O texto que se segue é, na sua maior parte, a transcrição de um comentário feito no blogue duas-ou-tres.blogspot.com.
Programa de luta contra a fome.
Nada é o que parece.
Ora vê:
Decorreu este fim de semana mais uma ação, louvável, do programa da luta contra a fome, mas….façam o vosso juízo!
Recolha em hipermercados, segundo os telejornais, 2.644 toneladas !
Ou seja 2.644.000 Kilos.
Se cada pessoa adquiriu no hipermercado 1 produto para doar e se esse produto custou, digamos, € 0.50 (cinquenta cêntimos), repara que:
2.644.000 kg x 0,50 € dá 1.322.000 € (1 milhão, tresentos e vinte e dois mil euros), total do que as pessoas pagaram nas caixas dos hipermercados.
Quanto ganham?
o Estado 304.000 €(23% iva)
o hipermercado 396.600 € (margem de lucro de cerca de 30%).
Nunca tinhas reparado, tal como eu, quem mais engorda com estas campanhas…
Devo dizer que não deixo de louvar a ação da recolha e o meu respeito pelos milhares de voluntários.
MAIS….
É triste, mas é bom saber…
-Porque é que os madeirenses receberam 2 milhões de Euros da solidariedade nacional, quando o que foi doado era de 2 milhões e 880 mil?
Querem saber para onde foi a “pequena” parcela de 880.000 € ?
A campanha a favor das vítimas do temporal na Madeira através de chamadas telefónicas é um insulto à boa-fé da gente generosa e um assalto à mão-armada.
Pelas televisões a promoção reza assim: Preço da chamada 0,60 + IVA. São 0,72 no total. O que por má-fé não se diz é que o donativo que deverá chegar (?) ao beneficiário madeirense é de apenas 0,50.
Assim oferecemos € 0,50 a quem carece, mas cobram-nos € 0,72, mais € 0,22 ou seja 30 %.
Quem ficou com esta diferença?
1º – a PT com € 0,10 (17 %) isto é a diferença dos 50 para os 60.
2º – o Estado € 0,12 (20 %) referente ao IVA sobre 0,60.
Numa campanha de solidariedade, a aplicação de uma margem de lucro pela PT e da incidência do IVA pelo Estado são o retrato da moral a que tudo isto chegou.
A RTP anunciou com imensa satisfação que o montante doado já atingiu os 2.000.000 de euros. Esqueceu-se de dizer que os generosos pagaram mais 44 % ou seja mais 880.000 euros divididos entre a PT (400.000 para a ajuda dos salários dos administradores) e o Estado (480.000 para ajuda ao reequilíbrio das contas públicas e aos trafulhas que por lá andam).
A PT cobra comissão de quase 20 % num acto de solidariedade!!!
O Estado faz incidir IVA sobre um produto da mais pura generosidade!!!
Confesso que este comentário me alertou para algo em que não tinha, ainda, pensado. E mesmo que as contas não sejam exactamente estas, o que está em causa é o lucro do intermediário entre quem dá e quem recebe.

Temos também o facto curioso de o IVA incidir sobre um donativo.
De facto, eu entendo que a PT cobre 10 cêntimos por servir de intermediária entre quem dá e quem recebe, e pela chamada telefónica. E entendo que esses 10 cêntimos, preço de um serviço prestado pela PT, estejam sujeitos a IVA.
O que já não entendo é que os 50 cêntimos do donativo estejam sujeitos a IVA, uma vez que esses 50 cêntimos não correspondem a nenhum valor acrescentado!
Não é à toa que a Sic Esperança é uma empresa.
No tempo do PREC fiquei desanimado quando uma lata de 4 litros de azeite, trazida por carolice por um colega directamente duma UCP (Unidade Colectiva de Produção) me custou pouco menos (talvez 5%) do que 4 garrafas de litro à venda no supermercado. Pensei então que os intermediários nem sempre tinham uma margem tão grande como pintavam.
Não sei quais são as margens do Pingo Doce ou do Continente mas prescindir deles implicaria a criação de uma central de compras e eventualmente a compra a granel, com subsequente empacotamento, alternativa mais complicada e com uma miríade de problemas na recolha e distribuição dos alimentos.
Quanto à PT será mais difícil perceber para que precisam de uma margem tão grande embora a infraestrutura de comunicações precise de ser paga, o que se consegue cobrando importâncias bastante acima do custo marginal do serviço. Levar mais um passageiro num combóio não custa à CP o preço dum bilhete…
De qualquer forma os ordenados dos administradores não precisavam de ser tão elevados mas isso é uma questão que ultrapassa este tema.
Não percebo.
Não é economista? E nunca tinha pensado nisso?
O lucro existe em qualquer bem, exceptuadas as florinhas do campo e outras coisas equivalentes que não matam a fome…. Mesmo assim, se a pessoa a quem a oferecer não se encontrar ao lado, é necessário transportá-la…
Prefiro dar dinheiro ao Banco Alimentar, via net, mas não sei se eles podem evitar o lucro do intermediário, e o imposto, comprando directamente ao produtor.
Mas é a única alternativa. Deixar de dar? Quanto muito exigir que os impostos baixem.
Não está a entender.
Suponha que Você quer doar 1000 euros a alguém. Manda-lhe um vale do correio. O vale do correio custa dinheiro (que é o pagamento aos correios pelo serviço de intermediação que prestam) e paga IVA (porque o serviço prestado pelos correios é um valor acrescentado, que paga imposto). Certíssimo. Porém, os 1000 euros propriamente ditos não pagam IVA!
O que acontece nas doações por chamada de valor acrescentado é que o próprio valor do donativo paga IVA. Ou seja, você entrega 60 cêntimos e paga IVA sobre a totalidade desse valor – e não apenas sobre a parte dele que se destina a pagar o serviço prestado pelo intermediário.
Está a ver a grande diferença? No caso do vale do correio, você paga IVA sobre 10 ou 20 euros (o preço do vale), mas não sobre o valor do donativo. No caso da chamada, paga IVA sobre o próprio donativo!
Pela sua delicada pergunta naturalmente não serei economista. Só penso ser. E, como vê, penso pouco porque o caro comentador já tinha pensado tudo antes de mim!
Caro b
Penso ser economista. Mas face às suas duas delicadas e oportunas questões, sou capaz de não ser. Ninguém se surpreenderia
Mas pelo comentário que faz, vejo que sabe muito mais do que eu e que pensou em tudo muito antes de mim. Não é, de certeza, economista…
Muito obrigada por me ter posto no meu devido lugar!
É por essas e muitas do mesmo género que abstenção eleitoral já ultrapassou os 40%. Este povo, qualquer dia deixa de votar, até porque, não sabem em quem devem votar, mas muito mais grave, é que nem querem saber. O futebol é mais importante, isso sim, é que vale a pena saber, todos os jogadores, todos os resultados, quem corre mais, etc.etc . De resto, a vida, é um deixa andar,o lema é: “desde que eu me safe que se lixem os outros”.
A fados e touradas, junta-se umas bolas, dá-se uns golpes à Alves dos Reis, mexe-se um pouco e temos Portugal.
Helena, tendo igualmente lido dito post, no blog do embaixador, admito que mais que a ponderar possíveis maquiavelismos de lucro, fiquei a pensar em algumas atitudes “desencantadoras” de ditas iniciativas.
Imagino que já todos tenhamos participado, ou meramente visto, as campanhas de “luta contra a fome” que se fazem nas grandes superfícies, utilizando o “saco” para doarmos alguns alimentos.
Sendo certo que sempre, e sem qualquer tipo de problema, aceitei dito “saco” e o recheei com o que considerava alimentos essenciais e próprios, há uma atitude mercenária de guerra psicológica que constantemente me incomoda.
Refiro-me à utilização de crianças para criarem uma determinada pressão sobre os consumidores; e até darei como exemplo algo que se passou no último Natal:
Tendo eu ido, nas vésperas da noite de Natal, fazer algumas compras necessárias para dita ocasião, fui recebido à entrada do supermercado por um bando de crianças que me ofereciam sacos e recitavam um texto bem treinado; aceitei prontamente o saco, e fui-o entregar no final das minhas compras.
No outro dia, no entanto, tendo me esquecido de algumas coisas, acabei por voltar ao mesmo sitio e reparei na atitude de algumas pessoas – adultas – que iam dando instruções às crianças sobre quem “visar” e se dirigirem.
Aproximando-me da entrada reparo numa senhora de alguma idade a apontar para mim e a chamar a atenção a uma miúda.
Devo admitir que de tal modo me desagradou tamanha orquestração que ofereci um sorriso à menina e lhe expliquei já tinha participado na campanha, no dia anterior, e que meramente ia ver se encontrava algo – sendo provável que nem fosse comprar nada. O olhar que, no entanto, dirigi à “cabecilha”, penso que terá sido elegantemente nada-subtil, tendo ela se “engasgado” procurando com que se entreter para fugir a dito olhar censurador.
Se esta perigosa campanha que se desenvolve – pelo menos a SIC já abraçou o tema no seu programa matinal, com a Júlia Pinheiro e mais o seu “detective dos crimes de faca na liga” de serviço INDIGNADOS! (eu ouvi com estes que a terra há-de comer) – criar raízes, o que teremos a seguir?
O apelo a que cada um de nós se torne num Robin dos Bosques? É que comprar no mercado paralelo evitaria a fatia do malvado do Estado, mas não eliminava o abominável lucro das Empresas! Ou então, o apelo ao extermínio dos pobres? Já agora, aproveitava-se e acabava-se também com os coxos?, e porque não com os morenos?, e com os daltónicos (não vão eles exterminar algum loiro por engano)? Onde pararia isto? É que não vejo terceira alternativa!
Mas há que pensar nisto?
Quase quarenta anos de democracia e ainda não apreendemos que todos os Impostos que pagamos devem ser entendidos como actos de solidadriedade? Pena que tenha que ser forçada, mas por isso mesmo se dizem… impostos! Se são mal aplicados, mudemos o Governo. Hoje temos esse poder, pela força do voto.
Quase quarenta anos de democracia e ainda não apreendemos que todo o Lucro das empresas deve ser visto como possibilidade de melhoria das condições de vida das populações e que o Estado deve apenas garantir que assim é? Senão, mudemos o Governo. Hoje temos esse poder, pela força do voto.
Vou agora comprar um raminho de flores para a minha mulher que cumpre hoje mais um ano de vida, sem me preocupar em saber se a florista colhe as flores no seu jardim ou se será uma franshisada, e nem mesmo com que o Estado me fique com 23% deste, também, acto de demonstração de amor!
Faz muito bem. Tudo quanto se dê à nossa mulher é pouco…