
Entro nos Correios aqui do bairro, tiro a senha, olho o painel de atendimento, percebo-me atrás de longa fila e prevejo – “gato escaldado…” – para lá de uma boa meia-hora de espera. E por isso, com descaro, saco um livro dos escaparates, este “Brevíssimo Dicionário dos Snobs” de Rita Ferro. E até ser chamado leio umas dezenas de páginas, as entradas até à letra “D”. Uma verdadeira delícia.
Consiste em centenas de pequenas entradas, cada uma relativa a usos – termos, temas e práticas -, algumas personagens, uma ou outra personalidade, estabelecimentos (discotecas, lojas, restaurantes, etc.), relativos a um nicho social, uma “tribo”, os tais snobs (“betos” diz-se, mas o Miguel Esteves Cardoso há anos desmontou essa generalização com uma das suas magníficas crónicas, apartando “betinhos”, “queques” e “meninos bem”).
É, repito, uma verdadeira delícia. Com suave humor, sem ponta de acinte nem gota de arrogância, e nada sisudo, fruto de uma verdadeira “observação participante” – pois a autora escreve, assumidamente, sobre o seu contexto de vivência -, Rita Ferro deixa um livro mesmo imperdível, entre o festivo e o, de facto, o documento sociológico. Pois uma “diversão” nada “frívola” – para usar os termos da própria Rita Ferro -, dado que um verdadeiro olhar analítico.
Enfim, voltarei aos Correios para acabar o livro. E muito o recomendo.
E aqui deixo uma bem-disposta entrevista da autora sobre o livro:

É de ler todo. De A a Z. Delicioso e, até quando menos se espera, com informação afinal bem útil para um melhor entendimento do nosso actual tempo doméstico.
sei apenas que é filha de António Quadros, um dos fundadores da Sociedade P. de Escritores, e neta de António Ferro.
Estou a lê-lo também…
Ora nem mais.
Eu era bem capaz de ler esse livro, assim por desfastio, na fila dos correios. Deve ser tão bem disposto como a entrevista de que ouvi parte. Comprá-lo… a história e a sociologia dos snobs interessa-me zero.
Exatamente.
Hoje comprei o livro de Pedro Almodóvar, parece-me bem mais valioso que as tristezas caseiras.
Nunca li Pedro Almodôvar, mas é um realizador de que gosto. Aprecio certo ar que ronda o burlesco em algumas personagens; Vi variados filmes do realizador e não houve um de que não tenha gostado. Acho-o um bocadinho semelhante a Inês Pedrosa, andem por onde andem, têm de, sob alguma forma, abordar o seu tema fetiche: ele a homossexualidade; ela, o feminismo. O que não prejudica, mas enjoa um nadinha.
Bea, não há assuntos desinteressantes. O que há (e muito) são abordagens desinteressantes. Esta parece-me muito aprazível.
Os assuntos não são desinteressantes em si, são desinteressantes para mim. E também lhe digo que, para além da subjectividade de cada um, há assuntos que não se entende por que carga de água interessam a alguém. Mas é verdade que a forma como é tratado conquista ou incentiva e que Rita Ferro é uma mulher com piada, o que, em linguagem erudita, um professor meu chamava de “mulher com quid”. Ou será que o senhor era snob (?!), dos verdadeiros, parentes da nobreza, ou dos que aparentam?! Sabe lá a gente.
pois,zero.
Mas o Quadros mano foi meu colega nos primeiros anos.Perdi–lhe o rasto até ao IADE do pai.
Não consegui ouvir a entrevista. É preciso ter facebook para o fazer?
Não
Tem alguma piada, mas é localmente limitado (não sai da AM de Lisboa).
Certo. E isso é assumido pela autora. E eu, como antropólogo (aqueles tipos do “trabalho de campo” sito numa pequena área – tantas vezes dito “aldeia”), tenho simpatia pela metodologia. Viva o pensamento indutivo…!