Síndrome de Stendhal e tal


Bandeira,

José Bandeira

(Foto: Um homem atacado pela síndrome de Stendhal em plena Santa Croce, num momento místico captado por este seu criado. A igreja está escura para que não se veja o quanto é feia.)

O grande crítico vitoriano John Ruskin (a quem por vezes acendo velinhas e cuja foto quero muito em versão magneto de frigorífico) diz que a basílica florentina de Santa Croce não passa de uma espécie de mal amanhada despensa de frescos, túmulos e turistas, não forçosamente por esta ordem. O alvo dele é praticamente tudo o que não passou pelo crivo do arquitecto original, Arnolfo di Cambio, cujo estilo aprecia e ao qual, num rasgo de genialidade que ainda hoje me tira o sono, deu o nome de… Arnolfo-Gótico.

Permita, galerníssimo leitor, que cite Ruskin em Mornings in Florence (tradução caseira):

“[o leitor] Regressará a casa com a vaga impressão de que Santa Croce é, de algum modo, a mais feia igreja gótica em que alguma vez pôs os pés. Bom, de facto assim é (…)”

E pronto, no que aos ingleses diz respeito é case closed.

Mas de Stendhal, que não era crítico de arte, vitoriano muito menos e as más-línguas chegam a jurar francês, dir-se-ia que apreciou Santa Croce, que foi o primeiro local turístico que visitou, pelo que percebo das suas notas de viagem, aquando de uma visita à cidade toscana. Tanto assim que, em saindo da basílica, o autor do jamais concluído O Rosa e o Verde (cores que, digo-o a título de curiosidade, abundam nos mármores florentinos), trocou os passos, sofreu uma espécie de vertigem, quase desfalecia. A citação que se segue é traduzida de Naples, Rome et Florence:

“Havia atingido aquele ponto emocional onde se cruzam os sentimentos apaixonados e as sensações celestiais que nos dão as Belas-Artes. Em saindo de Santa Croce, sofri um acelerar do coração, aquilo que em Berlim chamam ‘nervos’; a vida exauria-se dentro de mim, caminhava com receio de cair.”

O fenómeno, que atingia um sem-número de outros visitantes de Florença, depressa se tornou conhecido como “Síndrome de Stendhal”; e no Ospedale di Santa Maria Nuova inaugurou-se um serviço – que viria a tornar-se muito conceituado – dedicado ao estudo dessa estranha condição clínica que atinge aqueles que sofrem os efeitos da exposição excessiva a obras de arte. Ignoro se o serviço ainda funciona, a bem da tradição espero que sim, se bem que continue a achar que o mal de Stendhal era falta de brioches e cappuccino.

“E como… ahm… como ultrapassou Stendhal a desagradável situação?”, ouço perguntar, de Moleskine e caneta em riste, o plantivo leitor, recordado de haver sentido algo de semelhante numa exposição de aguarelas de um Artista Local na junta de freguesia do seu bairro.

Pois ultrapassou-a, respondo eu, sentando-se num banco e lendo poesia – à época, o ansiolítico mais eficaz, até porque se podia tomar com álcool. Muito álcool.

 

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