Somos nós a pertencer aos livros


Pedro Correia,

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Não sei se convosco acontece o mesmo, mas eu tenho por hábito levar para férias alguns livros que já não voltam na bagagem. São livros mais velhos que tenciono ler apenas uma vez, acabando por deixá-los ficar nos hotéis por onde passo – leituras momentâneas, semelhantes a diversas pessoas com quem nos vamos cruzando vida fora. Chegam e partem.

É também uma forma de partilhar leituras: acho estimulante a ideia de imaginar que aquela janela que para mim ficou fechada tavez possa abrir-se inesperadamente para alguém que nunca conhecerei. Por cá temos pouco esse hábito: ainda sacralizamos o livro enquanto objecto – por vezes na proporção inversa à verdadeira atenção que lhe dispensamos. Ao contrário do que acontece por exemplo com alemães e britânicos, com um nível de alfabetização geral muito anterior e superior ao nosso.

 

Inciei esta tradição pessoal há 25 anos em Patong, na Tailândia. Levava para férias a Cabra-Cega, de Roger Vailland, e a Memória de Elefante, de António Lobo Antunes. Lidos os livros, antes de fazer as malas entreguei-os à pequena biblioteca pública local, inaugurando ali a secção de obras em português. Cinco anos depois, quando voltei à capital da ilha de Pukhet, revisitei o local: a Memória de Elefante não estava lá, mas o livro de Vailland que foi temporariamente meu permanecia na prateleira onde eu o deixara – sem outro livro em português.

Nem quero imaginar onde estará agora: Patong foi uma das povoações devastadas pelo brutal maremoto de 26 de Dezembro de 2004 no Sueste Asiático. É um daqueles locais onde só voltarei em pensamento.

 

Escrevo estas linhas no mesmo hotel algarvio onde há um ano passei um fim de semana alargado. Cá reencontrei no salão principal um livro que aqui deixei então – isolado título português em elegantes prateleiras cheias de volumes em alemão, inglês ou francês. Pego nele e vou à página final, onde sempre inscrevo a data e o local em que terminei a leitura: “Tavira, 1.5.2015”. E mantenho-o na nova morada que passou a ter naquele dia. Continua sem a companhia de nenhum outro no nosso idioma.

E uma vez mais me interrogo: porque teremos tanta dificuldade em desapegar-nos de livros que foram nossa efémera companhia de férias em vez de lhes proporcionarmos novos leitores? Isto sempre me fez alguma confusão. Porque, em boa verdade, não somos donos deles. Na melhor das hipóteses, somos nós a pertencer aos livros. É pura ilusão pensarmos que eles nos pertencem.

 

0 comentários em “Somos nós a pertencer aos livros”

  1. Eu também abandono livros que não me interessa manter (porque considero que não são suficientemente bons para que valham voltar a lê-los). Mas não os ponho em bibliotecas de hotéis, abandono-os simplesmente sobre mesas ou até na rua, para que quem esteja interessado neles os leve.

      1. Sim, se há pessoas que deixam garrafas de cerveja abandonadas na rua, porque não se há de deixar livros também? Desde que estejam em sítios bem visíveis, há de haver quem pegue neles e os leve para casa!

        1. Há que aplaudir o Lavoura quando o Lavoura merece aplausos, e desta vez ele merece: clap clap clap!
          Eu já uma vez deixei um livro num banco de jardim (nunca soube o que lhe aconteceu), mas habitualnente entrego-os na Biblioteca Municipal, sei que ficam bem entregues.
          Também pensei deixar alguns na prisão mas depois faltou-me coragem.
          🙂 Antonieta

  2. Livros e coisas são o nosso cadastro.

    Exibi-los em estantes, mostra-nos aos outros como queremos ser vistos.

    É uma propriedade móvel.

    Depois há a questão de quer reler, de emprestar a amigos, deixar para os filhos e netos.

    Em última análise podem vendê-los a alfarrabistas ou na feira da ladra.

    Deste modo conseguem-se sempre novos leitores.

    É que o que se compra costuma ser melhor preservado – e pagar por eles acrescenta-lhes uma vontade que selecciona o gosto.

    Se for um escrevinhador para a gaveta ou cesto dos papeis – a posse de livros pode ajudar a revê-los, apurando técnicas de escrita.

    Avento estas razões, porque também não me consigo livrar deles.

    Diz-se que se é conservador quando tem algo para se conservar…daí estas reticências de reticente signatário.

    1. Já fui assim. Hoje sinto-me cada vez mais desprendido de objectos materiais – incluindo os livros. Vale muito mais pô-los a circular por aí do que deixá-los imobilizados durante décadas numa estante doméstica para no fim de tudo se transformarem num espólio morto, vendido a peso a um aprendiz de alfarrabista.

  3. A promoção dos livros e da leitura é grande e já vem de longe.
    E isso é bom.
    A promoção da reflexão pessoal sobre factos e sinais que nos envolvem o quotidiano, no sentido de propiciar um espírito crítico e independente, quase não existe, mesmo na escola.
    E isso é mau.
    Tão mau que faz das nossas elites (?!) um bando de títeres repetentes e repetitivos, muito cultos e intelectuais (?!), mas incapazes de criar uma ideia nova ou apontar um novo rumo.
    Ó apagada e vil tristeza!

    1. A propósito da sua frase final, ‘Os Lusíadas’ é um livro que eu não deixaria por aí. Gosto demasiado do meu exemplar (que aliás está todo anotado) e revisito-o com frequência.

  4. Envergonhada confesso que não me consigo separar dos livros. Dos que gosto mais nem dos que gosto menos mas aos quais espero voltar.
    Adoro reler livros – os que gosto adoro sentir a ideia de que posso regressar onde fui feliz (contrariando o dizer ;)) e os que gosto menos na esperança de poder gostar, ver algo que me escapou na primeira leitura) – e não o poderei fazer se estiverem num sítio onde posso não voltar…
    A ideia é genial, admito. Inspiradora e amorável (imaginar que um Português vai passar por lá e ver a sua língua ali no meio de tantos livros).

    1. É como se deixássemos pequenas parcelas de nós em diversos sítios, Teresa. E sabe-se lá o destino que terão. Imagino que possam ter destinos capazes de suscitar a criatividade de qualquer bom escritor.

  5. Mesmo sabendo que só um livro que foi lido
    nos pertence … ainda não entrei nessa tendência
    muito em voga em algumas cidades, em deixar livros
    um pouco por todo o lado como por exemplo em bancos
    dos jardins , hospitais ,administrações públicas e etc…
    Acho genial e há dias parei para ver e até levei um para casa.
    L’ Énigme Néfertiti que ainda não li mas… pourquoi pas ?

    1. Há dias, na Praça de Londres, em Lisboa, vi uma antiga cabina telefónica transformada em biblioteca de livros usados. Pareceu-me uma excelente ideia. Aplaudo sempre estas iniciativas.
      Só não lê quem de todo não quer.

  6. Tenho sempre à mão os livros que falaram e ainda me falam coisas importantes. Gosto de os tocar, de procurar passagens, de rir e chorar com eles. Alguns são tão velhinhos que as rugas da capa e da lombada parecem desfazer-se à passagem da minha mão. Olho para eles e sei que eles sabem que somos cúmplices em muitas letras e muitas horas. Sou muito apegada aos meus livros.
    Mas sei que a lei da vida é assim, deixar aos novos o lugar dos velhos… portanto há que escolher… sou má nestas escolhas, dava seguramente uma excelente hoarder.
    Há sempre uma associação a quem os entrego com um misto de alegria e tristeza, porque os manda para quem precisa e gosta e eu acredito que eles,aqueles livros que a mim tanto me deliciaram, irão certamente fazer alguém feliz.
    Estas férias vou experimentar deixar um livro no Hotel em Alvor e para o ano tentar saber dele. É uma experiência nova e eu sou uma experimentadora nata.

    1. Fala-me do Alvor, uma das minhas praias favoritas – deslumbramento permanente, que não cessa, por mais vezes que lá vá.
      Como já disse a outros leitores, é uma experiência que gosto de ir fazendo, Dulce. Parto sempre do princípio que todos ganhamos com estes gestos: nós porque recebemos sempre quando damos e outros porque podem descobrir ali um livro ou um autor que os prenderão para sempre.

      1. Depois de 22 deliciosos anos na Meia Praia, a travessia da Ria descobriu-me o gosto pela tranquilidade-vizinha-da acção.
        Começou há cerca de 25 anos por um pequeno T1 para 3, passou para um T2 para 4 , depois para 6…. tudo à beira dos Três Irmãos a que antigamente chamavam Torralta. Frondoso qb, agora que somos só dois têm sido hotel no mesmo local, até que voltemos a ser novamente três 🙂
        É uma paixão Alvor.

        1. Fiz férias durante anos na Prainha, os meus restaurantes de eleição eram o Búzio e o Caniço. Mas ali a minha praia de eleição sempre foi a do Alvor, incluindo longos passeios à beira-mar até à Restinga.
          Quem não conhece, ignora um dos recantos mais belos e sedutores de Portugal.

  7. Eu também não consigo deixar os meus livros. De cada viagem, venho sempre carregada com mais… e com os que levei.
    E não é só porque ficam bonitos na estante, porque até ficam, mas pelas recordações. Consigo recordar-me quase sempre onde estava e coisas que se passavam na minha vida, quando revejo um livro… e isso, isso enche-me o coração.
    Também gosto de voltar a reler, procurar partes, reler excertos que me marcaram.

    ADORO pessoas que deixam livros e sou-lhes muito agradecida, mas eu não consigo mesmo! Talvez um dia!

    1. Acontece comigo também: costumo trazer livros de férias. Lá está: uns vêm, outros vão. Policiais, por exemplo.
      Até porque aqueles livros que mais estimamos, aqueles sem os quais não conseguimos passar, são sempre em número reduzido em relação ao total.

  8. Já ponderei várias vezes fazer algo do género. Nunca consigo. Vivo afeiçoada aos livros. Consigo lembrar-me onde e quando li a maioria deles. A minha mãe já me sugeriu vendê-los, mas, se algum dia tiver que me afastar deles, será porque os doei.

    1. Percebo, Catarina. Também já pensei assim. Mas há livros e livros: nunca teremos a mesma ligação afectiva a todos. Em relação a vários nem temos ligação afectiva alguma. É hoje fácil para mim desprender-me deles.

  9. Nunca tinha pensado sobre o assunto, mas é verdade, eles não nos pertencem.
    Lembro-me de livros que li há 10 anos e que hoje, após nova leitura, consigo fazer uma interpretação completamente nova da mesma história! É como se o livro se tivesse adaptado, evoluído com o passar dos anos. A mesma história é diferente para cada pessoa, para cada fase da nossa vida, e conseguimos retirar dele uma lição diferente consoante o nosso estado de espírito.
    Por tudo isso, um livro não é só livro, é um complemento do que nos vai na mente e, por isso, merece ser partilhado, merece ser explorado.
    Ainda tenho algum apego às boas leituras que passam pela minha estante, mas aos poucos tenho conseguido partilhar algumas obras, empresto, ofereço, tento dar a conhecer aos outros o prazer que senti com aquela leitura.
    Adorei ler o texto.

    1. Kelly: obrigado pelo comentário, de que gostei muito. Eu costumo dividir as pessoas entre as que gostam de ler e as que, sendo alfabetizadas, não querem saber de leituras. Só tenho genuína consideração pelas primeiras. É o seu caso.

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