Sobre o orifício bónus


Paulo Sousa,

Não vale a pena inventar um nome fictício.

Refiro-me a uma senhora, quase vizinha, dona de um dos mais coloridos enxovais de palavras com que a Divina Providência prendou esta pequena povoação onde nasci e vivo, e que, desde tenra idade, sempre conseguiu alegrar todos os que a escutam. Quer dizer, nem todos, porque quando se vira do avesso, abrem-se-lhe as goelas três oitavas acima do habitual (sendo já o “habitual” tudo menos discreto) deixando toda a comunidade a lamentar a falta de sorte do visado.

Órfã desde tenra idade, cresceu com uma tia, duas portas ao lado da tasca onde se encontravam os piores beberrões das redondezas. A falta de instrução primária nunca lhe tolheu a veia jogral, no sentido poético do termo. Foi sempre muito boa a memorizar palavras difíceis e invulgares, assim como a conseguir usá-las no momento certo, com conta peso e medida, que é como quem diz, nunca gastou uma manilha para cortar palha.

De zero a cem, a sua amplitude lexical começa logo ali ao pé da porta, onde desde nova se tornou na figura mais popular da tasca, subindo até aos píncaros que lhe permitiam ter cordiais conversas com catequistas, beatas e até com o Senhor Prior.

Lembrei-me dela, quando li sobre uma qualquer agremiação que sugeriu o recurso à expressão “orifício bónus” como alternativa à palavra “vagina” e tudo isto para não ofender homens trans e pessoas não binárias. Correndo o risco de tomar opinião, confesso a dificuldade em desvalorizar o alcance de quem decide chamar “bónus” a uma vagina. Confesso até a surpresa pela incapacidade metafórica de quem se diz preocupado com as sensibilidades trans e não binária, e que acaba por associar algo de positivo, de recompensa ou até de, cruzes canhoto, prémio, ao que na imemorial conversa sobre uma “foot massage” à belíssima esposa de Marsellus Wallace é descrito como o “santos dos santos”.

Ora se o prémio do seguro automóvel varia de acordo com o sistema bónus-malus, em que o bónus equivale a uma descida do valor a pagar, e o malus a um agravamento como punição pelos sinistros causados, está ou não o bónus associado a algo que é tudo menos neutro? Muito sinceramente, esta agremiação sofre de homofobia estrutural e galopante, hétero-patriarcal e neo-libertário-carbónico-positiva. No mínimo.

E é aqui que as sólidas valias hermenêuticas da minha quase vizinha podem ser válidas.

Um dia, um amigo meu deu por ela no meio da rua principal a relatar detalhadamente, com ar sério, alto e bom som e para quem quisesse ouvir, um exame que lhe tinham feito em Coimbra. Este meu amigo já não se lembra da maleita que motivou tal procedimento, mas o trecho que entrou para a memória colectiva da terra foi qualquer coisa assim:

– “E depois meteram-me o aparelho, uma coisa de ferro assim deste tamanho, na boca do corpo. E não te estejas a rir, ó sacana, que já não és nenhum garoto. Querias que eu dissesse outra coisa, mas eu aqui ao lado da Igreja não digo palavras porcas. Vai bardamerda.”

Fica a sugestão. A boca do corpo.

16 comentários em “Sobre o orifício bónus”

  1. A sua vizinha não é a única, na minha aldeia sempre ouvi as gentes com a idade de minha avó utilizarem a expressão “a boca do corpo” referindo-se à vagina – penso que nem lhe sabiam o nome. Nesse tempo, a cabeça humana e mais seus pertences era considerada coisa à parte e chamavam corpo ao tronco humano.
    Não consigo entender os preciosismos gramaticais de hoje. Quantas vezes a intolerância humana desrespeita as minorias elas mesmas, as trata mal e não as quer por perto. E depois vêm-nos com correcções e acrescentos linguísticos de chacha. Bacoquices.

  2. tenho conhecidos na Beira Baixa junto ao Tejo que relataram o caso duma moça ao saltar uma parede rachou a dita boca. houve um corrupio de gente para ver o desastre.
    quando estudei um ano no Porto diziam ‘frincha’

      1. «Horta Da Passarinha. Alcáçovas. » fêmea do passarinho
        porque a mencionada boca se designa por passareta

  3. “boca do corpo”, como acima já comentado, é expressão com pedigree. Agora esta do “bónus” é verdadeiramente espantosa – inenarrável mesmo. Coíbo-me, atendendo às senhoras que por aqui passam, de transcrever as inúmeras imagens retóricas que logo me acorreram ao ler o postal…

  4. Os ingleses chamam-lhe birth canal, ou seja, “canal do parto”, o que me parece apropriado. De facto, a vagina não é propriamente um orifício, mas sim um canal.

  5. Temos que fazer frente a estes lunáticos que pretendem mudar a forma escrita e falada normalizada em nome da nova religião da sopa de letras , da identidade de genero , transgenero e um par de botas. Devemos dizer basta e parar com esta maluqueira em nome do normal funcionamento das escolas e do desenvolvimento dos jovens. Basta de pactuar com excêntricos. É hora de começar a ridicularizà-los e também aos políticos que procuram navegar essa onda de indignados que têm por lema ” ofendo -me, logo existo”.

  6. Chalupas a saírem das tocas (ou frestas? ou frinchas? ou gretas? ou grutas? ou buracos? ou ranhuras? ou luras?) é fenómeno actual, de todos os dias.
    Os mais assanhados em chalupice vêm enfeitados com ornamentação académica. Nem todos frequentaram o benemérito Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

    1. Soubemos há dias, que no Centro de Estudos Sociais de Coimbra os direitos da dita dependem da década de nascimento do mastronço. Não deixa de ser uma teoria com piada, dado que os autoproclamados direitos especiais de um octagenário, esbarrarão noutros impedimentos resultantes da natureza. Mas isso é todo um outro assunto.

  7. Tendo a certeza de que (com toda a justeza) serei censurado (mas sendo, ao contrário do vosso jpt, incapaz de resistir à tentação), tenho a ideia de, noutros tempos, no comércio destas coisas, o “orifício bónus” era outro.

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