“A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico”
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Acabei de ler esta semana mesmo o romance que penso Eça escreveu imediatamente antes deste “A ilustre casa de Ramires”, talvez não seja tão relaxante como este, para mim “A cidade e as Serras” é o mais lúdico e simpático dos romances de Eça. O que antes citei é sem dúvida muito mais profundo em termos de análise de Portugal e também com a mesma mensagem: a conversão do protagonista para um estado melhor face aos valores que defendia e ambicionava inicialmente.
Um dos melhores romances portugueses publicados no século XX – e uma das nossas melhores obras de ficção de sempre. Com trechos inesquecíveis. Basta lembrar a primeira refeição de Jacinto em Tormes.
Nunca mais (e olhem que é um nunca mais muito grande!) me esqueci de ter imaginado o Jacinto a fumar um “pensativo cigarro”, à noite, na casa de Tormes. Estou a citar de cor e nunca mais (aquele nunca mais) o voltei a ler. Por isso, posso estar a incorrer em algum lapso. Mas da expressão tenho a certeza – era mesmo um “pensativo cigarro”! De mestre!
A visão levou o autor a ter a sua casa e quinta em baião.
Segundo julgo lembrar, terá integrado parte da herança de sua mulher (irmã do conde de resende).
Na bibliotecas FCG, primeiro, li os “contos”. Seguido de “a capital”. Muito mais tarde “o crime do padre amaro”. Estudante e maior, comprei a colecção da Lello, 30 e tal vols (a que mais gosto), lendo quase tudo, inclusive, textos de pouco interesse. Deliro com a correspondência de fradique mendes (o pacheco, o comendador pinho, o padre). Apreciei muito “o conde de abranhos” – e a figura magistral do desembargador amado: “…era com efeito um ventre, que em certos dias da semana punha sonolentamente os óculos, e assinava com a mão papuda, onde os colegas lhe indicavam com o dedo; da sua ciência jurídica, nada direi, para não envergonhar as paredes e os móveis deste.27 quarto onde escrevo; da sua honestidade, sei que a sua grande fortuna e as suas pro-priedades de Azeitão o tornavam indiferente às tentações do dinheiro: mas condenaria Jesus e absolveria o mau ladrão, se o peitassem com um casal de patos bem gordos ou com um salmão fresco do Rio Minho.
Fazia, ao comer a sopa, um glou-glou nojento e repelente, e atirava para o soalho os escarros que merecia na face. Tal era esta besta obesa. O Conde detestava-o. E eu mesmo, apenas o respeito que lhe devia como sogro de S. Exª, me impediu certa noite – ainda tremo ao recordá-lo! – de lhe atirar estas mãos ao pescoço gordalhufo, e apertar-lho, apertar-lho até que lhe pendesse, inchada e negra, aquela língua onde a banalidade era mais usual que a saliva, e lhe saíssem das órbitas aqueles olhos que só tinham fixado neste mundo com algum interesse as postas de vitela de que se abarrotava….”
Criador de personagens inesquecíveis. O Eusebiozinho, o Conde de Abranhos, o Palma Cavalão, a Amélia, o Jacinto, o Ega, o Basílio, a Luciana, o Raposão.
Lido, em edição da Livros do Brasil (são, para mim, “as” capas de Eça; sob as quais o descobri), pelo final da adolescência. Relido, bons anos depois, em edição da Chardron, de Lello & Irmão, de 1926, exemplar manuseado com devoção pela obra e seu suporte. E pela elegantíssima ortografia.
‘Os Maias’, ‘O Crime do Padre Amaro’, ‘O Primo Basílio’, ‘A Relíquia’, ‘A Cidade e as Serras’. Bastar-lhe-ia ter escrito apenas um destes romances para figurar na história da literatura portuguesa. Mas foi o autor de todas estas obras-primas.
Incluo os ‘Maias’ em lugar à parte. ‘A Cidade e as Serras’, sendo um Eça mais atípico, é também um dos textos dele que mais me seduzem. E não esqueço o prazer que me deu a leitura d’ ‘A Relíquia’. Mas de Eça gosto de quase tudo – a começar pelos contos.
Acabei de ler esta semana mesmo o romance que penso Eça escreveu imediatamente antes deste “A ilustre casa de Ramires”, talvez não seja tão relaxante como este, para mim “A cidade e as Serras” é o mais lúdico e simpático dos romances de Eça. O que antes citei é sem dúvida muito mais profundo em termos de análise de Portugal e também com a mesma mensagem: a conversão do protagonista para um estado melhor face aos valores que defendia e ambicionava inicialmente.
‘A Cidade e as Serras’ é uma espantosa declaração de amor a Portugal feita pelo estrangeirado Eça, que passou meia vida fora de portas.
Uma monumental obra: top 10 nacional.
Um dos melhores romances portugueses publicados no século XX – e uma das nossas melhores obras de ficção de sempre. Com trechos inesquecíveis. Basta lembrar a primeira refeição de Jacinto em Tormes.
Nunca mais (e olhem que é um nunca mais muito grande!) me esqueci de ter imaginado o Jacinto a fumar um “pensativo cigarro”, à noite, na casa de Tormes.
Estou a citar de cor e nunca mais (aquele nunca mais) o voltei a ler.
Por isso, posso estar a incorrer em algum lapso.
Mas da expressão tenho a certeza – era mesmo um “pensativo cigarro”!
De mestre!
Era sim. Aliás Eça imortalizou algumas expressões. O “pensativo cigarro” foi uma delas. E também o “calor de ananases”.
A cidade e a serras é obra tardia.
A visão levou o autor a ter a sua casa e quinta em baião.
Segundo julgo lembrar, terá integrado parte da herança de sua mulher (irmã do conde de resende).
Na bibliotecas FCG, primeiro, li os “contos”. Seguido de “a capital”. Muito mais tarde “o crime do padre amaro”.
Estudante e maior, comprei a colecção da Lello, 30 e tal vols (a que mais gosto), lendo quase tudo, inclusive, textos de pouco interesse.
Deliro com a correspondência de fradique mendes (o pacheco, o comendador pinho, o padre).
Apreciei muito “o conde de abranhos” – e a figura magistral do desembargador amado:
“…era com efeito um ventre, que em certos dias da semana punha sonolentamente os óculos, e assinava com a mão papuda, onde os colegas lhe indicavam com o dedo; da sua ciência jurídica, nada direi, para não envergonhar as paredes e os móveis deste.27 quarto onde escrevo; da sua honestidade, sei que a sua grande fortuna e as suas pro-priedades de Azeitão o tornavam indiferente às tentações do dinheiro: mas condenaria Jesus e absolveria o mau ladrão, se o peitassem com um casal de patos bem gordos ou com um salmão fresco do Rio Minho.
Fazia, ao comer a sopa, um glou-glou nojento e repelente, e atirava para o soalho os escarros que merecia na face. Tal era esta besta obesa. O Conde detestava-o. E eu mesmo, apenas o respeito que lhe devia como sogro de S. Exª, me impediu certa noite – ainda tremo ao recordá-lo! – de lhe atirar estas mãos ao pescoço gordalhufo, e apertar-lho, apertar-lho até que lhe pendesse, inchada e negra, aquela língua onde a banalidade era mais usual que a saliva, e lhe saíssem das órbitas aqueles olhos que só tinham fixado neste mundo com algum interesse as postas de vitela de que se abarrotava….”
Criador de personagens inesquecíveis. O Eusebiozinho, o Conde de Abranhos, o Palma Cavalão, a Amélia, o Jacinto, o Ega, o Basílio, a Luciana, o Raposão.
Lido, em edição da Livros do Brasil (são, para mim, “as” capas de Eça; sob as quais o descobri), pelo final da adolescência. Relido, bons anos depois, em edição da Chardron, de Lello & Irmão, de 1926, exemplar manuseado com devoção pela obra e seu suporte. E pela elegantíssima ortografia.
Hei-de lá voltar.
Costa
‘Os Maias’, ‘O Crime do Padre Amaro’, ‘O Primo Basílio’, ‘A Relíquia’, ‘A Cidade e as Serras’. Bastar-lhe-ia ter escrito apenas um destes romances para figurar na história da literatura portuguesa. Mas foi o autor de todas estas obras-primas.
Este livro faz parte do meu “Trio maravilha” do Eça.
Os outros dois são ‘Os Maias’ e ‘O Crime do Padre Amaro’.
🙂 Antonieta
Incluo os ‘Maias’ em lugar à parte. ‘A Cidade e as Serras’, sendo um Eça mais atípico, é também um dos textos dele que mais me seduzem. E não esqueço o prazer que me deu a leitura d’ ‘A Relíquia’.
Mas de Eça gosto de quase tudo – a começar pelos contos.
AMADO “atirava para o soalho os escarros que merecia na face”.
É de ir às lágrimas.