
Todos os dias no metro encontro mulheres, homens, novos, velhos, de olhos postos no ecrã do smartphone. Mesmo quem está acompanhado baixa a cabeça e mergulha nas redes sociais, ou nos jogos, ou no youtube, ou no messenger alheado do que se passa à volta. Visto de fora este ainda me parece um cenário decalcado de um filme de ficção, apesar de ser já uma banalidade do quotidiano. O que me provoca estranheza não é a atitude individual, mas o facto de a ver replicada pela larga maioria das pessoas que ocupam as carruagens. Observada no colectivo remete-nos para a mise en scène religiosa: todos de cabeça baixa, como que em adoração, manietados por algo que os transcende e submete. Na mesma pose, provavelmente com as mesmas motivações.
O artista polaco Pawel Kuczynski, que assina a imagem que destaquei, fez uma série brilhante de desenhos sobre esta nova religião que professamos. Pode vê-la aqui: https://www.boredpanda.com/satirical-illustrations-polish-pawel-kuczynski/.

“Visto de fora este ainda me parece um cenário decalcado de um filme de ficção, apesar de ser já uma banalidade do quotidiano.”
Também me faz confusão.
Exma Senhora
Presumindo que a entendo, comungo das suas preocupações.
Mas tenho esperança de que muitos apesar de tudo não “professem a religião”. Sou um deles.
António Cabral
Já somos dois. Felizmente para mim e para si.
Não me choca, admito. Quando fazia percursos mais longos de autocarro ou de metro entre casa e a universidade ou o trabalho costumava ler, mas actualmente o meu percurso de 5-10 minutos no 716 ou no 726 não justificam o esforço. O telemóvel ajuda: não só substitui um relógio e um leitor de mp3 (antigamente tínhamos os walkman e os discman, muito menos práticos) como ainda dá acesso a notícias, a leitura, a entretenimento fácil, sem grandes requisitos de espaço. Convenhamos que em percursos pendulares o interesse pela paisagem esgota-se numa semana, e as conversas com estranhos raramente se proporcionam, pelo que entre olhar para o vazio ou olhar para um feed de notícias ou para um chat…
Nos percursos pendulares também trago sempre algo para me distrair: livro, jornal e claro, também espreito o smartphone. Mas é da uniformização que falo. Impressiona-me este monolitismo. Todos a olhar para o mesmo objecto que seguram nas mãos, como se mais nada existisse. Afinal somos nós que temos smartphones ou são os smartphones que nos têm? É nisso que penso muitas vezes…
A questão é que o objecto é apenas isso – o uso que se lhe dá pode ser bastante distinto. Nos autocarros vê-se de tudo: há quem faça scroll down no facebook ou no instagram; há quem se entretenha com videojogos (e só aqui as possibilidades são vastas); há quem leia notícias; há quem leia contos (faço-o de vez em quando, é bastante prático); há quem leia as banalidades de páginas de redes sociais; há quem partilhe “memes”; há quem partilhe fotografias da família ou de amigos. Enfim, percebes a ideia. O smartphone resultou porque permite fazer isto tudo – as suas funcionalidades chegam para pessoas bastante diferentes.
Dito de outra forma: parece que está toda a gente a fazer a mesma coisa, mas cada pessoa se calhar está a fazer a sua coisa. O objecto que permite a cada um fazer a sua coisa é que é idêntico.
(tenho MESMO de passar a confirmar que o browser tem o meu registo antes de fazer comentários)
Repara, João, que eu no texto refiro que as pessoas estão a fazer coisas diferentes no telemóvel. E nota, não nego as vantagens da tecnologia, nomeadamente do smartphone, objecto de que não prescindo. Mas é a uniformização de atitudes que me impressiona, porque se me afigura como o símbolo de uma cultura que se instalou e que tem aspectos nefandos que me inquietam. Como sabes, já há muitos jovens (os que nasceram já neste ambiente) que dizem que preferem encontros online aos presenciais. Já é banal ver-se casais em restaurantes e esplanadas, lado a lado, mas com os olhos no telemóvel. Há gente que estando em grupo, isola-se com o telemóvel na mão. Não pode ser saudável este mergulho constante no mundo virtual, preencher todos os minutos assim.
Percebo o que dizes, mas o teu foco é diferente. Falas do que a tecnologia nos proporciona. Eu, dos seus efeitos no nosso comportamento em sociedade.
Não troco o cheiro e o som de páginas novas a desnudarem-se aos meus olhos, não abdico da suavidade de livros velhos quase desfolhados de ternura.
E não percebo outra ligação a quem está ao lado que não pelo olhar, pela linguagem universal do gesto ou pela menos universal fala.
Mas… o telemóvel é uma ferramenta, religião serão as possibilidades que abre em si mesmo, abrindo-nos e fechando-nos aos outros. Para alguns será o contornar da timidez, o evitar falar com o outro; para uns será o afastar da solidão, o poder estar com o outro; para outros será o evitar estar consigo, o poder fingir ser outro.
E quem não está não é menos real – no meio de anónimos de olhares furtivos ou esquivos quase não há olhares francos, e os poucos sorrisos são quase todos de circunstância – má circunstância por ter sido apanhado “e lá vem conversa, bolas”. Já era assim antes dos smartphone, dos telemóveis, dos pager, dos walkman.
Imersa num livro, oro horas a fio ao frio ou ao calor. E quanto mais me afundo mais flutuo, ignorante de quem me rodeia, incomodada por quem me aborda.
Nunca me irritei por me interromperem o uso do smartphone; já rosnei por me desviarem do livro.
A culpa da desconexão presencial não é do smartphone mas dos mesmos de sempre: nós.
Sarin, não nego: o telemóvel é uma ferramenta de trabalho importante. Se o esqueço em casa, fico logo em stress. Abre-nos aos outros? Acho discutível, mas que nos fecha aos outros, não duvido.
A desconexão presencial é, naturalmente, opção nossa, mas na minha opinião tem sido dramaticamente acentuada por esta cultura que se deixou capturar pela tecnologia.
Abre-nos aos outros porque nos aproxima de quem temos longe, do que temos longe.
Fecha-nos aos outros porque, fixados no longe, não atentamos nem colaboramos no que nos rodeia e perdemos o pulso ao quotidiano.
Teresa, abomino estar com amigos ou conhecidos e ver a conversa interrompida por um “estou” não urgente. Incomoda-me estar na esplanada e ouvir crianças a rir dos desenhos que animam o telemóvel, os balouços ali abanados pelo vento. Abomino, incomoda-me e recuso a dependência. Da mesma maneira que abomino folhear revistas gastas em salas de espera e emerjo para a consulta de um telemóvel que me permite distrair ou trabalhar naqueles 2 minutos ou 2 horas de espera. Porque a conversa nem sempre apetece ou nem sempre merece, o tempo não nos pertence, a mala pesa… e eu sempre gostei de canivetes suíços. Livros só levo quando antecipo a demora, portátil idem 🙂
A tecnologia deve servir-nos, não a inversa. E este é um valor fundamental – que fundamentalmente esquecido por muitos, concordo.
Então, Sarin, no fundamental estamos de acordo
Parcialmente em parte, sem dúvida 🙂
A ideia é conexão total.
Carne nunca mais.
Enquanto,não se arranja um pastelinho de bacalhau sem queijo?
Outro,duas taças.
O problema mesmo, é quando alguém usa o telemóvel/smartfone a vasculhar corpos humano pelo interior, para escrever livros, para imaginar filmes de ficção científica ou de animação, ou simplesmente para se divertir, a fim ,de até poder levar alguém à morte, se a pessoa não tiver força anímica com ela , não tiver um interior bem forte e resista…
Garanto, eu -Já se fazem estas aplicações! Os smartfones , para quem é lunático e quer governar o mundo, são armas assassinas.
Estou a comentar ás 4he 30 da madrugada, apontada por um , ou mesmo dois…- Quem o faz? Gente bem entre nós , bem popular, gente da nossa praça culta!
Continuam as sessões de quimioterapia de smartphone, pela cabeça , ventre e orgáos que delimitem o que querem ensaiar. O caminho percorrido dura já desde abril, estamos agora em outubro / 2018. Continua a todo o vapor, com a desfaçatez mais arreigada que se conhece!
São ao que chamam os caçadores de homens…!
Novos métodos . Tecnologias avançadas…
O problema mortal mesmo é quando um smartfon é ligado ao ventre, útero e ovários, e desencadeia com o foco de energia cancerígena, hemorragias – tanto no ventre, como no cérebro, como nos olhos, como até nas próprias mãos, pois há rompimento de veias e vasos sanguíneos com a insistência do seu uso…