SS Gairsoppa, um naufrágio nas páginas dos jornais


Rui Rocha,

 

No Diário de Notícias– 270 toneladas de prata, no valor de 170 milhões de euros, num navio encontrado a 4700 metros de profundidade.

No Jornal de Notícias – 240 toneladas de prata, no valor de 150 milhões de euros, num navio encontrado a 4000 metros de profundidade.

No Diário Digital: 200 toneladas de prata, no valor de 170 milhões de euros, num navio encontrado a 4700 metros de profundidade.

No Sol – 240 toneladas de prata, no valor de 170 milhões de euros, num navio encontrado a quase 5000 metros de profundidade.

No Dinheiro Digital – 220 toneladas de prata, no valor de 160 milhões de euros, num navio encontrado a 4700 metros de profundidade.

No Público: 240 toneladas de prata, no valor de 170 milhões de euros, num navio encontrado a 4700 metros de profundidade.

 

E, last but not the least, a notícia choque no Correio da Manhã: Barco afundado poderá lucrar 34 milhões de euros. Bom proveito lhe faça, lá nas profundezas, que a mim dói-me muito a cabeça.

14 comentários em “SS Gairsoppa, um naufrágio nas páginas dos jornais”

  1. Questão de tonelagem e profundidade, além de respeito pelo pluralismo das fontes.
    Percebe-se que aquela malta que desce às profundezas do abismo vem azucrinada e baralha a tonelagem ou, hipótese credível, vai metendo uns cobres ao bolso.
    Se eu ponho a mão naquele vil metal….

  2. Passámos directamente da Idade Média em que o que interessava era a fé das pessoas e a obediência à hierarquia para o relativismo em que é tudo uma questão de opinião pessoal. Aquela parte do iluminismo e da eventual existência de uma realidade objectiva externa à nossa vontade passou-nos completamente despercebida. E é também a inumeracia em todo o seu esplendor.

  3. Este post lembrou-me um texto que escrevi há uns tempos sobre esta questão: http://diasimperfeitos.blogspot.com/2009/11/os-jornalistas.html
    Parece-me que os números (tais como os do Euromilhões) são de facto o mais complicado de se acertar. 🙂 Ainda ontem foram publicadas, em alguns jornais diários, notícias sobre um assunto que conheço que envolve verbas e que, mais uma vez, estavam incorrectamente referidas. 🙁

  4. Rui: como gostas de “acertar contas” com as notícias, fica outra sugestão. Há dois dias, vários órgãos de informação portugueses papaguearam esta “notícia” por sua vez papagueada também em certos blogues: «O PS francês venceu com maioria absoluta as eleições para o Senado.» Bastava ler os resultados, disponíveis em qualquer sítio político ou jornalístico francês na Internet, para se perceber que a “maioria absoluta socialista” era afinal a soma de várias forças de esquerda – socialistas, ambientalistas, comunistas, trotsquistas, etc.
    Por acaso a força política mais votada até foi a UMP, do Presidente Sarkozy…
    De caminho, houve quem chamasse ao Senado, alternadamente, ‘câmara baixa’ e ‘câmara alta’. E quase todos omitiram que esta não é uma eleição por sufrágio universal mas de ‘grandes eleitores’, com um universo de apenas cerca de 80 mil votantes.
    (www.liberation.fr/politiques/01012361619-senatoriales-un-vote-obligatoire-mais-defraye)
    Tudo muito edificante e muito rigoroso, como se vê.

    1. Também reparei nisso, Pedro. Cada vez é mais necessária uma leitura activa. De investigação mesmo, sob pena de ficarmos com uma visão completamente errada da realidade.

      1. E nesse aspecto acaba por ser uma coisa positiva! Acomodámo-nos de tal forma a ter as notícias a sair quentinhas com o café da manhã, sem esforço nenhum, que creio que nos faz muito bem estes momentos de perplexidade e indignação face àquilo que é, em abono da verdade, um jornalismo da trampa…

  5. “Sua majestade imperial visitou o Sr. Alexandre Herculano. O facto em si é inteiramente incontestável. Todos sobre ele estão de acordo, e a história tranquila.
    No que, porém, as opiniões realmente divergem – é acerca do luggar em que se realizou a visita do imperador brasileiro ao historiador português.
    O Diário de Notícias diz que o imperador foi à mansão do Sr. Herculano.
    O Diário Popular, ao contrário, diz que o imperador foi ao retiro do homem eminente que…
    O Sr. Silva Túlio, porém, declara que o imperador foi ao tugúrio de Herculano (ainda que linhas depois se contradiz, confessando que o imperador esteve realmente na tebaida do ilustre historiador que…).
    Uma correspondência para um jornal do Porto afiança que o imperador foi ao aprisco do grande, etc.
    Outra vem todavia que sustenta que o imperador foi ao abrigo desse que…
    Alguns jornais de Lisboa, por seu turno, ensinam que sua majestade foi ao albergue daquele que…
    Outros, contudo, sustentam que sua majestade foi à solidão do eminente vulto que…
    E um último mantém que o imperador foi ao exílio do venerando cidadão que…
    Ora, no meio disto, uma coisa terrível se nos afigura: é que sua majestade se esqueceu de ir simplesmente a casa do Sr. Alexandre Herculano.”
    (Eça de Queiroz, in “Uma Campanha Alegre, LXXV” – Fevereiro de 1872)

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