A carta timbrada é-te entregue em mão. Na verdade foi a tua mãe quem a recebeu e entrega-ta com o belo rosto molhado, quando à tarde chegas a casa. “Ó filho, ó filho!” Beijas a tua mãe e sossega-la: “ Não é nada, mãe, não é nada”. Sabes onde te deves dirigir. Nunca lá foste mas sabes onde é. Todos sabem. Identificas-te à entrada e sem palavras um funcionário acompanha-te ao primeiro andar. Detém-se um quase nada à entrada do longo corredor, depois indica-te a terceira porta. Vê-te bater e ser-te aberta, e retira-se. Surpreendes-te com quem sentado a uma enorme secretária repleta de papeis dispersos, se levanta para te receber Não te devias surpreender, foi sempre um rapaz vivaço, inteligente. Conheceste-o na recruta e logo ali lhe reconheceste a superior inteligência “Vai longe este rapaz” Recordas-te de lho teres futurado. Nunca pensaste que fosse tanto em tão curto espaço de tempo. Por detrás da sua cadeira, a enorme foto emoldurada de Salazar ocupando um generoso espaço. Ao lado, a imagem da Virgem num pedestal de madeira, abençoa o espaço. Entram dois homens na sala e ele apresenta-te a eles. “É o Corvo, um amigalhaço da tropa, um gajo porreiro” Sorriem entre eles e não pronunciam uma palavra. Ele continua. “Um porreiraço de gajo, vos digo eu. Mas anda mal aconselhado, não é, Corvo? Esses senhores, Lúcios, Andrades, Eduardos não são recomendáveis, estão referenciados e depois até podem pensar mal de ti, ó Corvo” Não respondes e pasmas. “Estes senhores” Sim senhor, gente educada é outra coisa. Aqui não são os filhos da puta desses terrorista de merda, isso é lá para os soldados na frente, estúpidos ignorantes. Este nunca daqui saiu, foi sempre um rapaz civilizado e educado. Os outros sorriem e não respondem. Ele pousa-te a mão no ombro. “Por isso vê lá, Corvo, ainda vão pensar mal de ti” Não respondes e levas a tua mão à dele, e com firmeza afasta-la de lá. Ele sorri para os outros, que lhe correspondem e afasta a mão. “ Vais ver, não é, Corvo? Aqui não chega a lei,” sussuro ao teu ouvido suficientemente audível para todo. “Este Corvo e um porreiraço de gajo, vos digo eu” Sais como entraste, mudo. Vais encontrá-lo quatro anos depois. Na verdade foi ele quem te encontrou na praia do Mussulo. Não é convidado, mas senta-se ao teu lado e da tua mulher. “Epá, ó Corvo. Então pá, que é feito de ti?” Os olhos pregados na tua mulher. “É a tua mulher, pá?” não espera resposta e estende-lhe a mão. Ela tem uma pequenina hesitação, mas corresponde-lhe. “ O seu marido é um amigalhaço, fizemos das boas na recruta. Já contaste à tua mulher daquela vez, Corvo?” Não respondes e vê-lo sentar-se defronte à tua mulher, que quase é obrigada a encolher-se para fugir ao contacto. “ Não sei se sabes que também já me casei, ó Corvo. Quero que vão lá a casa. A minha mulher está na Metrópole a tratar dumas coisas de heranças, mas daqui a um mês já cá está” Fala para ti e olha para a tua mulher. Não lhe perde um movimento. Não despega os olhos dos belíssimos seios, perde-se nas perfeitíssimas pernas. Disfarça e fala para ela. “A minha mulher é muito parecida consigo. Quero que vão lá a casa” Volta a falar para ti. “As nossas mulheres vão-se dar bem, Corvo” A tua mulher levanta-se e dirige-se para a água. Os olhos dele seguem-na. Mergulha, afasta-se um pouco e nada. Ele emudeceu e não tira os olhos dela. Segue-lhe todos os movimentos, não lhe perde um gesto. A tua mulher sai da água e ele levanta-se. Tu nem te deste conta, mas ele sim, é um rapaz educado, civilizado. Leva-lhe a toalha e pousa-la sobre os ombros, e tu retesas os músculos. Sabes com certeza onde desferir o golpe. És um selvagem, um bicho criado no mato. “ Se lhe tocas no cabelo morres” Não lhe toca. Vem com ela devorando-a com os olhos, mas não lhe toca. Levantas-te para ir embora, ele rabisca a direcção num papel e dá-to “Não se esqueçam, vão lá a casa” A tua mulher aconchega-se e levanta para ti o doce olhar, o mesmo olhar e aconchego que te acalmam nas noites de pesadelos que te atormentam. “ já passou, querido, já passou” Rasgas o papel e dispersa-lo ao vento. Ela aconchega-se mais. Abraças a tua mulher e trá-la aconchegada contigo Quatro anos depois aonde não chegava a lei, subiu o MPLA.
Um livro da PIDE que não é da Irene Flunser Pimentel? Leitura obrigatória para o meu camarada jpt
Uma obra que recomendo vivamente. Muito bem informada, muito bem escrita.
A carta timbrada é-te entregue em mão. Na verdade foi a tua mãe quem a recebeu e entrega-ta com o belo rosto molhado, quando à tarde chegas a casa. “Ó filho, ó filho!” Beijas a tua mãe e sossega-la: “ Não é nada, mãe, não é nada”.
Sabes onde te deves dirigir. Nunca lá foste mas sabes onde é. Todos sabem. Identificas-te à entrada e sem palavras um funcionário acompanha-te ao primeiro andar. Detém-se um quase nada à entrada do longo corredor, depois indica-te a terceira porta. Vê-te bater e ser-te aberta, e retira-se.
Surpreendes-te com quem sentado a uma enorme secretária repleta de papeis dispersos, se levanta para te receber Não te devias surpreender, foi sempre um rapaz vivaço, inteligente.
Conheceste-o na recruta e logo ali lhe reconheceste a superior inteligência “Vai longe este rapaz” Recordas-te de lho teres futurado. Nunca pensaste que fosse tanto em tão curto espaço de tempo.
Por detrás da sua cadeira, a enorme foto emoldurada de Salazar ocupando um generoso espaço. Ao lado, a imagem da Virgem num pedestal de madeira, abençoa o espaço.
Entram dois homens na sala e ele apresenta-te a eles. “É o Corvo, um amigalhaço da tropa, um gajo porreiro” Sorriem entre eles e não pronunciam uma palavra. Ele continua. “Um porreiraço de gajo, vos digo eu. Mas anda mal aconselhado, não é, Corvo? Esses senhores, Lúcios, Andrades, Eduardos não são recomendáveis, estão referenciados e depois até podem pensar mal de ti, ó Corvo”
Não respondes e pasmas. “Estes senhores” Sim senhor, gente educada é outra coisa. Aqui não são os filhos da puta desses terrorista de merda, isso é lá para os soldados na frente, estúpidos ignorantes. Este nunca daqui saiu, foi sempre um rapaz civilizado e educado.
Os outros sorriem e não respondem. Ele pousa-te a mão no ombro. “Por isso vê lá, Corvo, ainda vão pensar mal de ti” Não respondes e levas a tua mão à dele, e com firmeza afasta-la de lá. Ele sorri para os outros, que lhe correspondem e afasta a mão. “ Vais ver, não é, Corvo? Aqui não chega a lei,” sussuro ao teu ouvido suficientemente audível para todo. “Este Corvo e um porreiraço de gajo, vos digo eu”
Sais como entraste, mudo.
Vais encontrá-lo quatro anos depois. Na verdade foi ele quem te encontrou na praia do Mussulo. Não é convidado, mas senta-se ao teu lado e da tua mulher.
“Epá, ó Corvo. Então pá, que é feito de ti?” Os olhos pregados na tua mulher. “É a tua mulher, pá?” não espera resposta e estende-lhe a mão. Ela tem uma pequenina hesitação, mas corresponde-lhe. “ O seu marido é um amigalhaço, fizemos das boas na recruta. Já contaste à tua mulher daquela vez, Corvo?”
Não respondes e vê-lo sentar-se defronte à tua mulher, que quase é obrigada a encolher-se para fugir ao contacto.
“ Não sei se sabes que também já me casei, ó Corvo. Quero que vão lá a casa. A minha mulher está na Metrópole a tratar dumas coisas de heranças, mas daqui a um mês já cá está”
Fala para ti e olha para a tua mulher. Não lhe perde um movimento. Não despega os olhos dos belíssimos seios, perde-se nas perfeitíssimas pernas. Disfarça e fala para ela. “A minha mulher é muito parecida consigo. Quero que vão lá a casa” Volta a falar para ti. “As nossas mulheres vão-se dar bem, Corvo”
A tua mulher levanta-se e dirige-se para a água. Os olhos dele seguem-na. Mergulha, afasta-se um pouco e nada. Ele emudeceu e não tira os olhos dela. Segue-lhe todos os movimentos, não lhe perde um gesto. A tua mulher sai da água e ele levanta-se. Tu nem te deste conta, mas ele sim, é um rapaz educado, civilizado. Leva-lhe a toalha e pousa-la sobre os ombros, e tu retesas os músculos. Sabes com certeza onde desferir o golpe. És um selvagem, um bicho criado no mato. “ Se lhe tocas no cabelo morres”
Não lhe toca. Vem com ela devorando-a com os olhos, mas não lhe toca. Levantas-te para ir embora, ele rabisca a direcção num papel e dá-to “Não se esqueçam, vão lá a casa”
A tua mulher aconchega-se e levanta para ti o doce olhar, o mesmo olhar e aconchego que te acalmam nas noites de pesadelos que te atormentam. “ já passou, querido, já passou”
Rasgas o papel e dispersa-lo ao vento. Ela aconchega-se mais. Abraças a tua mulher e trá-la aconchegada contigo
Quatro anos depois aonde não chegava a lei, subiu o MPLA.