já quanto ao objectivo, parece-me contraditório afirmar que os alunos devem passar sabendo, quando na prática isso não acontece. Penso que ainda se aplica em muitas escolas a política de dificultar ou mesmo evitar as reprovações.
    Na turma da minha filha, por exemplo, existem pelo menos duas crianças que, pela lógica, já teriam ficado retidas num dos anos anteriores. No entanto, até agora, têm passado sempre. Porque será que esta preocupação só surge na transição do 1º para o 2º ciclo? Porque é que, até aí, permitiram que alguns alunos passassem sem saber?
    Para mim, era mais aceitável que, embora realizadas com seriedade e responsabilidade, servissem como estudo meramente estatístico para avaliar os conhecimentos dos alunos e a eficácia dos métodos de ensino que estão a ser aplicados, mas não mais do que isso.
    Quanto ao “termo de responsabilidade” que os alunos tiveram que assinar, é óbvio que o mesmo era desnecessário, mas não acredito que isso traumatize as crianças. Ainda no outro dia a minha filha foi fazer uns exames e a funcionária da clínica pediu para ela assinar as credenciais. Claro que eu estava lá com ela, mas eles acham engraçado e sentem-se mais “adultos” e “importantes” por estarem a assinar um documento como gente crescida. Além de que, nesta idade, com inteligência para compreender tanta coisa (até mesmo aquilo que não devem) também compreendem perfeitamente o que lhes está a ser pedido que assinem.
    Pelo que pude perceber, embora a realização das provas não tivesse sido planeada e organizada da melhor forma, apesar da falta de meios em algumas regiões, apesar destes documentos inúteis que poderiam e deveriam ser substituídos pela advertência verbal, tanto dos pais, como dos professores, como dos responsáveis pelas provas, não me parece que alguma criança tenha ficado traumatizada.

    1. Marta, o peso do exame na avaliação global é de 25%… parece-lhe assim tão exagerado? Além disso, não acredito que algum aluno deste nível seja “chumbado” por um exame que correu mal, se a avaliaçõa contínua foi boa ao longo do ano. Isto tem sido repetido à exaustão pelos responsáveis das escolas.

      1. Este ano 25%, para o próximo ano 30%…Daqui a pouco dão tanto valor a uma prova quanto a todo o trabalho feito ao longo do ano. Parece-me exagerado, sim. É óbvio que não é uma má nota na prova que vai chumbar o aluno, mas é suficiente para alterar a avaliação final.

  19. Quem tem o dever e a obrigacao de estar ciente da regra, lei e normas de uma escola , acatar e se responsabilizar por ela a partir do momento que se coloca um filho na escola, sao os pais.

    Quando mandamos filhos para a escola, mandamos educados.

    Educacao , moral , carater e comportamento, vem do berco.

    Os filhos sao nada mais nada menos que o reflexo, espelho dos pais e do ambiente ( lar ) onde vivem , em que sao criados, instruidos para o bem, ou nao .

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