Sobre a “terrível influência das religiões” no debate de ideias


João Pedro Pimenta,

 

Já me tinha saltado à vista em 2018, por ocasião da mesma discussão, e na altura fiquei calado. Mas voltei a reparar agora. Parece que há muita irritação da parte de alguns defensores da despenalização da eutanásia por haver pessoas que são contra por razões religiosas. Vai daí, lançam-se numa diatribe a favor da “laicidade do estado” (os mais suaves) ou contra “a intromissão das religiões”, “os ratos de sacristia” ou a “igreja do cardeal Cerejeira” que “parece querer voltar aos tempos da Inquisição”.

Convém relembrar o óbvio: a laicidade do estado significa a separação entre este e as instituições religiosas, não a supressão destas ou a sua hostilização por parte dos poderes públicos. Quanto à inquisição contemporânea e outros delírios, que eu saiba numa sociedade pluralista as religiões têm o seu lugar e as pessoas podem perfeitamente defender os seus princípios baseados na sua fé, políticos incluídos. Por isso sim, há pessoas contra por razões religiosas e isso é perfeitamente legítimo. Assim como a maioria é influenciada por razões políticas ou de outra ordem, e têm igual legitimidade. Aliás é curioso verificar como por vezes a defesa da “liberdade religiosa” para alguns parece ser ou a defesa de apenas determinados cultos ou uma atitude de “sim, tenham lá a fé que quiserem mas exprimi-la em público ou expressar ideias baseadas nela é que não pode ser”. Sobretudo numa altura em que tantas opiniões são exprimidas com base em variados conceitos novos e não poucas vezes intrigantes quanto ao contexto – no outro dia lia algo sobre “uma abordagem ao colonialismo do ponto de vista LGBT(?)”. Por isso, protestar contra a influência da religião no pensamento dos seus seguidores não é laicidade nenhuma, é apenas desagrado com algo que o emissor não aprecia, mas que numa sociedade aberta (ou diversa, como se diz agora), terá de aceitar, assim como as confissões tiveram de aceitar a legalidade da blasfémia. Caso contrário, não contem comigo para regressar às políticas da 1ª República de má memória.

15 comentários em “Sobre a “terrível influência das religiões” no debate de ideias”

  1. Não é essa a questão.
    O problema não é as religiões imporem aos religiosos o não à eutanásia.
    Ninguém, de fora, quer impor seja o que for às religiões e aos religiosos.
    O problema é as religiões quererem impor aos não religiosos a criminalização da eutanásia.
    Isso chama-se intolerância perante a diferença, abuso de poder, expoliação da liberdade de cada um.

    João de Brito

    1. Que eu saiba, a eutanásia não vigora em Portugal e ainda é considerada um crime, logo dizer que são os religiosos que a querem impor não tem qualquer sentido. Já agora, também podemos dizer que há quem imponha a criminalização da fuga aos impostos, ou o seu relativismo não chega a tanto? são outros. Ou será que pouquíssimos países no mundo a adoptaram por “imposições dos religiosos”? Quanto ao “Ninguém, de fora, quer impor seja o que for às religiões e aos religiosos” daria para contra-argumentar pela noite fora, mas peço ao João de Brito que reflicta se não terá sido muito apressado: ninguém quer mesmo impor nada aos religiosos? Desde os trolls na net que dizem que “as religiões deviam era acabar todas” até países que impõem oficiosamente o ateísmo de estado, como a China, essa fase é capaz de perder todo o seu sentido.
      Não haja dúvida, é mesmo de ideias como essas que o meu post refere..

      1. O João de Brito é daqueles personagens muito singulares. Se a Igreja for contra a sarna, o João de Brito faz questão de ter sarna. E assim é!!

    2. A questão é que o João de Brito também é religioso. Acredita na religião Política.
      Que é aliás a religião dominante na Europa. Guerras religiosas provocaram mais de 100 milhões de mortos na Europa no século passado.

      Por exemplo o João de Brito quer a criminalização de quem se recusar a pagar para a Eutanasia que defende.

      Por isso onde está essa liberdade de que fala mas que não cumpre?

      Outra, o João de Brito na sua religião Política quer impor a criminalização do divorcio se for um patrão e um trabalhador.

      lucklucky

    3. Vá um pouco de ironia.
      Então, religiosamente, acabando o sofrimento antes da morte certa, nunca haveria
      o ‘Deus me salve’. Mas salve de quê? Da dor ou do ter andando a dar milho aos pombos e o sofrimento que está a ter é a ‘entrada pró inferno’ ?
      Nunca consegui perceber aquele alivio religioso do ‘estava na hora dele’, acontece em que circunstâncias for, até a última duas mortes de pai e filho morrerem afogados nos dejectos dos porcos foi um chamamento divino.
      E ainda sobre os cuidados a pessoas em estado de grande sofrimento havia, até aos meados dos anos 60, nos Hospitais as Irmãs da Caridade (freiras) que confortavam/estavam sempre ao lado dessas pessoas, mas parece que ‘atrasavam a hora deles’ e passaram para a grande actividade comercial de lares de idosos.

      1. “A hora dele” é uma expressão popular para estas ocasiões, não é um consolo. Essa das irmãs atrasarem “a hora deles” ainda é pior que o argumento “ad hitleruu” em relação aos defensores da eutanásia, ou da “eles querem é matá-los para ficar com as pensões”. Não sei se o anónimo já teve de consolar pessoas À beira da morte, mas quem o faz merece-me bem mais respeito do que autores de “ironias” neste assunto tão sério. Deve acha que a questão tem tanta profundidade como discutir marcar de gin.

  2. Eu acrescentaria sobre a terrível influência do estado na introdução do legalismo para legitimar novos cultos farisaicos e egocêntricos que confundem laicidade com arranjos em roda livre que pretendem sobrepor ao comum, fazendo que o comum aceite e que aceite também uma opção dita individual que agride a estrutura de uma sociedade.

    O motivo da reflexão deve ser outro: É capaz o estado laico conceber e legislar sobre teorias artificiais provocando administrativamente um ciclo contrário ao que é comum e natural?
    Claro que não.
    O estado laico, e outros socorrendo-se desta laicidade, pensavam que a lei libertava e, mais ainda, que seria a penalização legal contra os demais que os levaria a ser aceites. Os movimentos de resposta a estas agressões surgem hoje um pouco por todo o mundo; e se não existir ponderação para o fenómeno poderá ocorrer uma grande fricção social.

    Outra coisa será circunscrever os temas a matéria de direito. O direito está consignado nas mais variadas cartas e constituições; e quando foi concebido teve carácter universal, isto é, era para iguais e para diferentes, mas nunca para transformar a diferença em igualdade e exaltar o individual.

    Assim, procurando também arredar o religioso da vida social e de uma nação só revela que se procura a estigmatização do comum em favor do diferente.

    O Brasil, USA, Rússia, Síria e outros mais têm vindo a demonstrar que a anterior perseguição e tentativa de arredar o cristianismo da vida das nações não só congregou estes como também outros das demais religiões a estes e vice-versa.
    No caso brasileiro e norte-americano convém ter em boa nota que muitos dos apoiantes dos anteriores governantes são os mesmos que, perante as agressões legislativas desses e a tentativa de se funcionar em roda livre contra o senso-comum, apoiam a legislatura actual.
    Tudo isto para dizer que o conservadorismo não é ofensa, porque há matérias em que se é conservador por natureza. E neste conservadorismo não há religião e ideologia que se sobreponha. É uma falsa questão atacar a religião para justificar o conservadorismo que se pretende contrariar assim como, da mesma forma, não há ideologia que a este se contraponha.

    No caso português, existe uma nota conjunta de budistas, católicos, evangélicos, muçulmanos, judeus, hindus e outros mais contra a despenalização da eutanásia. Acrescentando que outros não religiosos, os ditos conservadores, também alinham por estes princípios.

    Concluindo, a caça às bruxas está mal enquadrada.

    1. Nem é preciso ser-se conservador. Mas não tenho a menor dúvida de que há por aí muita gente que quer aprovar certas normas não tanto pelo que elas significam mas para pode contrariar os religiosos. O que não deixa de ser uma violação à laicidade do estado.

      1. O jacobinismo não se impressiona com a razoabilidade de argumentos nem com o discurso legitimador mais elementar. O jacobinismo é movido por uma imensa fé!!

  3. Hitler na Alemanha aplicou o “sistema”.
    Por isso na Alemanha ninguém fala nisso.
    Com o desgoveno que temos os esquerdóides, (BE incluído) essa medida progressista deve ir no futuro ser um caça “idosos reformados, doentes e inválidos!

    A.Vieira

    1. Hitler na Alemanha aplicou o ‘sistema’.
      Aqui temos o truque da ‘muitos não sabem e vai pegar’.
      O que é que os assassinatos do Hitler tem a ver com a eutanásia?
      Bem, não me diga que foi tudo a pedido dos doentes em estado terminal.
      Rectifique a asneirada, ou é ignorante ou está a atirar areia prós olhos de quem sabe ler.

      1. Este estropício anonimo vem aqui, `a laia de chico esperto, explicar aquilo que não sabe, logo inventa!! As leis de eutanasia do Reich para além de compreenderem o consentimento presumido para aqueles que não estavam em condições de prestar o consentimento esclarecido, coisa que seria atestada por junta médica especializada, compreendiam principal e igualmente a eutanásia por consentimento expresso!! Era esse o texto da lei, seu ignorante presunçoso!!
        Vcmce é um gebo, vesgo e corcunda. Da espécie dos malhadinhos da areia!!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *