Sugestão: um livro por dia


Pedro Correia,

 

Portugal, a Flor e a Foice, de J. Rentes de Carvalho

Memória

(edição Quetzal, 2014)

14 comentários em “Sugestão: um livro por dia”

      1. Esse é outro problema que me atormenta. Já tive de oferecer dezenas de livros à biblioteca municipal, mas compro mais do que ofereço. Em breve terei de começar a pedir a amigos para guardarem-mos.

  1. Escrito, sem dúvida, “no calor do momento” e de forma entusiástica. E como tal, a quarenta anos de distância, forçosamente datado.

    Levado por um sentido de missão desse tempo: a de tudo mudar, a de pensar que tudo era susceptível da mudança romanticamente (e o termo não é aqui pejorativo) ansiada. Mas se o que havia antes era necessariamente “fascismo” e “fascista” – palavras repetidamente invocadas nesta breve obra, para caracterizar o pré-Abril de 1974 e quem o apoiava, ou prosperava nesse estado de coisas, sendo certo que o autoritarismo do Estado Novo, com a ocasional estética quase fascista, forma que com o tempo aliás se atenuaria, não o chegou verdadeiramente a ser, reconheça-se no autor a inexistência de ilusões sobre o que seria Portugal se o rumo que chegou a ser tomado, nesse período quente, tivesse vingado.

    Em suma: descrição implacável do passado (materialmente correcta no essencial, diria, ainda que não desapaixonada); absoluto cepticismo sobre o presente (o presente de 74/75), desengano sobre as verdadeiras intenções (internas e externas) quanto ao futuro.

    E uma visão iconoclasta quanto a certas figuras gradas do novo regime. Do MFA a certo “pai da democracia”, desde logo. O que, talvez mais que tudo o resto, tenha levado à recusa ao tempo da sua publicação por cá.

    Não é Rentes de Carvalho de Ernestina, d’A Amante Holandesa, d’O Rebate, de Tempo Contado, de Com os Holandeses, por exemplo. Não é um documento de fria, distante e académica compilação e análise histórica. Mas o tempo era frenético, de ansiedades e excitações. É um documento a ler e reter, cuja escrita revela uma mente sem outras lealdades que não à sua consciência. Coisa bem rara, então (e ainda hoje). Só por isso vale a pena.

    Costa

      1. Agradeço-lhe, meu caro. Mas são impressões de leitura: que isso é bom que cada um guarde do que leu e é legítimo que invoque. Crítica é coisa de mais responsabilidade e para tanto falta-me aflitivamente a cultura literária. Entre outras.

        Foi, permita-me notar, uma feliz coincidência essa de ler “A Flor e a Foice” acompanhando os derradeiros capítulos de “Novembro”. A primeira fica lida de um fôlego e a segunda só não é assim porque não haveria fôlego bastante. Mas fazem sentido uma com a outra, creia (como por exemplo voltar à história da guerra civil de Espanha, de Antony Beevor, fez sentido em – brevíssimos – momentos de pausa de Novembro; enfim, leituras sôfregas).

        Costa

        1. Gostei muito de ‘Novembro’. Um inesperado romance de estreia, com muita qualidade de escrita, no seu género quase confessional. E sobretudo um desassombrado documento de uma época, visto de um ângulo raro.

  2. Desde que tardiamente (mea culpa) descobri RdC, não perco um livro seu. Parece que em breve irá ser lançada edição do seu primeiro romance, Montedor.

  3. Excerto de artigo do Público, 11/05/2014:

    Após estes anos de crise, é fácil ser-se céptico. Mas Rentes de Carvalho já o era quando não dava jeito sê-lo, e vale a pena ler o que o autor dizia sobre Portugal há uma dúzia de anos. Numa notável entrevista a Rui Ângelo Araújo e Carlos Chaves para a desaparecida revista Eito Fora, publicada – note-se bem! – em Setembro de 2001, Rentes de Carvalho é desafiado a “fixar um despreconceituado e severo monóculo nos costumes deste país, como Eça quis fazer”, e a dizer de sua justiça sobre “a história recente de Portugal, nomeadamente nos aspectos cultural e político”.

    Vale a pena transcrever um excerto da sua resposta, com a devida vénia aos autores da entrevista:

    “Só porque agora as coisas vão visível e temporariamente menos mal do que antes, criou-se o mito de que Portugal vai bem. Mas na realidade não vai. Pouco importa se olhamos de fora ou de dentro para realizarmos que o suposto bem-estar actual é um bem-estar de pechisbeque. Com consequências muito desagradáveis para as gerações futuras, a quem será apresentada a factura.

    E não se podem ajuizar as condições de vida de um povo medindo-as pela quantidade de jipes dos novos-ricos e dos quase-pobres. Para isso o ridículo de alguns actos governamentais, a corrupção impune, os mendigos nas ruas e as filas de espera nos hospitais, são um índice mais seguro.

    Portugal, sabem-no em demasia os políticos e os economistas, é um país endividado, a viver de créditos e que, produzindo pouco e significando pouco, se regozija de num ou noutro ano ser menos pobre do que a Grécia.

    É um país que não investe na educação, mas nos todo-o-terreno, e onde os bancos e os ricos conseguem o milagre de pagar uma percentagem de impostos inferior à do operário”.

    1. Ora aí está. Numa época em que muito poucos observadores e analistas anotavam isso. Como se a economia fosse tema menor. Como se quase ninguém percebesse que Portugal já então gastava muito mais do que produzia – e sobretudo que desencaminhava boa parte dos fundos estruturais.
      Graças à “integração europeia” tínhamos adormecido num país pobre e acordado num país pseudo-rico, povoado de patos bravos insuflados com ‘money’ dos contribuintes do Velho Continente…
      Obrigado pelo trecho que aqui nos trouxe.

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