Só podia ter acabado como acabou


Pedro Correia,

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Subitamente, em 1974, faz agora 44 anos, Lisboa transformou-se na capital da Europa. Enviados especiais de todas as partes do globo acorreram, em fluxos torrenciais, à cidade onde os cravos floriam nas espingardas. E Portugal passou a ser notícia – não durante dias ou semanas, mas durante meses, até a chama revolucionária se esgotar em Novembro de 1975.

 

Figuras como Mário Soares, Álvaro Cunhal, António de Spínola, Vasco Gonçalves, Costa Gomes e Otelo Saraiva de Carvalho compareciam nas capas de jornais e revistas, sob títulos dos mais diversos idiomas. Havia os discípulos de Maquiavel que, como o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, apostavam que Portugal seria a “vacina da Europa”, espécie de laboratório onde se experimentava a revolução socialista destinada a falhar e a constituir um exemplo à escala universal. E havia os outros, os que sonhavam que todas as utopias seriam possíveis no auge da Guerra Fria neste canto mais ocidental da Europa.

Intelectuais de diversos matizes – de Jean-Paul Sartre a Glauber Rocha – acorreram ao país que adormecera em plena ditadura caetanista e despertara já sob o mito da “sociedade sem classes”. Sérgio Godinho, numa canção com letra sábia, advertia: “Só quer a vida cheia quem teve a vida parada.” Mas ninguém o escutou, entre as palavras de ordem entoadas nos comícios de rua.

 

Os repórteres estrangeiros que afluiram a Lisboa deixavam-se fascinar pelas figuras mais iconográficas do golpe revolucionário – do monóculo prussiano de Spínola até à cabeleira branca de Álvaro Cunhal com o seu perfil de príncipe florentino. E choviam hipérboles: André Pautard, por exemplo, comparava na revista L’Express o 25 de Abril à libertação de Paris somada ao Maio de 68. Raymond Cartier, da Paris-Match, jantava em casa de Mário Soares, ao Campo Grande, e trazia de lá uma indigestão de novidades. O brasileiro Berilo Dantas, enviado da revista O Cruzeiro, conversava com Mestre Chico, durante 30 anos barbeiro de Spínola, e revelava que o general almoçava todos os dias no mesmo hotel de Lisboa.

Um homem que não dispensava as rotinas surgia ao leme da revolução: quem soubesse decifrar sinais perceberia já então que tudo só poderia acabar como acabou.

38 comentários em “Só podia ter acabado como acabou”

  1. Liberdade e democracia nunca pode haver em demasia.
    Qualquer pessoa que tenha estado prisioneiro num qualquer famigerado campo de concentração saberá explicar o porquê, de depois de meses ou até anos de abusos e privações de tudo, pricipalmente do alimento que a fez funcionar, não deve nunca comer ou beber de uma só vez tudo o que lhe põem à frente. O organismo fragilizado não suporta o excesso e acaba por entrar em ruptura .
    Deve o sustento ser ministrado em doses pequenas, para poder ser absorvido e aproveitado com moderação pela estrutura física.
    Nunca fomos moderados. Acabamos por exagerar em tudo; no bom , mas principalmente no mau.
    Só podia ter acabado como acabou.

    1. Somos exagerados no momento, somos comedidos no contexto. Faz parte da nossa maneira de ser. E de estar.
      Daí a nossa “revolução”, no momento em que eclode, ter como protagonista um general de monóculo com uma folha de serviços exemplar ao serviço do regime deposto.
      Há coisas que convém recordar nestes tempos em que a memória flui como bolas de sabão.

        1. “Nunca fomos moderados. Acabamos por exagerar em tudo(…)Sou apenas democrata de um 25”

          Que exagero!

      1. a nossa “revolução”, no momento em que eclode, ter como protagonista um general de monóculo com uma folha de serviços exemplar ao serviço do regime deposto

        Eu diria que Spínola não foi o protagonista da revolução. Ou antes, foi-o apenas na aparência. O MFA revestiu-se dele para não aparecer como um movimento de capitães insubordinados. Era bonito ter um general no topo. Mas, na verdade, Spínola nunca mandou nada. Nunca foi o motor de nada. Nunca ordenou nada. Nunca teve poder nenhum.

        E, aliás, demorou apenas 4 meses a aperceber-se disso.

      2. “Somos exagerados no momento, somos comedidos no contexto”

        Diria antes que somos moderados no extremo do momento e conciliadores no depois do contexto.

        De uma forma ou outra a maioria dos revolucionários, de todas as revoluções, foram nalguma parte da história colaboradores do regime derrubado. As revoluções nunca são populares. São das elites de pena e espada.

        Convém recordar!

      3. ” ter como protagonista um general de monóculo com uma folha de serviços exemplar ao serviço do regime deposto. “

        Discordo desta afirmação, o Marechal Spínola não esteve ao serviço do regime deposto, esteve sempre foi ao serviço de Portugal.

        “Quem se coloca no terreno nacional não tem partidos, nem grupos, nem escolas… “

        WW

    2. Será que acabou mesmo, sem tirar nem pôr?
      Debaixo da capa da democracia habita muita prepotência carnavalescamente mascarada..
      Situações ainda bem frescas de manipulação e abuso sórdido do poder andam por aí à solta.
      Com cobertura indigna de vários quadrantes da sociedade, desde a comunicação, passando pelo social e indo até ao politico.
      “Há muitos que se dizem contra a ditadura apenas com o objetivo de implantar a sua”

    3. Continuam iludidos. Mais uns 20-30 anos e já perceberão.

      A Democracia foi aliada Liberdade para destruir o acient regime, nada mais.

      É simplesmente o voto da maior minoria,
      Cada voto implica uma Lei e a maioria das leis existem para diminuir a Liberdade.

  2. Bem visto, Pedro.

    Tenho um cliente, fuzileiro, que fez parte da Operação “Mar Verde”.
    Para além das muitas histórias que me contou, desde transportar um cadáver, às costas,durante 20 km, no pino do Verão, pois ninguém ficava para trás, confidenciou-me que quando o General Spínola visitava a “Frente”, as morteiradas sessavam enquanto durava a visita oficial…que me quereria dizer?

  3. Sérgio Godinho, numa canção com letra sábia, advertia: “Só quer a vida cheia quem teve a vida parada.” Mas ninguém o escutou, entre as palavras de ordem entoadas nos comícios de rua.

    Parece-me disparatado fazer um contraste entre Sérgio Godinho e quem entoava palavras de ordem: o próprio Sérgio entoou muitas palavras de ordem, inclusivé nas suas canções. E também me parece disparatado dizer que ninguém escutou Sérgio Godinho, quando ele foi um dos cantores mais escutados no período revolucionário.

    1. Você não conhece nada do Sérgio Godinho. Se conhecesse, não teria escrito este comentário tão disparatado, tão ao lado, tão fora de mira.
      Mas pode continuar a tentar. Vá tentando. Um dia acerta.

      1. Conheço bastante do Sérgio Godinho. Nesses anos fartava-me de o ouvir. Foram os melhores tempos dele, os tempos das suas melhores canções.
        Conheço “A liberdade está a passar por aqui”, “Um trator”, “O galo é o dono dos ovos”, e outras lindas canções do período revolucionário.
        É claro que entretanto o Sérgio Godinho limpou-se, e limparam-no, e agora toda a gente (inclusivé o Pedro Correia) pretende esquecer que nesse tempo ele era um cantor engajado com a revolução.

      1. Pedro, olhe que o pai do Sô Tôr Lavoura, dito pelo próprio, anda envolvido há anos na Servilusa….deve ser cá um cheirete!…esse negócio, digo!

  4. NOVEMBRO

    passaram, talhados
    em aço cor de azeitona
    ossos serrados traziam bocas redondas
    de armas
    sobre a lona
    dos geeps e das fardas.

    breve é o sumário
    dos pneus escritos na rua.

    mulher de calendário
    nua
    expunham a liberdade
    num chaimite
    em cada canto limite
    da cidade.

    anoitecia o outono
    dos rendidos.
    desfazia-se o punho
    em dedos divididos.

    passaram e pararam. e ali
    ficaram de vela
    à única janela
    que se não apagara.

    e onde um homem chorava de perfil
    apontado da escuridão azul
    com a mira telescópica na cara

    In Memória Imperfeita

    1. 25 de Abril

      Esta é a madrugada que eu esperava
      O dia inicial inteiro e limpo
      Onde emergimos da noite e do silêncio
      E livres habitamos a substância do tempo

      in ‘O Nome das Coisas’

  5. Irene Flunser Pimentel diz algo parecido no seu livro “O caso da PIDE/DGS – foram julgados os principais agentes da Ditadura portuguesa?”

    Não fizemos o luto.

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