
Declarações de Guerra, de Vasco Luís Curado
Recolha de depoimentos de militares que participaram nas três frentes de guerra em África (1961-1974)
(edição Guerra & Paz, 2019)
“A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico”

Declarações de Guerra, de Vasco Luís Curado
Recolha de depoimentos de militares que participaram nas três frentes de guerra em África (1961-1974)
(edição Guerra & Paz, 2019)
“A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico”
Mesmo quando já não houver ex-combatentes vivos, aqui em Portugal, os seus filhos e restantes familiares serão as testemunhas do seu sofrimento, físico e mental, nunca devidamente avaliado/reconhecido. O monumento, envergonhadamente atirado para as bandas do Dafundo é, na minha opinião, um exemplo desse abandono.
Há iniciativas isoladas, como a série A Guerra, salvo erro da RTP ; e um documentário sobre a iniciativa de uma querida amiga da minha família, em Santarém, D. Estefânia Anacoreta, infelizmente já falecida, que sozinha e arrostando todo um conjunto de difilculdades, visitou em Angola, em pleno tempo da guerra e até teatro operacional, dezenas e dezenas de soldados de muitos concelhos do Ribatejo, gravando as suas mensagens para as famílias. Há mais iniciativas, geralmente das associações de antigos combatentes, mas do Estado (quase) nada.
Que este livro, que irei comprar, possa ser mais uma voz.
Abraço (e desculpe o desabafo)
O que mais me choca é haver em dezenas de sedes de concelho monumentos aos mortos na Grande Guerra 1917-1918 e não haver nessas mesmas vilas e cidades nenhuma referência pública aos mortos na guerra em Angola, Moçambique e Guiné (1961-1974).
Quase meio século depois, as instituições políticas continuam a desprezar os ex-combatentes das frentes ultramarinas.
Talvez porque tenhamos vergonha desse guerra. Afinal não foi um guerra para a libertação dos “povos oprimidos”. Foi uma guerra do Estado Novo….os combatentes não tiveram culpa nenhuma, claro está
Os combatentes serviram o País, no quadro constitucional vigente. Tal como aqueles que foram remetidos para o lamaçal da Flandres, onde não residia um só português, servindo de “carne para canhão” para dar “consistência patriótica” à I República.
Uns enaltecidos em pedra e bronze, de norte a sul do País; outros esquecidos. Não faz o menor sentido.
Discordo, Pedro Correia, permita-me.
A primeira república, bem o sabemos, é na liturgia oficial e afanosamente ministrada às massas, um tempo de liberdade e justiça, pondo gloriosamente fim à monarquia, coisa inapelavelmente má pela mais sólida das razões: porque sim.
Que tenham sido anos de prisão política e tortura, de assassínio e ruína, de censura e repressão, é coisa irrelevante. Estão ainda (e estarão) ou estiveram até há pouco no poder os filhos, netos e restantes – e orgulhosos – herdeiros, de sangue ou ideologia, daqueles que, entre outras provas de comovente patriotismo, mandaram matar ou desgraçar milhares de portugueses, mal treinados, mal equipados, mal abastecidos, para garantir o reconhecimento de um regime imposto pela força (e de anedóticas credenciais democráticas) e um lugar à mesa de partilhas dos vencedores.
São, entre nós, os “republicanos”. Espécie de sacerdotes, de guardiães de valores sagrados, de dogmas laicos(?), e que, como tal, somos metodicamente ensinados a não questionar.
Sendo assim, as coisas como estão consagradas fazem todo o sentido: a mentira, como bem se sabe, à força de repetida torna-se verdade. E dispensa o trabalho de ler e pensar, o que a torna ainda mais atraente.
Costa
Meu caro, não pretendo aqui discutir regimes. A propósito de um livro – pertinente e oportuna edição da Guerra & Paz – acentuei apenas que me choca, tantos anos depois, ver esta discrepância entre as dezenas de monumentos por esse País fora glorificando o esforço dos soldados portugueses que combateram na Flandres, em 1917-1918, e nada sequer de semelhante haver em relação aos que combateram nas três frentes africanas entre 1961 e 1974.
Este reconhecimento público, mais que merecido, devia ser independente de regimes políticos ou de formas de Estado.
Os nossos mortos devem ser honrados – tenham combatido sob a bandeira da monarquia ou da república.
Nem eu quis aqui discutir regimes, creia.
Uns combatentes recordados amiúde (facto em si mesmo absolutamente louvável), sacrificados que foram num cruel exercício de legitimação de um regime que nada teve, na verdade, de democrático. Mas de cuja herança se reclamam, entusiásticos, os detentores e próximos do poder presente.
Outros combatentes esquecidos, parece que por “vergonha”, e que combateram e morreram, como aponta, à luz de um dado quadro constitucional. Numa guerra portuguesa, que matou portugueses, fosse ou não uma guerra do estado novo.
Como muito bem escreve, também, “este reconhecimento público, mais que merecido, devia ser independente de regimes políticos ou de formas de Estado”. Devia. Mas assim não acontece. Nem isso é fruto do acaso. Pensa e age de forma diferente o actual regime político (que a forma de estado nem será aqui chamada) com as suas muito próprias verdades históricas.
Meras constatações. É tudo.
Costa
Tenciono escrever em breve sobre esse tema aqui. Mesmo sem ser a pretexto de um livro.
Com tudo o que de contextual tem aquela urbanização, e sem perfilhar o ideário que presidiu ao intuito toponímico que perseguiu, quero realçar a zona (dita “bairro”) dos Olivais-Norte em Lisboa, onde a cada rua foi atribuída o nome de um militar português falecido nas guerras coloniais.
Tens razão. Fizeste bem em lembrar, vem a propósito.
Livro muito bem-vindo!
Numa altura em que se tenta levar a cabo uma imensidade de reformas que, no dizer dos principais responsáveis pelo actual executivo, se impõem por razões de justiça e equidade, fica aqui a urgente chamada de atenção para a situação de todos aqueles que serviram o país, de forma compulsiva – nem todos se podiam dar ao luxo de partir para exílios dourados de lazer e diletância, e que hoje, passados 45 (quarenta e cinco) anos e mais desde o tempo em que passaram à disponibilidade, continuam a ser ignorados, de forma ultrajante, pelo mesmo poder que os utilizou quando deles teve necessidade. Meus amigos, vivendo nós num estado de direito, que o era também antes do 25 de Abril de 1974, embora ainda não constitucionalmente democrático, tal como hoje é entendido, porque constitucionalmente conservador, tal como à época se pretendia, custa-nos observar e constatar este desprezo demolidor a que o regime vigente continua a votar todos os veteranos de guerra, os ex-combatentes de África. É que, quer queiramos quer não, o poder é sempre o poder, tanto faz que o seja hoje como o tenha sido ontem, sob a capa de roupagens formais diferenciadas: ontem as do conservadorismo exigente e selectivo; hoje as da democracia, ora demagógica, ora cristalina, mas sempre redutora nos seus meandros inconfessáveis de defesa dos interesses dos membros dos aparelhos político-partidários.
Tudo isto é execrável.