Sobreviventes (17)


Pedro Correia,

 

ERNEST BORGNINE

 

No passado dia 30, um actor já de idade visivelmente muito avançada mas com passo ainda vigoroso subiu ao palco para receber o prémio de carreira que lhe foi atribuído em Los Angeles pelo Sindicato dos Actores norte-americanos. Muitos cinéfilos mais jovens não saberão, mas estava ali uma lenda viva do cinema: Ernest Borgnine, ainda em actividade após ter participado em clássicos da Sétima Arte como Até à Eternidade (1953), Johnny Guitar (1954) e A Quadrilha Selvagem (1969).

A vida de Borgnine dava um filme. Não tinha físico de galã, longe disso, nem parecia fadado para a arte de representar quando deixou de prestar serviço na marinha, após a II Guerra Mundial. Filho de imigrantes italianos, que o baptizaram como Ermes Borgnino, o primeiro filme em que entrou, aos 36 anos, não perdura na memória de ninguém. Chamava-se The Chinese Corsair – um nome que diz quase tudo.

Quatro anos depois, no entanto, Borgnine tinha Hollywood, Nova Iorque e Cannes a seus pés. Graças à sua interpretação de um tímido dono de um talho em Bronx num filme de apenas 91 minutos chamado Marty que reconciliava o cinema americano – então infestado de megapelículas em scope – com a realidade quotidiana. “É um dos raros filmes americanos recentes com diálogos verosímeis”, aplaudia a exigente New Yorker. Marty – um drama de Paddy Chayefsky exibido originalmente na televisão, com Rod Steiger como protagonista – seduziu o público e convenceu a crítica. “Os argumentistas dos estúdios deviam passar mais tempo a ver televisão”, observou a Variety. Filme, realizador (Derlbert Mann) e Borgnine receberam Óscares e o prémio anual da crítica nova-iorquina. Mais significativo ainda: esta foi a primeira longa-metragem americana galardoada com a Palma de Ouro em Cannes.

Em 60 anos de trabalho incessante no cinema, Borgnine rodou com Nicholas Ray, Fred Zinnemann, Sam Peckinpah, Robert Aldrich, Richard Brooks e John Sturges, entre outros cineastas de primeira linha. Contracenou com Gary Cooper em Vera Cruz, Spencer Tracy em A Conspiração do Silêncio e Bette Davis em The Catered Affair. Nenhum actor vivo conheceu tantos gigantes da Sétima Arte. E em 2010 ainda trabalhou em quatro filmes. The show must go on, Mr. Borgnine.

 

Nasceu a 24 de Janeiro de 1917 (tem 94 anos)

 

6 comentários em “Sobreviventes (17)”

  1. Caríssimo,

    Um dos filmes que mais gosto com o Borgnine:
    Ice Station Zevra.

    Forte abraço e obrigado. Por tudo.

    1. Ernest Borgnine é, dos actores ainda vivos, aquele que foi galardoado há mais tempo com Óscar de melhor representação masculina. O espantoso é que continua a actuar, 55 anos depois de ter recebido essa estatueta – das mãos de Grace Kelly.

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