O pudor é um sentimento masculino. Quando uma mulher conhece outra, ao fim de dez minutos está já a explicar-lhe como é que o marido trabalha na cama. Ao fim de dez anos ou de uma vida, um homem não explica a outro como trabalha a mulher. É que o homem não é um novo-rico do sexo. Ou respeita a mulher por simples machismo?
Porque é por machismo, por exemplo, que muitas vezes admira uma mulher que se distinguiu nas artes ou nas ciências. Implicitamente tem-se a ideia de que o normal seria não se distinguir. Se portanto se distingue, é isso tão extraordinário como um trapezista de circo ou coisa assim. Admirando-se então a mulher, simultaneamente se humilha. Dessa humilhação se fazem muitas admirações.
Vergílio Ferreira


Grande Vergílio Ferreira, que entendeu e exprime tão bem a ambiguidade que há nessa admiração dos homens pelos êxitos femininos! Só não percebo o conceito de “trabalhar” na cama… lol
Laura, acho que vou levar esta citação para uma discussão acesa sobre machismo que tenho tido noutro fórum.
Mas eu tenho uma teoria sobre o silêncio dos homens sobre as proezas das suas mulheres na cama: se dizem que elas não os têm, estão a comprometer os seus próprios talentos (é suposto que a coisa seja um pas-de-deux, não é?); se dizem que elas são óptimas na cama, têm medo de suscitar a curiosidade dos amigos… e pronto, disfarçam e calam-se. 😉
Quanto à ambiguidade, estamos faladas. E o Vergílio connosco… Sem esquecer que frequentemente a admiração vem depois enfeitada de uma carrada de ‘senãos’ em género “alfinete”.
Já quanto ao ‘silêncio’, digamos que o citado talvez exagere… (e aliás ele interroga-se). Quer na alegadamente masculina ‘contenção’; quer no alegadamente feminino ‘desboco’. Mas digo-te uma coisa: a reserva é uma óptima característica, que (me) cai muito bem, seja quais forem os motivos por que é cultivada… Excepto quando o historial dos delitos em causa é glosado com interlocutores do outro sexo, necessariamente ouvintes e depoentes de excepção, o que também cai muito bem! Mas requer uma maturidade difícil de encontrar, convenhamos. Não é para todos…
Concordo contigo, a reserva é uma regra preciosa, só quebrável com interlocutores de excepção.
O primeiro parágrafo exsuda qualquer coisa pós-traumática (?). Como se toda a mulher fosse dada à grupo-análise das artes performativas, e o homem antes pelo contrário. Credo.
Completamente, Cláudia… Ora, só por isso, esta escrita era precisamente daquelas que não resistia a uma prova cega. Homem, de caras! 🙂
Sou insuspeita porque gosto muito de Vergílio Ferreira, mas aquele “trabalha” é um passo é falso. Uma impropriedade lexical absolutamente evitável. Aliquando Homerus dormitat …
Também eu gosto muito de VF, Ivone. Só não acho que tenha sido um deslize, pelo contrário: acho que a expressão é exacta e cirúrgica, na medida em que traduz precisamente o que eles pensam sobre ‘como são vistos (e falados) por elas’.
Por isso é que eu acho este excerto precioso… Porque nos choca, de tão inapropriado que o termo nos parece ( e parece mesmo).
… E eis como, a partir da mesma ‘coisa’, se constroem realidades tão desencontradas.
– Como é que – a ‘coisa’ – pode não continuar a ser um enigma?
Admira-me é que resulte como resulta 😉
Um texto patético.
Para um homem existe vida privada.
Lucky, não sei se deu conta, mas então concorda com o Vergílio Ferreira.
Não concordo, a não ser que machismo passe a definir tudo.
Lendo o texto segunda vez ainda fiquei com pior opinião.
Não, ele defende a tese da discrição e justifica-a com uma asserção: ‘o homem não é um novo-rico do sexo’ (no que tem razão), imputando depois às mulheres o alegado papel de devassadoras da intimidade (no que não tem razão).
O parágrafo seguinte serviu para se redimir…