” Quando as portas do mundo se abriram, no tempo da revolução, fui um dia conhecer a ucrânia, nas viagens do sindicato. De caminho passei por moscovo e comprei uma máquina fotográfica que me saiu barata. Como tudo aquilo eram paisagens um bocado exóticas, embrulhadas em fantásticas neblinas, passei o tempo todo a disparar contra ruas, comboios, multidões e ribeiras. E voltei a casa inocente e sossegado, como quem caminha sobre as águas do lago de tiberíades. Porém, ao entregar-me os retratos, o homem do laboratório meteu-me nas mãos um enigma pior do que a esfinge. Em todos os papéis estava impressa a cara do estaline, e rigorosamente mais nada. O homem até me questionou se eu trabalhava para algum comité central. Fiquei sem fala durante uma semana. Remirei trinta vezes os papéis, já parecia um erudito a olhar para a mona-lisa, e nem jeitos de chegar a conclusões. Fechei-me com os negativos na câmara escura e ampliei pormenores, forcei os contrastes, ensaiei truques de sobre-revelação. Mas tudo foi em vão. E o pior ainda estava para vir, quando meti um rolo na máquina e fotografei uns barcos da nato, ali a santos. Porque em todos os papéis apareceu impressa a cara do estaline, e rigorosamente mais nada. Aí procurei um técnico, mandei-lhe inspecionar o aparelho, pedi-lhe uma rigorosa fumigação. E tudo foi em vão. Durante meses vivi em grande perplexidade, ganhei manias de perseguição, fui mesmo pedir ajuda à grupanálise. Um dia, já em desespero de causa, o oráculo sugeriu-me que se tratava duma fixação. Havia casos assim, de espíritos errantes, que se instalavam onde calhava. Realmente um diafragma é um esconderijo óptimo, adjectivei eu. E logo que achei uma vaga nas viagens do sindicato voltei a moscovo, disposto a tirar tudo a limpo. Procurei o estaline, seleccionei abertura total do diafragma, apontei a objectiva e fiquei à espera. Ainda vi a grande estátua estremecer, quando encarou com o intruso, reflectido na grande angular. Mandou logo pô-lo a ferros e despachá-lo para a sibéria. Confiscaram-me o rolo da codaque, e retiveram-me durante um mês para investigações. Mas livrei-me do machacaz.”
A língua portuguesa para ele é uma brincadeira, fascina-me a forma como escreve. Já o leio desde 2009 e continua a surpreender-me, assim como J. Rentes de Carvalho. Já anotei a sua sugestão, mas confesso que me apetece procurar “Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente, Memórias”, Carlos Brito. E … nem só de esquerda vive uma mulher, pois não? 🙂
Feito por estes “iluminados” escritores deve ser uma maravilha a seguir é o quê o O Rosa Casaco da PIDE a publicar uma Biografia de A.Cunhal ?
Quem escreve assim prefere o Pravda.
Da.
” Quando as portas do mundo se abriram, no tempo da revolução, fui um dia conhecer a
ucrânia, nas viagens do sindicato. De caminho passei por moscovo e comprei uma máquina fotográfica que me saiu barata. Como tudo aquilo eram paisagens um bocado exóticas, embrulhadas em fantásticas neblinas, passei o tempo todo a disparar contra ruas, comboios, multidões e ribeiras. E voltei a casa inocente e sossegado, como quem caminha sobre as águas do lago de tiberíades.
Porém, ao entregar-me os retratos, o homem do laboratório meteu-me nas mãos um enigma pior do que a esfinge. Em todos os papéis estava impressa a cara do estaline, e rigorosamente mais nada. O homem até me questionou se eu trabalhava para algum comité central.
Fiquei sem fala durante uma semana. Remirei trinta vezes os papéis, já parecia um erudito a olhar para a mona-lisa, e nem jeitos de chegar a conclusões.
Fechei-me com os negativos na câmara escura e ampliei pormenores, forcei os contrastes, ensaiei truques de sobre-revelação. Mas tudo foi em vão.
E o pior ainda estava para vir, quando meti um rolo na máquina e fotografei uns barcos da nato, ali a santos. Porque em todos os papéis apareceu impressa a cara do estaline, e rigorosamente mais nada. Aí procurei um técnico, mandei-lhe inspecionar o aparelho, pedi-lhe uma rigorosa fumigação. E tudo foi em vão.
Durante meses vivi em grande perplexidade, ganhei manias de perseguição, fui mesmo pedir ajuda à grupanálise. Um dia, já em desespero de causa, o oráculo sugeriu-me que se tratava duma fixação. Havia casos assim, de espíritos errantes, que se instalavam onde calhava. Realmente um diafragma é um esconderijo óptimo, adjectivei eu. E logo que achei uma vaga nas viagens do sindicato voltei a moscovo, disposto a tirar tudo a limpo. Procurei o estaline, seleccionei abertura total do diafragma, apontei a objectiva e fiquei à espera.
Ainda vi a grande estátua estremecer, quando encarou com o intruso, reflectido na grande angular. Mandou logo pô-lo a ferros e despachá-lo para a sibéria.
Confiscaram-me o rolo da codaque, e retiveram-me durante um mês para investigações. Mas livrei-me do machacaz.”
Quem escreveu?
Gosto. Mas não identifico, Ilda.
“O Mensário do Corvo”, Jorge Carvalheira 2002
A língua portuguesa para ele é uma brincadeira, fascina-me a forma como escreve. Já o leio desde 2009 e continua a surpreender-me, assim como J. Rentes de Carvalho.
Já anotei a sua sugestão, mas confesso que me apetece procurar “Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente, Memórias”, Carlos Brito.
E … nem só de esquerda vive uma mulher, pois não? 🙂