1. A derrota eleitoral, com o PS colocado cinco pontos percentuais abaixo do PSD, fez diminuir o tom de voz de José Sócrates: o ‘animal feroz’ apareceu esta noite com ar domesticado numa entrevista à SIC, conduzida por Ana Lourenço. Nada que se parecesse com o tom arrogante, quase impertinente, utilizado pelo primeiro-ministro noutra entrevista ao mesmo canal, fez agora seis meses. Nada que se parecesse com o tom duro e cáustico do chefe do Governo numa entrevista mais recente à RTP, conduzida por Judite Sousa e José Alberto de Carvalho.
Foi desta vez um Sócrates em sotto voce que surgiu na pantalha. Quase irreconhecível na forma, mas imutável no conteúdo: vive num país que só ele vê. Um país com as contas públicas equilibradas, "melhor educação", menos desigualdades sociais do que em 2005, mais abonos de família, o inglês generalizado no ensino básico e muitos computadores Magalhães distribuídos às criancinhas.
Azar: os eleitores que acabam de o penalizar nas urnas vêem um país diferente – um país em recessão, com a maior crise económica dos últimos 35 anos e meio milhão de desempregados oficialmente contabilizados, 40% dos quais sem subsídio de desemprego. Um país pior do que estava há quatro anos.
2. Foi pena que a entrevistadora, certamente por falta de tempo, não o tivesse inquirido sobre a quebra de sucessivas promessas eleitorais. Faltou falar dos impostos que deviam ter diminuído e afinal aumentaram. Faltou falar do referendo europeu que ficou pelo caminho. Faltou falar dos 150 mil novos empregos que não passaram de propaganda. Faltou falar sem sofismas das contas públicas que permanecem descontroladas, segundo acaba de confirmar o insuspeitíssimo Banco de Portugal. Faltou falar dos ‘estudos de viabilidade’ do TGV jamais concretizados. Faltou falar das severas críticas feitas ao Executivo pela ala esquerda do PS, protagonizada por Manuel Alegre. Faltou falar de vários ministros incompetentes que não foram substituídos em tempo útil.
3. Mudou o registo vocal, permanecem os auto-elogios no discurso deste homem cada vez mais insensível aos ecos da sociedade. "Eu estou muito satisfeito comigo", concluiu Sócrates. Parece não ter aprendido nada com as europeias além da conveniência em falar num tom menos estridente. Aprenderá mais alguma coisa com as legislativas?


Sócrates morreu. Se não morreu, é um político com a morte adiada. Quando um homem diz que está muito satisfeito consigo mesmo, é por que já viveu o que tinha a viver. E, mesmo assim, corre sempre o risco de ser juiz em causa própria, não sendo certo que tenha feito tudo quanto devia e podia.
Essa frase final, compadre, desfez de algum modo a pose contida, o verbo estudado e o tom melífluo usado durante o resto da entrevista. Voltou a ser o ‘animal feroz’, com o complexo de superioridade de sempre.
Certíssimo.
Em pele de cordeiro
elegantemente vestido,
ilude o povo ordeiro
que tem sido deglutido.
Com o espírito libertino
à espera da redenção,
tamanho é o desatino
da sua (des)governação.
Por puro oportunismo
para uns votos conquistar,
tremendo é o cinismo
para o mexilhão barafustar!
Adenda:
Cada vez mais insensível
aos ecos da sociedade,
de retórica repreensível
enjoando até à saciedade.
Em tom menos estridente
ecoando futilidades,
num país mais decadente
e farto de boçalidades.
Sócrates não tem nada que aprender. Se os portugueses o quiserem para PM, muito bem. Se não quiserem, só lhes resta aquela coisa chamada Ferreira Leite. Nessa altura, se isso acontecer, não dou 3 meses para estar tudo aos gritos na rua a dizer que Sócrates sempre era melhor.
Claro, ele vai deixar saudades. Boa piada.
Lembrei-me de uma cena d’«O Pátio das Cantigas». No dia em que Sócrates se afastar do poder, não faltará quem lhe diga: “Manda de lá saudades… que é coisa que cá não deixas!»
Está ligeiramente errada, Clara. Nem Sócrates nem “aquela coisa chamada Ferreira Leite” (expressão que aprecio, porque de facto é de uma “coisa” que se trata, uma coisa que não é carne nem é peixe) terão, depois das próximas eleições, maioria absoluta ou perto disso que lhes permita governar com um mínimo de estabilidade. Isso dever-se-á ao forte desvio do eleitorado para a esquerda: com 20% dos votos no PCP e no BE, não há forma de PS ou PSD sozinhos formarem um governo minimamente estável. Portanto, o que sucederá depois das próximas eleições será que PSD e PS formarão um governo em coligação um com o outro – não porque queiram ou gostem, mas porque será a única forma de o país ter um governo estável. Aquela coisa chamada Ferreira Leite será, para mal dos nossos pecados, primeira-ministra, e um socialista qualquer, que não Sócrates, será vice-primeiro-ministro. (Sócrates ficará como secretário-geral do PS mas fora do governo, porque ele e a coisa na mesma capoeira seriam dois galos sempre a brigar.)
Isto é a minha projeção. Não é um meu desejo, é simplesmente aquilo que eu prevejo que acontecerá.
Ao contrário de si, acho de mau gosto a expressão «aquela coisa chamada Ferreira Leite» e acho muito infeliz afirmar que é «uma coisa que não é carne nem é peixe».
Pode não ser carne, mas deixou uma espinha atravessada na garganta de muita gente que andava por aí com o pescoço esticadíssimo.
Digo que ela não é carne nem é peixe porque não tem ideologia definida, clara e consistente. Por vezes parece uma social-democrata a falar, outras vezes aproxima-se vagamente do liberalismo, mas noutras questões é uma conservadora. Ou seja, ela não é nada, que se perceba – não é uma conservadora tradicional de direita crisã, não é uma social-democrata tipo nórdico, e não é uma liberal (como eu me considero).
Parto então do principio de que encontra uma ideologia definida, clara e consistente em Sócrates?
Que pergunta maldosa. Hehe…
Sim, Sócrates é um social-democrata, com as adaptações necessárias a quem governa um país não muito rico e numa época de globalização (o que é muito diferente de governar a Suécia no pós-guerra!). Não é um liberal, a não ser na medida das adaptações acima referidas, e também não é, decididamente, um conservador.
Ou seja: é uma espécie de elástico. Como tanta gente do PSD, por exemplo…
Não vejo como é que ser um social-democrata quer dizer que se seja “uma espécie de elástico”. A social-democracia é uma ideologia razoavelmente bem definida.
A maior parte das pessoas do PS são, diria eu, social-democratas.
O problema do PSD é que, tal como a sua líder, não tem ideologia definida. Há lá pessoas social-democratas, outras conservadoras, e outras liberais. Isso é mau, porque não sabemos nunca com o que podemos contar vindo desse partido. Trata-se de facto, a meu ver, de um partido profundamente não ideológico (e nisso é bem português – o povo português é muito fraco em matéria de ideologia e, em geral, em matéria de definição intelectual) e unido essencialmente por interesses práticos, do tipo “tu apoias-me a mim e eu ajudo-te a ti”.
Também há liberais e conservadores no PS.
«O povo português é muito fraco em matéria de ideologia e, em geral, em matéria de definição intelectual», o que não pode estranhar-se: viram-se mais para as matemáticas aplicadas, a física, etc.». E o mandarim.
O PS nunca fará governo com o PSD, isso garanto-lhe.
Também acho que nenhum partido vai ter maioria absoluta, mas espero que os portugueses continuem lúcidos e dêem uma maioria de esquerda ao Parlamento (PS, BE, PCP). Depois logo se vê, porque a direita, não tendo maioria, não consegue goverrnar.
Chamar ‘aquela coisa’ a uma adversária política, ainda para mais tratando-se de uma senhora, e vindo este qualificativo também de uma senhora (presumivelmente), ilustra bem a degradação do debate político a que se assistiu nestes últimos anos – os anos Sócrates.
Não interessa isso de ser “uma senhora”. Está na luta política , tem de aguentar se quer continuar. Lembre-se que a direita especialmente tem insultado Sócrates de tudo e mais alguma coisa, inclusivamente pondo em causa o seu bom nome. Se pensam que se safam com essa concepção marialva de que Ferreira Leite “é uma senhora”, esperem aí pelo que vem.
Não será preciso esperar pelo que aí possa vir: a sua posição já serve de mote.
Fiquei a saber agora: chamar senhora a uma senhora é ser marialva. Presumi que este comentário vinha de outra senhora, mas já conclui que estava enganado. Retiro portanto o que disse, o que aliás me evita receber a dobrar o epíteto de marialva. Moral da história: estamos sempre a aprender.
“Vive num país que só ele vê”
Diz bem , apenas ele vê . Creio ser uma patologia que atinge a quase totalidade dos que alcançam lugares de poder .Isolam-se num mundo imaginário , acho mesmo que a certa altura devem acreditar no que dizem….a mentira passa a verdade !
Mesmo com um tom de voz pianinho , foi ofensivo no desprezo que demonstrou.
Uma patologia grave …um internamento compulsivo seria aceitável , já que perder votos não é remédio.
Fala pianinho agora porque no resto do País todos começam a falar grosso. Mero ‘marketing’ político que já não convence ninguém.
“um país em recessão […] pior do que estava há quatro anos”
Quase todos os países do mundo estão hoje em recessão e pior do que o que estavam há quatro anos.
Embora isso seja em muitos casos motivo para os povos despedirem o governo que está no poder, não me parece, em geral, uma boa razão. Porque esse governo não tem, em geral, qualquer culpa nessa recessão.
Pouco importa se a razão é boa para si ou não. São os eleitores que decidem e a verdade é que os eleitores têm sempre razão.
Quando o País não estava em recessão, o PM gabava-se de que o facto se devia a ele – e só a ele. Como se a nossa economia fosse totalmente independente do exterior. Quando o País entrou em recessão, contra todas as previsões do Governo, o PM invocou que tal se devia a factores externos – e só a eles. Como se a nossa economia fosse totalmente dependente do exterior. Como bem diz, uma grave crise económica é, em geral, motivo suficiente para os povos despedirem os governos com justa causa.
“40% dos [desempregados] sem subsídio de desemprego”
(Isto parece a voz do Bloco de Esquerda.)
Concordando eu que esta situação é grave e penosa, pergunto o que é que o governo pode fazer a tal respeito.
É claro que um emprego a recibos verdes é, por definição, um emprego falso e sem prestações sociais. Um empregado a receibos verdes é, por definição e até legalmente, uma pessoa que tem que cuidar da sua própria segurança social, incluindo nisto o fazer poupanças para o caso de cair no desemprego.
Pode-se considerar isto como triste e indesejável, mas eu diria que, de uma perspetiva liberal, é perfeitamente razoável. As pessoas, enquanto trabalham, são responsáveis por ganhar dinheiro suficiente que lhes permita poupar para quando fiquem temporariamente sem trabalho. Se não o fizerem através do sistema compulsório da Seguança Social, devem fazê-lo através das suas próprias poupanças.
Independentemente deste meu ponto de vista, é difícil de ver como pode a Segurança Social fornecer subsídio de desemprego a pessoas que não sabe se estiveram efetivamente a trabalhar no passado, dado que apenas apresentaram recibos verdes.
«O que é que o governo pode fazer»? Nada. O melhor é despedir o governo, que fica mais barato.
Eu escrevi “o governo” e não “este governo”.
O problema é que nenhum governo pode fazer nada sobre este assunto. Recibos verdes não são empregos, e prontos. Portanto, quem recebe a recibos verdes tem que cuidar do seu próprio desemprego. E é bom que cuide.
(O João Cravalho está interessado em fazer oposição ao governo. Eu não estou interessado nisso, estou interessado em discutir argumentos.)
Eu também escrevi “o governo” e não “este governo”.
O Luís Lavoura acha mesmo que eu estou interessado em fazer oposição ao governo? Olhe que não. Eu sou muito mais ambicioso: estou interessado em ter um País governado por gente séria e capaz, que eleve Portugal ao padrão dos países sérios e capazes.
“Concordando eu que esta situação é grave e penosa, pergunto o que é que o governo pode fazer a tal respeito.”
Pode fazer muita coisa, caro Luís. Pode não tomar medidas que prejudicam o emprego entre os jovens (aumento do salário mínimo, por exemplo). Ou pode tomar medidas que não favoreçam o emprego de longa duração.
Mesmo os recibos verdes, são um problema grave português porque são frequentemente utilizados dado o mercado de trabalho inflexível. As empresas recorrem então aos recibos como forma de obterem alguma flexibilidade. Mas isto promove trabalhadores de primeira e de segunda dentro de uma empresa. Com enormes custos para os trabalhadores que entram em ciclos permanentes de trabalho a recibo verde sem que consigam obter formação das empresas uma vez que as mesmas vêem-nos como trabalhadores descartáveis.
Eu concordo largamente consigo, caro Jorge Assunção – ou não fosse eu um liberal. Mas você alguma vez acredita que algum governo em Portugal, seja ele do PS seja ele do PSD seja ele de qualquer outro partido, vai fazer isso que você sugere??? (Aliás, isso que você sugere é até em boa parte proibido pela Constituição da República.) Só um governo liberal poderia tomar medidas como precarizar os contratos de trabalho, flexibilizar os horários de trabalho e possibilitar os despedimentos sem necessidade de apresentação de justa causa. E nenhum partido português é liberal a esse ponto.
Portanto, de facto, aquilo que Sócrates não pode fazer para combater os recibos verdes, nenhum outro partido português pode fazer. Não vale a pena mudarmos de governo para ficarmos com os mesmos problemas…
O problema é que parte dos “40% dos [desempregados] sem subsídio de desemprego” são jovens, que nunca tiveram emprego que garantisse o acesso ao subsídio de desemprego (o problema não resume-se aos recibos verdes). E Sócrates aumentou o salário mínimo recentemente, o que dificultou o acesso dos jovens ao emprego. E Ferreira Leite a esse propósito até disse uma ou outra coisa acertada. Aqui não há modo de desculpabilizar Sócrates.
Isso de o aumento do salário mínimo dificultar o acesso ao primeiro emprego é argumento sobre o qual tenho bastantes dúvidas. Mas concordo consigo em que o aumento do salário mínimo tem sido excessivo.
Luís: ao escrever que o governo (subentenda-se: este governo, que é o que está) nada pode fazer nesta matéria, V. admite implicitamente que o melhor é mesmo ser substituído por outro. Quanto às estatísticas sobre o desemprego, meio milhão é um número falso – há muito mais desempregados do que isso. Milhares de desempregados que desistiram de se increver nos centros de ‘emprego’, que na maior parte dos casos são ‘centros de desemprego’ e foram portanto abatidos às estatísticas. Milhares de desempregados que cumprem inúteis «acções de formação» só para evitar estatísticas ainda piores. Milhares de desempregados, sobretudo jovens, que se viram forçados a emigrar, como no Portugal dos anos 60, por não encontrarem trabalho no seu país.
Negar isto é negar a maior das evidências neste Portugal de Sócrates. E é não perceber o principal motivo que levou o PS a perder 18 pontos nas eleições – a maior queda percentual de um partido do Governo nestas europeias.
Eu não nego absolutamente nada disso, Pedro.
A única coisa no seu comentário que nego é que eu tenha admitido implicitamente que seja melhor substituir este governo por outro. Porque aquilo que esta governo não consegue fazer, nenhum outro (com os partidos políticos e com as ideologias existentes em Portugal) conseguirá. Não vale a pena mudar de governo para ficarmos na mesma merda. Assim como assim, o governo Sócrates tem a vantagem de ser minimamente competente e minimamente reformista, ao contrário dos governos PSD-CDS que se caraterizaram pela total incompetência e pela total inoperância.
Bem, essa é outra questão que merece ser amplamente debatida nos meses mais próximos. Quanto às responsabilidades políticas do PS, convém não esquecer que este partido governou em 11 dos últimos 14 anos em Portugal. O estado do País, para o melhor ou para o pior (os eleitores julgarão), deve-se, mais do que a qualquer outro partido, ao PS.
É deste modo que sempre nasceram os pequenos ditadores que mais tarde se mostraram monstros para as sociedades. Quando ele diz que está satisfeito consigo mesmo é porque conseguiu nivelar o país por baixo. Coitado, tenho pena deste tipo de pessoas que mais não sabem que olhar para o seu umbigo.
Pois. Pior ainda é terem de andar à procura do umbigo, por não se lembrarem bem onde fica…