Tavira, Verão de 2013


Pedro Correia,

 

Rolas, andorinhas e pardais, à vez, vêm beber à borda da piscina. O calor é tanto que, mesmo antes de a manhã chegar a meio, só conseguimos estar à sombra: à falta de guarda-sóis, servem as palmeiras, substituindo-as com vantagem. Miúdos de várias nacionalidades, esquecidos por momentos dos gadgets electrónicos, brincam como sempre as crianças brincaram: correm, saltam, riam, jogam à bola, ensaiam movimentos ritmados de natação. “Agarra-te aos pelos do peito do pai”, diz alguém. E todos riem.

 

Duas senhoras exercitam a antiquíssima arte da conversa, ao recato da sombra: “Então a sua menina como está?”; “Muito bem, por enquanto muito bem.” Tão português, tão cauto e previdente, este “por enquanto”…

Mais adiante, uma jovem abre-se em confidências a uma amiga em tom suficientemente elevado para ser escutada nas proximidades: “Ficou chateado por eu estar na boa com ele…”

Eles e elas aparecem cada vez mais tatuados. Não tatuagens discretas, mas tão espampanantes quanto possível, em tentativas de imitação do jogador Raul Meireles e da sua mulher Ivone, presenças constantes nas páginas da imprensa tablóide. Um dia, não muito distante, haveremos de lembrar esta absurda moda como hoje lembramos os longos cabelos frisados e os bigodes à Obélix dos anos 70, paradigmas da breguice tuga.

 

O calor tudo dissolve: obrigações inadiáveis, ponteiros do relógio, preocupações que sobraram dos meses precedentes. Aguardamos por ele todos os anos – mas desta vez já o ansiávamos com alguma impaciência após a maratona de um Inverno que parecia não ter fim.

Como os primeiros figos do ano – as saudades que eu já tinha deles. Logo à noite, na Noélia, virá para a mesa um arroz de limão com corvina e amêijoas: carne não entra nestes menus algarvios.

Muitos franceses, alguns ingleses e alemães, mas desta vez quase não vejo espanhóis: na vizinha Andaluzia o desemprego já se situa nos 37% e há dois terços de jovens sem trabalho.

Apesar da crise – ou por causa dela – a Olá lançou cinco novos sabores do seu Magnum para este Verão. Falta-me só experimentar um. Até ao momento, o meu favorito é o de merengue e frutos silvestres.

 

 

Basta dar uma olhada em redor para se perceber que o livro electrónico vai ganhando terreno acelerado ao formato tradicional – serve, desde logo, para ocupar menos lugar na mala. Conservador, prefiro a leitura em papel: acabo de ler Amantes e Inimigos, um delicioso volume de contos de Rosa Montero.

Quatro estrangeiros em redor de uma mesa no bar junto à piscina: todos em silêncio, cada qual mergulhado no seu iPad. Dizia o resmungão Nelson Rodrigues, numa das mais saborosas frases que conheço em língua portuguesa: “A televisão matou a janela.” Parafraseando o mestre, concluo que a vida virtual vai matando a vida real.

Um brinde desta fresquíssima sangria branca às senhoras que vão praticando a arte da conversa. Elas não sabem, mas são já uma espécie em vias de extinção.

22 comentários em “Tavira, Verão de 2013”

  1. A crise tem uns aspectos muito curiosos, como seja a proliferação exponencial desse bem de primeira necessidade designado tatuagem.

  2. Que inveja, caro Pedro. Ainda ontem falava com um grande amigo daí, que me perguntava se este Verão rumava ao Sul por uns dias. É incerto, e com pena minha – mesmo nestes dias de calor medonho (e Tavira é bem mais quente que a minha aldeia no Alentejo) gostaria muito de aí passar.

  3. Sorriso.

    Belo texto Pedro. As férias; férias de tudo menos de Nós, dos Nossos, e assim sempre, inesquecíveis.

    O cheiro e tacto das páginas de um livro, novo ou velho; sentires sentidos, únicos.

    Boas Férias.
    Forte Abraço.

    1. De facto esta ria faz jus ao nome, Eduardo. Espero escrever dentro de poucos dias sobre a Casa do Polvo, em Santa Luzia: se há petisco que eu aprecio é este mesmo.
      Aqui as férias são sempre óptimas.
      (Obrigado pelas suas palavras.)

  4. Pegando na questão do “ereader Vs livro”, fiquei a pensar na última vez que fui à praia – também aí por esses lados (praia do Cabeço).
    Chegando cedo à praia e levando de arrasto filho e irmão mais novo, por lá ficamos até o meio-dia se aproximar; começaram então as disputas geracionais. Eu, arrumando as coisas e já pensando no peixe que ia almoçar, acompanhado de um belo Branco fresco, e os miúdos que me foram massacrando a paciência, da praia ao carro, pedindo para ir ao McDonald’s (Olhão).
    Digamos que o almoço foi um manjar do mar (Vela 2 – Tavira), acompanhado não só de vinho como também de amuos.

    1. Os amuos (diz-me a experiência de pai) passam e a semente do bom gosto fica, CeC. Tem graça a coincidência: ainda há dias estive a jantar no Vela 2: é um dos meus clássicos da gastronomia em Tavira.

  5. Na praia é que se está bem. Boas férias, vai dando notícias como estas para refrescarmos todos. E até… sábado (espero que já estejas por cá)!

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