Subtilezas


Sérgio de Almeida Correia,

Quando hoje ao início da tarde ouvi um dos brincalhões do 31 da Armada, com o ar sério de alguns intelectuais sem barbas do PREC, a dizer num dos canais televisivos que queriam devolver a bandeira que surripiaram ao município, pensei para comigo que a palhaçada começava a chegar demasiado longe. O Diário Digital confirma-o. Se tivesse sido uma homenagem ao Solnado teria feito muito mais sentido e não deixaria de ter impacto. Assim, não passou de um gesto gratuito de ofensa à República, às suas instituições e aos milhões de portugueses que nelas se revêem. Os que o fizeram são afinal os mesmos que se indignam com os cornos e as cigarradas de Manuel Pinho. Essas cigarradas, e outras do mesmo género, a mim também me chateiam. Só que quem fez o que os rapazes fizeram não tem depois qualquer autoridade moral para criticar José Sócrates, Manuel Pinho ou um índio qualquer da tribo dos Verde Eufémia. Seria bom, se quiserem ser levados a sério, que pelo menos percebessem isto. Vê-se que têm mais dificuldade em compreender a diferença entre uma monarquia e uma república. Mas também há quem não distinga  o genuíno humor da palermice. Acontece o mesmo quando se passa os dias a beber vodka. Acaba-se a olhar para o próprio umbigo com o copo na mão, adquirem-se tiques, confunde-se a inauguração da linha do Carregado com a chegada à Lua, pensa-se que o regionalismo de Alberto João Jardim é igual ao de José Lello, que Mendes Bota escreve como Manuel Alegre ou que a Agustina é a Margarida Rebelo Pinto. Uma pessoa inebriada perde lucidez. Sem lucidez é mais difícil ver as subtilezas, fazer passar a mensagem (quem a tem). Parece-me evidente. E até sou capaz de acreditar que qualquer trolha entende isto. Antes de se encontrar com os amigos, evidentemente. Depois a coisa pode-se complicar e até podem querer tomar o palácio de Belém.

7 comentários em “Subtilezas”

  1. Tem toda a razão Sérgio. Mas sabe que mais? parece-me que os miúdos estão deslumbrados com tanta atenção. Se lhes fazemos a vontade, então é que vão sair dali umas bezanas de vodka e não há quem os ature.

  2. “…aos milhões de portugueses que nelas se revêem.”

    Tem realmente a certeza disso?
    A mim não me faria a menor diferença que fossem monárquicas. E, para ser franco, acho que o facto de a casa real espanhola ter menores custos para o contribuinte que a presidência da república portuguesa é uma enorme ofensa para todos os portugueses.

      1. A presidência da republica portuguesa custa 17 milhões de euros por ano aos quais é necessário adicionar todo o vasto conjunto de prebendas para os ex-presidentes e respectivas cortes (custos muito difíceis de estimar em toda a sua extensão…).

        A casa real espanhola custa 8 milhões de euros por ano ao contribuinte espanhol.

        Isto são números que estão por desmentir; foram publicados em vários jornais (embora não possa jurar que não sejam “bocas da canalha monárquica”).
        Devíamos poder saber uma coisa destas com algum grau de certeza, porque isto é realmente ofensivo e obsceno num país pobre e pequeno.

        No que diz respeito às funções, no essencial, no que verdadeiramente importa, elas são rigorosamente as mesmas.

  3. Ainda estou dividida. Não consigo deixar de pensar que podiam ter ído por outras graçolas. Mas achei-lhes piada! No fim de contas, ficaram com uma estória porreira para contar!

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