Sofia Loureiro dos Santos elabora uma longa resposta a este meu texto mas julgo não ter rebatido o essencial da minha argumentação, que contestava a desqualificação lançada sobre Joaquim Vieira. Lida a resposta, continuei sem saber como é que um jornalista erigido em Setembro como autoridade no plano ético e deontológico se transforma, em Fevereiro, num autor de "disparates" e "manipulação política" por ter apelado à "desobediência civil" dos jornalistas portugueses em casos que possam violar a sua consciência profissional.
Não ignora a Sofia que os jornalistas têm um duplo compromisso: com a verdade e com os cidadãos que devem informar e esclarecer. Este quadro deontológico pode, em situações limite, pô-los em confronto com as autoridades judiciais. Em caso de absoluta necessidade de protecção de fontes, para não ir mais longe. Isso levou, por exemplo, a jornalista do New York Times Judith Miller – galardoada com o Pulitzer – a ser detida durante três meses em 2005, às ordens da justiça norte-americana, por recusar revelar uma fonte, agindo de acordo com a sua consciência profissional, o que inspirou o filme Nothing but the Truth, de Ron Lurie (2008).
A desobediência civil, como nos ensinaram Gandhi e Martin Luther King, pode ser um imperativo cívico. Foi isto, se bem entendi, que o Joaquim Vieira pretendeu dizer, o que torna – a meu ver – ainda mais injustos os qualificativos com que foi brindado.
Gostaria, a propósito, de recordar à Sofia que a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem feito recuar a protecção legal do segredo de justiça quando estão em causa figuras públicas e situações de manifesto interesse público, dando origem a condenações do Estado português nesta matéria.
É um assunto que, só por si, proporciona novas pistas de reflexão. Quanto ao resto, gostaria que continuássemos a debater na blogosfera sem esquecer elementares regras de civilidade, independentemente da maneira como pensamos. É um princípio que imponho a mim mesmo desde o primeiro post que escrevi.
Imagem: Kate Beckinsale, em Nothing but the Truth


Diz a Sofia Loureiro dos Santos que «os problemas políticos são para ser tratados em sede própria», mas desconsidera que a gestão da coisa pública seja tratada publicamente, o que tenho por saudável e desejável. Mais ainda quando cheira que essa gestão é feita atrás da porta. 471779.html) o que importa saber e por quê. O resto é retórica misturada com fumo.
Por tudo isso e o mais que se queira é que aqui escrevi (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1
Caro Pedro
A menina Sofia, que não vê crime na actuação de um Poder político podre e prepotente, devia ter tido um estágio em Macau na década de 90 para ver de imediato o que é a existência de um Poder político a comprar jornais e jornalistas para que escondam a corrupção e os cambalachos. Coincidentemente, à semelhança do que se passa por cá.
Pedro Correia
Não tenho mais nada a acrescentar ao que disse, mas agradeço o seu comentário. Há sempre novas pistas para reflexão.
Só não percebo a razão destas últimas frases: “Quanto ao resto, gostaria que continuássemos a debater na blogosfera sem esquecer elementares regras de civilidade, independentemente da maneira como pensamos. É um princípio que imponho a mim mesmo desde o primeiro post que escrevi.” Faço minhas as mesmas imposições e não percebo em que altura esqueci as “elementares regras de civilidade”.
Sofia, essa é uma tese geral e abstracta, que nunca é de mais sublinhar (como referi, imponho-a a mim mesmo). Não visava qualquer texto seu, mas um certo clima de absurda agressividade que venho detectando na blogosfera de há vários meses para cá, como se as divergências se redimissem pela via do insulto. De resto, como sabe, já mais de uma vez tive oportunidade de referir o apreço que as suas reflexões me suscitam, mesmo quando discordo delas.
Obrigada, Pedro.
E não será o Artigo 21.º (http://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx#art21) da CRP um claro apelo à desobediência civil?