Talvez com mais umas 50 propostas, uns robalos e muitas notas de rodapé


Sérgio de Almeida Correia,

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 (foto DN/Reuters)

É legítimo que quem ganhe eleições tenha pretensão de formar governo. Já não é legítimo que quem ganhe eleições sem programa eleitoral ou com o programa das anteriores eleições faça depois o pino e se predisponha a incluir no Programa de Governo que irá submeter ao parlamento, caso venha a conseguir formar um executivo apresentável, as medidas que sempre rejeitou e que durante toda a campanha eleitoral afirmou serem perfeitamente inexequíveis porque colocariam em causa a retoma das finanças públicas e em risco a recuperação nacional e a reputação internacional do país. 

É legítimo que quem tendo perdido eleições admita vir a encontrar uma solução governativa se chamado a tal pelo Presidente da República. Já não é legítimo que essas iniciativas sejam tomadas antes mesmo do vencedor das eleições perceber que deixou de ter condições para se manter no poder e apresentar num prazo razoável a solução governativa estável que o Presidente da República pediu nas suas orações.

É legítimo que os partidos que representam mais de cinquenta por cento dos votos dos eleitores que votaram contra as soluções propostas pela coligação vencedora não estejam dispostos a viabilizar, contra a vontade dos seus eleitores que nunca foram confrontados com essa possibilidade, uma solução de governo da qual faça parte essa mesma coligação. Já não é legítimo que as soluções propostas desrespeitem a vontade dos eleitores expressa nas urnas em função dos programas eleitorais apresentados.

É legítimo que quem tenha uma solução de governo para o país a apresente ao Presidente da República. Já não é legítimo que o Presidente da República queira forçar uma solução de governo da sua conveniência.

É legítimo que os partidos conversem, se reúnam, discutam, apresentem soluções. Já não é legítimo que ao mesmo tempo se esteja a negociar em várias sedes soluções opostas.

É legítimo, à semelhança do que já aconteceu em qualquer democracia civilizada, estável e consolidada do Velho Continente, qualquer governo maioritário saído do quadro parlamentar, ainda que deste não faça parte o partido ou a coligação vencedora das eleições. Já não é legítimo falar em golpe de estado constitucional, acenar com papões ou fazer de conta que as soluções que vêm da Europa só nos convêm quando não coloquem em causa as nossas próprias pretensões de exercício do poder.

É legítimo que todos queiram chegar ao poder ou, aqueles que já lá estão, queiram conservá-lo. Já não é legítimo que isso seja feito de forma tão pouco séria, recorrendo a estratagemas variados e argumentos opostos àqueles que sempre utilizámos. 

É legítimo que todos os que reúnam condições se queiram candidatar ao lugar que está vago, há anos, na Presidência da República. Já não é legítimo que perante as condições tão graves que o país atravessa haja quem se entretenha a apresentar candidaturas presidenciais, tendo tido antes todo o tempo do mundo para fazê-lo, sem que ao menos se vislumbre uma solução provisória no horizonte que possa conferir um mínimo de normalidade à vida dos portugueses.

 

São muitos os peixes podres, os plásticos, as latas, os detritos que agora vêm à superfície. Mas tudo o que está a acontecer na sequência das eleições de 4 de Outubro era demasiado previsível para qualquer pessoa séria e medianamente informada. Só para quem estivesse de má-fé, e publicamente fosse dizendo o contrário para ganhar votos, audiências ou intenções nas sondagens, ou então para quem acreditasse piamente nas propriedades sobrenaturais e anticancerosas da água benta é que não. Se virmos bem as coisas, tudo se resume, há duas décadas e uma vez mais, a um problema de seriedade na política. Ou de falta dela. De montante a jusante.

0 comentários em “Talvez com mais umas 50 propostas, uns robalos e muitas notas de rodapé”

  1. Ontem foi interessante ver Paulo Portas, completamente, aziado na conferência de imprensa. Parecia que lhe tinham tirado os 40 milhões que ele tinha na Suiça…

    Também foi giro ver Passos Coelho a falar de improviso e Paulo Portas a ter 2 papeis por onde se estava a guiar.

    Parece que o Costa está a conseguir o objectivo: levar o governo a ficar sobre o seu controle, contra Paulo Portas.
    Quando realizou o golpe de estado em 2013, ninguém perguntou porque razão o CDS ganhou quase 84% dos lugares nos ministérios… Agora temos o líder do CDS em pânico, por o seu pote cheio de ouro estar em perigo.
    Vamos voltar a ter 6 carrinhas brancas sem matrícula à porta do gabinete de Paulo Portas, no dia em que o presidente nomeie outro governo, tal como aconteceu em 2005? E as fotocopiadoras a gastarem mais de 100000 folhas e centenas de toners em menos de 24 horas? E contratos a desaparecerem sem deixar rasto?

  2. Costa não é de confiança. Quando ainda bem de fresco tinha dito que eram meros partidos de protesto, faz agora do PCP e BE parceiros para o levarem ao colo. Anda tão perdido nos atalhos do seu labiríntico carácter que para salvar a própria pele até num saco de pregos em brasa era capaz de se montar.

    1. ..opá, é melhor não ir por aí! confiança, com o irrevogável, estamos a brincar não? De qualquer maneira não deverá haver medo para a coligação, porque o PR antes de ser português é do PSD

    2. Sem dúvida.
      A honra e o carácter andam pelas ruas da amargura.

      … “Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.”
      – Abraham Lincoln –

  3. Eu não quero saber deles. Quero é saber da miséria que se vai instalar no nosso País. Sofremos durante 4 anos e agora ainda ficamos mesmo sem nada. A consolidação orçamental ainda não está feirta e estamos reféns da TROIKA. Somos um País que não produz para se autosustentar. Como resolver isto? è a estragar o pouco que foi feito.
    Tenham dó. Não acredito nas boas intenções do PCP e dfo Bloco de ESquerda.

  4. … É hilariante assistir à mudança de tom do discurso e da postura dos “pombinhos”, que estão apavorados com a hipótese de perderem o “poleiro”!…

    1. …olhe que estão a sorrir, ao verem a ‘linda falua, que lá vem, lá vem’, com Catarina e Jerónimo em atrelos de baraço á Locomotiva xuxalada-ressabiada com galos de chavelho pelas arrochadas da noite de 4 de Outubro, a evacuar chorrilhos de gás de escapes que, ao primeiro odor, não é nada parecido com …Alfazemas.

      O escriba deste post usa o “tag” -“país de opereta” com algum acerto, pois nota-se que não faltam “buffones” – por exemplo, como aquele, propagandeado pelo “Espesso”, uma das trombetas da xuxa prensa da capital, a falar, naquela pose de “donos disto tudo” á Reuters, ao FT, á France Press…. para (não se ria..) “sossegar a Europa”, que o vertice xuxa não faz por menos!!!
      No próximo sábado, um dos títulos do “Espesso” sera certamente “O FMI já não vem”!

      Boa Noite e Boa Sorte

  5. Vai bem exposto. Mas verifico que o SAC tem de deixar de pensar no passado. Estamos diante de uma nova realidade não só em Portugal como no mundo, e será imparável.
    Esta coligação faz lembrar as beatas que se queimam da seguinte forma: Agarram no tercito e colocam-se de joelhos com caras muito desgostosas e agastadas a pedir piedade para com os pecadores e a conversão dos mesmos. Mas logo que os pecadores se sentam a seu lado fogem a sete pés para junto do pároco a dizer aqui d´el rei que atrevimento destes conspurcados que querem sentar-se na casa do Senhor, provavelmente do senhor Cavaco.
    Acontece que nesse caminho as beatas que se queimam vão mancas e sairão cochas.

    Já agora, recordo-lhe que em matéria de peixes já não há sardinhas com abundância. E como o carapau está pela hora da morte temos de começar a ser humildes e poupados, habituando-nos a comer lagosta. Com lagosta sempre vamos tendo a garantia de não haver quotas.
    Mas nós não, queremos tudo à grande e à francesa. Ele é sardinha, ele é carapau, ele é robalos, ele é pezinhos de rã de coentrada. Olhe, uma salada que até inclui o bacalhau que é uma espécie de ovas de esturjão.

    Cá para mim tudo isso acabou. A partir de agora vai ser só caviar Beluga, Osetra e Sevruga.

  6. É legítimo que Portugal seja cabeça de série no Europeu de 2016 porque ficou em primeiro lugar no grupo. Não é legítimo que uma coligação de Dinamarca + Sérvia + Albânica lhe tire o lugar porque juntaram os pontinhos depois de se saberem os resultados finais.

    1. Piadola fraca. Quer uma mais consentânea com o que aconteceu? Aqui vai. É uma injustiça o Benfica ganhar o jogo ao Porto e no final do campeonato perdê-lo. Ou vice-versa, para o caso não interessa. Será que o vencedor do jogo merece ser campeão?

    2. Olhe que há vida além do futebol.

      Nem as regras da FIFA não são os dez mandamentos nem o sr. Blatter é Jesus Cristo.

      Acontece que, de acordo com as regras isto é possível. E já devia saber as regras quando foi votar.

    3. È conveniente saber que não é o PR a nomear o governo, mas (como diz a contituição), que o governo advem da assembleia da republica, com os votos de quem foi nomeado pelo povo.
      Convem saber o que se está a dizer.

    4. Espectacular comparação.
      Se não tem melhor argumentação porque comenta?
      Sabe o que aconteceu há semana na Austrália?
      E na Dinamarca?
      Não que eu defenda que deva ser o Costa a formar governo, mas é legítimo constitucionalmente.
      Embora ilegítimo politicamente, mas isso tem que ver com a tradição de cada país.
      E acha que o Passos pode fazer em minoria o que fazia em maioria?
      Acha-o capaz de governar em minoria?
      Isto também tem de ser equacionado, ou não?

    5. Só há uma coligação legítima, a PAF, porque foi assim apresentada aos eleitores a tempo e horas. QQ coisa que envolva entendimentos PS com a ala Esquerda não pode ser considerada, porque o eleitorado português, mais do que ser de Esquerda ou Direita, é ao Centro (+70% em todas as eleições). Por isso é que o PS nunca admitiu nada em conjunto com BE ou CDU em período pré-eleitoral, porque sabia que perderia muito do seu eleitorado do Centro para a PAF. Vir agora com arranjinhos e clamarem que a Esquerda tem 50% é desonestidade intelectual, e para isso basta ver a cisão interna que está a ocorrer no PS. E sim, nada como falar futebolês, para pôr a nú o ridículo (pelos vistos que resultou, já que causou tantas comichões).

  7. É perigoso demais brincar-se com o País, estando em jogo o futuro da nossa juventude. O dr. António Costa tem que deixar o Partido que ganhou as eleições ser empossado,e depois se verá. Quem garante ao candidato do PS que os Socialistas com vergonha na cara, e que não concordam que a farinha do mesmo saco, se misture com farinha com bolor, não votam a favor do grupo vencedor.e esta hem ? Será que quando os votos não nos dão o poder devemos tomá-lo de assalto ? E agora já não é O POVO QUEM MAIS ORDENA ?

    1. O Povo ordenou: o governo ditatorial deixou de poder fazer o que bem lhe apetece, incluindo MENTIR ao povo sobre o que anda a fazer. Não possuem 116 deputados, terão de apresentar as propostas antes de as aprovarem e mandarem publicar durante as madrugadas, para o povo só as conhecer, quando já estão em vigor.

      O mesmo governo, “venceu” as eleições com mais deputados eleitos e mais votos expressos em urnas. (mesmo com a batotice gigantesca que uma empresa privada, contratada para enviar os boletins de voto para os emigrantes recenseados, fez. Interessante que essa empresa cessou a actividade no dia 30 de Setembro, mal surgiram as notícias que tinha enviado mais de 32000 envelopes mal endereçados, quando tinha enviado, para as mesmas pessoas, envelopes de publicidade da coligação, 4 semanas antes. No MAI ninguém foi demitido, e os 36 técnicos especialistas contratados entre 2013 e 2015 para verificarem todo o procedimento de votos dos círculos europeu e mundial… onde o técnico mais idoso tem 26 anos de idade, realizaram uma festa no dia 5 para comemorar o grande desempenho e iniciar os procedimentos para a contagem dos “votos estrangeiros”… onde a abstenção se espera que ultrapasse os 85% pelo desaparecimento de correspondência.)

  8. O ideal seria que em base na fotografia da 1ª reunião d PfP e o PS, não estivessem naquela fotografia:
    – Marco António Costa, um capo com problemas com a justiça
    – Paulo Portas, um artista submerso em corrupção dos submarinos
    – António Costa, um traidor, ganancioso do poder. Era o maior para ter uma maioria absoluta, e de absoluta só teve uma derrota.
    Bem, mas não sendo possível o ideal, e em função dos resultados apresentados, ficamos perplexos com o que vai acontecer, que é o mesmo que dizer com o nosso futuro.
    Mas as personagens da foto continuam intactas, para mim tenho como certo que o importante será que nos partidos, não houvesse este “lixo” político. Também acredito que em todos os partidos há gente séria, capacitada e com sentido da coisa pública.
    Temos um outro pequeno problema, que deveria ser solução o PR.
    Dito isto, penso que PfP deve formar governo com ou sem apoio do PS e se tiver que cair, a democracia funciona e vamos a eleições novamente. Claro que há mais cenários, serão melhores?

  9. Concordo com o que escreve menos num ponto !

    ” Mas tudo o que está a acontecer na sequência das eleições de 4 de Outubro era demasiado previsível para qualquer pessoa séria e medianamente informada. “

    Ninguém jamais (nem António Costa – porque esperava vencer) sonharia sequer nestes números de circo e desrespeito pelo eleitorado, até o PAF já está a prescindir de tudo e mais alguma coisa (até linhas vermelhas).

    António Costa está a ser aquilo que muitos queriam que fosse por isso o puseram lá, aos restantes só resta aguentar como dizem os banqueiros falidos da nossa praça.

    ” Somos um país pequeno, com problemas sérios, e não podemos aderir a frentes débeis, só com o fim de proclamar que – brincamos às democracias ”

  10. É perfeitamente hilariante ver o país conservador e direitista em pânico, pela possibilidade da formação de um governo à esquerda. Foram apanhados descalços, porque nem nos seus piores pesadelos imaginaram que fosse possivel existir diálogo e aproximação entre os partidos de esquerda. Estão desesperados, descontrolados, difamam, falam em fraude politica e outros impropérios, vindos de gente cuja concepção de democracia é algo redutora, servindo apenas para manter o status quo que pretendem. O que está a acontecer é perfeitamente normal e legitimo em qualquer sociedade democrática. Não se está a fazer nada que não respeite o quadro constitucional, ao contrário do que fez o governo-treva que obscureceu e (des)governou o país durante 4 anos, um governo verdadeiramente “fora da lei”, que nem aprovou um único orçamento que respeitasse a CRP. A estratégia da esquerda particularmente no que diz respeito ao PCP e BE, é perfeitamente legítima e facil de entender. Durante a campanha eleitoral, acentuaram as diferenças e divergências com o PS no que diz respeito à politica económica-financeira de direita que aquele adotou quando esteve no poder, tendo em vista fixar e se possivel aumentar, os respetivos eletorados evitando desta forma o efeito do voto útil. Depois da realização das eleições e conseguindo atingir os objetivos supra referenciados, reforçando consequentemente a sua força negocial, aproximaram-se naturalmente do PS, tendo em vista a prossecução de uma acordo ou consenso que possa criar uma solução governativa viável e estável de esquerda e apear de vez do poder, esta direita bafienta, gasta e conservadora. Tão simples quanto isto. Tudo legal, legítimo e constitucional. Que a direita não goste…temos pena!!! Se gostasse é que eu ficava admiradíssimo! Acredito que seja possivel criar pontes de entendimento entre os partidos da esquerda apesar das diferenças existentes, que são reais. Basta para isso que se foquem básicamente naquilo que possam ter de comum em coisas práticas, e deixando de lado questões onde existem divergências acentuadas. São acordos conjunturais, e por isso é perfeitamente natural que quer PCP, quer BE, não exijam, nem tenham quaisquer expetativas de que o PS venha a governar de acordo com os seus programas, óbviamente! O importante é que a esquerda tenha a lucidez de aproveitar esta oportunidade histórica de afastar de vez, esta direita do poder. Já bastaram 4 anos, durante os quais obscureceu e deprimiu o país!

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