Verifico que as opiniões pré-formatadas se tornaram tão habituais que quem ousa sair do trilho e fazer críticas ora à esquerda, ora à direita arrisca-se a ser apontado como diletante, incoerente, excêntrico, tonto ou até intelectualmente desonesto. A esta última avaliação ficam, por vezes, subjacentes dúvidas quanto ao carácter do opinador, já que se presume que a crítica alternada e cruzada pode ter por objectivo agradar a dois ou mais senhores.
Contudo, sendo a realidade polifónica, só os solos que se executam a soldo soam monocórdicos. As opiniões realmente livres aproximam-se, inevitavelmente, da improvisação jazzística. Um registo que, pensando bem, não agrada a muita gente, talvez porque não entre tão facilmente no ouvido…

É isso mesmo. Se não somos parte de uma manada, somos considerados resultado de teratogénese.
Ponha teratogénese nisso 🙂
Fala como se só reconhecesse seriedade e interesse às opiniões de quem se afirma apartidário. Raciocínio no mínimo redutor.
Nada disso, anónimo. Uma opinião honesta, é uma opinião honesta. Seja ela partidária ou não. Aquilo que eu sublinhei foi que as opiniões de quem não se confina claramente a uma família partidária são vistas com cada vez maior desconfiança. Foi o que eu pretendi trazer à discussão.
Hoje em dia há muita gente por aí que gosta de colocar rótulos nas pessoas. esquecem-se que a Lei da Rotulagem só se aplica aos produtos…
É isso mesmo, Carlos.
Pois é, Teresa. Há muita gente que preferia, por exemplo, uma blogosfera toda alinhadinha por etiquetas, muito fácil de rotular, salivando ou rosnando alternadamente, ao menor estímulo partidário, como o cão de Pavlov. Quem sai dos moldes baralha o esquema. Mas ainda bem que continua a haver quem não caiba em moldes.
Pois saiba que eu cá gosto desse seu registo. O free jazz tem que se que diga, tem sim senhor. Embora quase tudo na vida tenha a ver com a polis, a única maneira de se permanecer inteiro é nunca deixar de dar primazia aos nossos instintos e avaliações racionais, sem nos sujeitarmos àqueles típicos processos transitivos de consciência, que hegemonia do politicamente correcto opera por milagre. Portanto, antes da polis, nós (talvez isto dê direito ao label de individualista selvagem…?)
Como dizia outro, e com carradas de razão, “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. É o nosso maior seguro de vida, a liberdade de ideias.
“É o nosso maior seguro de vida, a liberdade de ideias” – receio que haja muita gente a pensar exactamente o contrário, Chloé 🙂
Claro que sim, tem toda a razão.
Só que eu tentaria então estabelecer uma diferença subtil.
Não é a ‘ boa vida ‘ que está segurada com a liberdade de ideias.
É a ‘ vida boa ‘.
Será que isto faz sentido para alguém? 🙂