Spínola é menos que Gomes da Costa?


Pedro Correia,

Li em vários blogues críticas duríssimas à decisão da Câmara Municipal de Lisboa de homenagear o antigo presidente da República António de Spínola, atribuindo-lhe o nome a uma avenida. Ao contrário do que supus, os elogios foram mais escassos e tímidos do que as críticas. Portanto, aqui estou a defender a decisão do executivo camarário.
O marechal Spínola (1910-96) foi um grande militar, como reconhecem muitos que com ele trabalharam. Distinguiu-se como combatente em Angola e como governador da Guiné, o que foi reconhecido pelo próprio PAIGC, facto simbolicamente comprovado na visita que Nino Vieira lhe fez a Portugal, já estava ele muito doente. E foi o presidente da Junta de Salvação Nacional em 25 de Abril de 1974: a imagem dele surgiu na imprensa internacional como símbolo do “Portugal ressucitado” de que falava a canção. Entre Maio e Setembro, desempenhou as funções de Presidente da República – foi o primeiro Chefe do Estado após o derrube da ditadura.

São motivos suficientes para lhe atribuir o nome de uma nova avenida em Lisboa? Sim.

Claro que a longa vida de Spínola não decorreu sem erros. Revelou-se um péssimo político nos meses imediatamente posteriores à Revolução dos Cravos? Facto indiscutível. Mas se só homenageássemos figuras sem mácula, correspondentes aos períodos históricos enaltecidos pela correcção política, imensas ruas de todas as cidades permaneceriam sem nome. A História é o que é – e não o que gostaríamos que fosse. É feita de luzes e sombras, de ciclos que merecem leituras diferentes consoante os olhos que os analisam.
O Marquês de Pombal foi um dos maiores déspotas da nossa História – isso não impede que tenha direito a estátua e o seu nome figure numa das mais emblemáticas praças de Lisboa. “Africanistas” como Spínola, embora de outra época, constam também da toponímia mais nobre da capital – lembremos, a título de exemplo, a Avenida Mouzinho de Albuquerque, a Praça Paiva Couceiro e a Avenida General Roçadas.

Porque não há-de Spínola, símbolo do 25 de Abril, ser nome de uma via em Lisboa, cidade onde existe a Avenida Marechal Gomes da Costa, símbolo do 28 de Maio de 1926? Se outro presidente do período histórico a que se convencionou chamar Estado Novo, o marechal Craveiro Lopes, dá igualmente nome a uma avenida alfacinha, situada em pleno Campo Grande, porque não há-de o marechal António Sebastião Ribeiro de Spínola receber idêntica homenagem?

Santos, ao longo da História, houve muito poucos – e alguns deles talvez nem merecessem ser nome de uma artéria citadina. As ruas, praças e avenidas são imperfeitas, à semelhança dos homens e mulheres que hoje lhes dão nome. É sempre possível derrubar estátuas e retocar fotografias, ao melhor estilo estalinista, mas não é possível apagar a História. Spínola existiu, destacou-se na sua época, chegou a ser idolatrado por multidões – um símbolo de um Portugal que já não há.

E se Lisboa distinguiu Pina Manique com nome de largo, colégio e estádio porque não haveria de homenagear o primeiro presidente do Portugal democrático?

19 comentários em “Spínola é menos que Gomes da Costa?”

  1. Apoiado! Spínola, não foi pior que qualquer dos outros que citou. Se calhar até melhor que alguns deles, pelo menos lendo ” País sem Rumo “. Mas isso não invalida que fosse um oficial de cavalaria e tratasse os seus subordinados como gente da ralé. Aproveitou-se de um regime? Claro que sim. Qual foi o militar que não tirou proveito do regime? Nenhum! Se os militares do quadro permanente, fossem anti – regime, no 25 de Abril não haveria sargentos quanto mais generais. Mas continuo a dizer que merece, como qualquer outro, o nome de uma rua, avenida, qualquer coisa, quanto mais não seja por ter sido o primeiro presidente do primeiro governo provisório .

    1. Se Gomes da Costa e Craveiro Lopes, ambos também marechais, ambos também presidentes, mas do regime ditatorial, dão hoje nome a avenidas emblemáticas de Lisboa, porque não há-de suceder o mesmo a Spínola, presidente após o 25 de Abril?
      Este argumento, parece-me, é irrebatível.

    1. Parafraseando o que escreveu, Filipe: um bombista das FP-25, movimento que matou pessoas, por ser de esquerda não o faz um herói.
      Refiro-me a Otelo Saraiva de Carvalho. É ou não é um herói do 25 de Abril?

        1. Ó Pedro, que violência…

          O Comentário era dirigido ao FT…

          Ontem lembrei-me de si nas seguintes circunstancias, estava a ver um documentário a Segunda Guerra Mundial e focaram um momento complicado que o Daily Mirror passou por tentativa de censura (Por parte do Governo – Churchil e BeaverBrook) e então apareceu o editor – Michael Foot – cujos comentários tem os mesmos princípios éticos que o vejo usar.

          (Trata-se de um cumprimento!)
          😛

          Bom fds,

          1. Obrigado. Se era para o FT, retiro o cumprimento que lhe fiz. Ele que lhe mande piropos, se entender.

            Agora mais a sério: como é evidente, estou de acordo consigo. Heróis só podem ser de esquerda? Os crimes de esquerda são facilmente “absolvíveis” e os de direita medem expiação perpétua?
            Este critério dúplice – dois pesos, duas medidas – tem desacreditado muito boa gente.

            Bom fim de semana também (o meu é a trabalhar, mas já estou habituado).

  2. Subscrevo por inteiro e sem a mais pequena dúvida tudo o que aqui escreves, compadre. Nem tinha percebido que o facto é polémico.

    Já agora e a talhe de foice, a nova placa toponímica que vi pela televisão é um inexplicável regresso ao passado. A discussão académica sobre a colocação ou não de um “de” está concluída e ultrapassada há muito tempo: deve ter. Mas a nova avenida não é “de” António de Spínola ou “do” Marechal António de Spínola.

    Em suma: a capital regrediu numa coisa que é da sua total responsabilidade. Cada vez há mais gente a saber menos.

    1. De facto, o assunto gerou grande polémica. Muito mais na blogosfera do que na imprensa. Aliás os blogues estã a ser cada vez mais o território onde as polémicas se desenrolam, já que a imprensa se demite dessa sua missão. Isto ficou bem patente no caso do recente enxovalho de que Portugal foi alvo pelo senhor Klaus em Praga, perante a passividade de Cavaco Silva. Contam-se pelos dedos de uma mão, e sobram dedos, os artigos críticos nos jornais sobre este assunto, que deu pano para mangas nos blogues.

  3. Desculpe, permita-me só 1 pequena correção: o Gen. Roçadas teve direito a ter uma “avenida” com o nome dele, e não uma “rua”.

  4. Creio que a falta de apoio se deveu precisamente à falta de capacidade para gerir a política. Muitos (especialmente à direita) esperavam que Spínola tivesse feito mais pela sua “causa”, por isso não são apoiantes incondicionais desta atribuição. Já os críticos terão mais voz para o assunto, especialmente porque a crítica negativa é habitualmente mais fácil de ouvir (grita mais alto).

    Não gosto da figura de Spínola e lamento que tenha chegado onde chegou na vida pública (possivelmente também na militar, mas não sei o suficiente para avaliar), mas como ficou escrito: o facto de ter sido o primeiro Presidente da República de um Portugal democrático (ainda que em período de incertezas) já bastaria para esta honra. Aliás, deveria ter sido atribuída imediatamente após a sua morte.

  5. Julgava que o símbolo do 25 de Abril era o cravo. Vá, o Salgueiro Maia. Com um pouco de boa vontade, Otelo. Mas enfim, Se Sá Carnaneiro tem direito a uma Praça nas imediações, porque não o prolongamento da Avenida dos EUA para Spínola? Enfim, enfim, viva Abril e o seu símbolo…

    1. A cara do 25 de Abril que surgiu nas capas das revistas de todo o mundo foi a de Spínola. Se isso não é símbolo, não sei o que será um símbolo. As coisas são o que são.

        1. É muito antiga, esta mania de reescrever a história. Quem quer apagar Spínola do retrato deve supor que o livro ‘Portugal e o Futuro’ nunca existiu, que a Junta de Salvação Nacional nunca existiu e que o sucessor de Américo Thomaz na Presidência da República se chamou… Costa Gomes.

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